ARMANDO AVENA
O Banco Central errou de novo
Confira artigo de Armando Avena, do jornal A TARDE desta quinta-feira, 17


O Banco Central errou ao reduzir a Selic em apenas 0,25 ponto porcentual, levando a taxa básica de juros para 13,75% ao ano e, novamente, fez uma escolha excessivamente conservadora.
O Copom – Comitê de Política Monetária, que é capitaneado pelo Presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, não foi capaz de perceber que a conjuntura econômica permitia um corte maior.
A economia brasileira já apresenta sinais claros de desaceleração. O PIB perdeu força e cresceu apenas 0,5% no segundo semestre, o mercado começa a sentir os efeitos de dois anos de política monetária restritiva e a inflação está cedendo. O IPCA de agosto registrou deflação de 0,32%, enquanto a inflação acumulada em 12 meses caiu para 4,22%, abaixo do teto da meta, de 4,5%.
É verdade que ainda existem problemas. A inflação de serviços resiste, as expectativas para 2027 estão acima da meta e o cenário internacional tornou-se mais complicado com a alta do petróleo e as incertezas geopolíticas. Mas esses riscos não justificam, por si só, uma política monetária tão restritiva.
O problema é que o Banco Central do Brasil é extremamente ágil na hora de subir os juros, mas extremamente lento na hora baixar, mesmo quando já submeteu a economia brasileira por dois anos a uma taxa de juros reais da ordem de 10%, uma das maiores taxas de juros do mundo.
Com a redução pífia de 0,25%, a política monetária vai continuar produzindo um forte efeito contracionista sobre o consumo, o crédito e principalmente o investimento. E vai aumentar o número de famílias inadimplentes, que já é recorde, e o número de empresas em recuperação judicial, que só faz aumentar.
E vai comprometer o futuro, pois aumento de juros tem efeito com delay. Ou seja, os juros que estão sendo elevados agora continuarão produzindo efeitos sobre a economia durante os próximos meses. A manutenção de uma taxa elevada quando a inflação já apresenta sinais de acomodação pode produzir uma desaceleração maior do que a desejada. É um típico caso em que a dose do remédio aumenta sobremaneira os efeitos colaterais.
O Banco Central argumenta que é preciso esperar uma convergência mais clara da inflação para a meta, mas se o Banco Central for esperar que todos os indicadores estejam perfeitamente alinhados para começar a reduzir os juros de maneira mais significativa, poderá descobrir tarde demais que manteve a economia sob pressão por tempo excessivo.
É aí que aparece a diferença entre uma política monetária prudente e uma política monetária excessivamente conservadora. O BC poderia ter cortado os juros em 0,50% e, ainda assim, uma taxa Selic de 13,5% seria suficientemente elevada para manter as expectativas sob controle.
O pior é que o Brasil carrega uma dívida pública alta e uma parcela extraordinariamente grande dessa dívida é diretamente afetada pela Selic. Em julho, 51% da Dívida Pública Federal estava vinculada à taxa básica, o maior percentual desde 2003.
Se o Copom tivesse reduzido a Selic em 0,50% em vez de 0,25%, a economia potencial no custo anual da dívida seria de aproximadamente R$ 11,5 bilhões. Ou uma economia de quase R$ 1 bilhão por mês.
Com a taxa Selic elevada, o Tesouro precisa pagar mais juros sobre essa parcela da dívida. Esses juros aumentam o gasto público, elevam a necessidade de financiamento e dificultam a estabilização da relação dívida/PIB.
Com isso, o serviço da dívida fica mais caro, a dívida pública aumenta, crédito para pessoas e empresas permanece caro, o investimento se reduz e o crescimento do PIB cai, mesmo com os preços em deflação.
Um corte de 0,50 ponto percentual seria mais compatível com a conjuntura. Seria uma tentativa de suavizar a mais longa e profunda política monetária contracionista da história recente do país. Infelizmente, mais uma vez o Banco Central satisfez o mercado financeiro e prejudicou o setor produtivo.