A TARDE MEMÓRIA
Baianos seguiram com interesse trajetória de piloto aventureiro
Conquistas, tragédias e polêmicas envolvendo o aviador norte-americano Charles Lindbergh movimentaram o noticiário de A TARDE nos anos 1930


Considerado um dos pioneiros da aviação no século XX, o norte-americano Charles Lindbergh colocou seu nome na história em 1927, quando se tornou a primeira pessoa a atravessar sozinho o Atlântico em um voo de 33 horas, sem escalas, entre Nova York e Paris, no comando do avião Spirit of St. Louis. O feito o tornou conhecido mundialmente e, dali para a frente, o colocou nas páginas dos jornais. Por aqui, A TARDE passou a década de 1930 atualizando os baianos sobre a trajetória profissional e vida pessoal do aviador, marcada por glórias, tragédias, controvérsias políticas e uma visita ao Brasil.
Charles nasceu em 4 de fevereiro de 1902 na cidade de Detroit (Michigan), cresceu em Little Falls (Minnesota) e desde muito jovem demonstrou interesse por mecânica e aviação. Chegou a frequentar a Universidade de Wisconsin, mas abandonou a instituição para se matricular em uma escola de aviação em Lincoln (Nebraska). Comprou um Curtiss JN-4, aeronave de treinamento monomotor fabricada nos EUA durante a Primeira Guerra Mundial, com a qual realizava acrobacias aéreas.
"Após um ano nas escolas de aviação do exército no Texas (1924-1925), tornou-se piloto de correio aéreo (1926), voando na rota de St. Louis, Missouri, a Chicago. Durante esse período, obteve apoio financeiro de um grupo de empresários de St. Louis para concorrer ao Prêmio Orteig de US$ 25.000, oferecido para o primeiro voo sem escalas entre Nova York e Paris. Para realizar o feito, Lindbergh mandou construir, no início de 1927, um monoplano monomotor de acordo com suas especificações em San Diego", explica o perfil do aviador na Encyclopedia Britannica.

Lindbergh sofreu atraso de vários dias na viagem devido ao mau tempo, mas às 7h52 da manhã de 20 de maio, decolou dos Estados Unidos rumo à França. No entanto, se por um lado havia grande expectativa para que conseguisse realizar o voo, por outro havia também preocupações. Dias antes, em 8 de maio, o ás francês da Primeira Guerra Charles Nungesser e seu navegador François Coli haviam desaparecido depois de também tentarem conquistar o Prêmio Orteig fazendo o trajeto inverso, de Paris para Nova York.
"Por que eu não deveria voar de Nova York para Paris? Tenho quase vinte e cinco anos. Tenho mais de quatro anos de experiência em aviação e quase duas mil horas de voo. Já fiz acrobacias aéreas em mais da metade dos quarenta e oito estados. Já transportei correspondências aéreas nas piores noites. (...) Sou capitão do 110º Esquadrão de Observação da Guarda Nacional do Missouri. Por que não sou qualificado para um voo como esse? Não faz muito tempo, quando eu era estudante universitário, pilotar um avião parecia um sonho. Mas esse sonho se tornou realidade", escreveu Lindbergh em sua autobiografia O Espírito de St. Louis, premiada com o Pulitzer em 1954.
Às 22h24 de 21 de maio de 1927, depois de percorrer cerca de 5.800 quilômetros em 33 horas e meia de voo, o piloto pousou em segurança no aeroporto de Le Bourget, próximo a Paris. Exausto e atordoado, foi recebido por uma multidão que aguardava ansiosa para saudá-lo. Naquele instante, o jovem piloto se transformou em herói popular dos dois lados do Atlântico e seu nome passou a ser reconhecido em grande parte do mundo.
O então presidente dos EUA Calvin Coolidge lhe concedeu a Cruz de Voo Distinto e o nomeou coronel da Reserva da Força Aérea. A fama do aviador deu origem ao chamada “Lindbergh Boom” e relatos sobre seus feitos passaram a pipocar nos principais jornais do mundo. Nessa mesma época, ele se interessou pela escrita e, poucos meses após o voo histórico, publicou o primeiro livro, Nós (1927). A partir daí vieram outras publicações, culminando no Pulitzer. Em 1974, pouco antes de morrer, entregou mais de mil páginas de manuscritos que seriam publicados postumamente.
Sucesso e tragédia
Após a travessia do Atlântico, as ações da indústria aeronáutica valorizaram e o interesse pela aviação comercial disparou nos Estados Unidos. Lindbergh usou a fama para promover a aviação comercial e embarcou em uma turnê, sobrevoando os Estados Unidos e a América Latina e falando sobre o futuro das viagens aéreas comerciais. Se tornou consultor técnico da Transcontinental Air Transport (TAT), estabeleceu as rotas da companhia aérea e organizou sua infraestrutura. Foi nessa época, enquanto visitava o México, que conheceu a primeira mulher, a também aviadora Anne Morrow. Ela foi copiloto em muitas das viagens que o casal passou a empreender.

Juntos, Charles e Anne fizeram dois importantes voos de reconhecimento a bordo do hidroavião Lockheed Sirius, em nome da Pan American Airways (Pan Am). Essas viagens abriram o caminho para potenciais rotas comerciais através do Oceano Pacífico, em 1931, e do Atlântico, em 1933.
Cerca de um ano após o casamento, nasceu o primeiro filho do casal, Charles Augustus Lindbergh Jr. A história do Lindbergh bebê, no entanto, ganharia as manchetes dos jornais por conta de uma tragédia: “Um dia [...] o casal Lindbergh achou vasia a perfumada cama do adorado filhinho. Haviam roubado a creança!", diz a edição de A TARDE de dia 5 de abril de 1932.
Em 1º de março do mesmo ano, Charles e Anne estavam em casa, em Nova Jersey, quando descobriram que o filho primogênito, de 1 ano e 8 meses, havia sido levado do berço onde dormia no segundo andar da residência. Durante as buscas, foi encontrado um bilhete de resgate que exigia 50 mil dólares. Foi o primeiro de muitos. O caso rapidamente passou da polícia local para a Polícia Estadual de Nova Jersey, dando início a uma busca que causou comoção dentro e fora dos Estados Unidos e veio repercutir nas páginas de A TARDE.
"Não havia manchas de sangue dentro ou ao redor do quarto, nem impressões digitais. Funcionários da casa e da propriedade foram interrogados e investigados. O Coronel Lindbergh pediu a amigos que se comunicassem com os sequestradores e eles fizeram amplos apelos para que iniciassem as negociações", explica o perfil do caso no site do FBI.
Na Bahia de 1932, A TARDE acompanhava as buscas, que duraram cerca de dois meses e meio. "Todas as pesquisas teem falhado sem embargo de profissionaes do crime, 'gangsters' chamados, se teem improvisado em detectives amadores, collaborando activamente", diz a edição de 6 de abril.
Personagens do submundo foram contatados nas tentativas de obter informações e outros, como o notório gângster Al Capone, preso na época, se ofereceu para encontrar o bebê e seu sequestrador em troca de indulto, o que foi negado. Inúmeras pistas foram analisadas e esgotadas, como noticiado por A TARDE, em 29 de março de 1932, quando, "depois de 26 dias de constantes pesquizas, com o fim de encontrar-se o filhinho do cel. Lindbergh, as primeiras notícias positivas sobre a creança foram fornecidas hontem pelo dr. Peackock, que disse ter visto o menino, que, se acha prisioneiro num sítio afastado, em Carolina do Sul", registra o jornal.
Visita ao Brasil
O corpo de Charles Augustus Lindbergh Jr. foi encontrado em 12 de maio de 1932, a cerca de 7 quilômetros de sua casa. O acusado pelo sequestrado e assassinato do bebê, Bruno Richard Hauptmann, foi preso em 1934 e executado em 1936. Nos anos 1990, A TARDE noticiaria também a morte da viúva de Hauptmann, relembrando a comoção gerada com a morte do bebê Lindbergh em 1932.
Ainda em meio às investigações do sequestro, Charles Lindbergh visitou o Brasil, em voo feito por ele e Anne até Natal (RN). "Às 14 horas, o commercio fechará, a fim de permittir que os empregados possam dar boas-vindas ao famoso aviador. (...) O desembarque do coronel Lindbergh e sua esposa constituiu verdadeira apotheóse. A multidão que se apinhava no cáes, ovacionou os aviadores", informa A TARDE, em 7 de dezembro de 1933.

O casal ficou hospedado com o cônsul inglês, que morava na capital potiguar, até o dia seguinte, conforme segue o relato de A TARDE, quando voltaram a levantar voo. "Informação radio-telegraphica recebida nesta capital, às 10 horas de hoje, pelos srs. Conde & C., agentes da Panair do Brasil, noticia que o famoso aviador Charles Lindbergh e sua esposa tinham levantado vôo de Natal, com destino ao Pará. A partida verificou-se às 8 horas e 15 minutos. Pouco antes de meio dia, a Agência da Panair recebia nova informação, dizendo que o apparelho de Lindbergh estava próximo do Maranhão".
Apesar das glórias pessoais e avanços que o voo transatlântico trouxe para a aviação e sua carreira, a constante presença e assédio da imprensa incomodava Charles Lindbergh e Anne, pois a família era constantemente seguida. O incômodo se agravou depois da morte do primeiro filho e piorou quando o segundo filho do casal, Jon, começou a receber ameaças de morte. Em 1935, a família resolveu se mudar para a Grã-Bretanha e, em 1936, através do adido militar, oficial das forças armadas designado para trabalhar em uma embaixada ou representação diplomática no exterior, Charles foi para Berlim (Alemanha) com a missão de elaborar relatório sobre a aviação militar alemã.
Em 1938, às vésperas da Segunda Guerra, os Lindbergh começaram a criar planos para se mudar para Berlim. Em meio às tensões da ascensão do nazifascismo na Europa e da iminente guerra, no dia 9 de agosto daquele ano, A TARDE informou que, no dia anterior, havia recebido a notícia de que o aviador e a esposa haviam desaparecido durante um voo perto de Londres. "Charles Lindbergh não morreu. Enquanto a imprensa de todo o ecúmeno civilizado registrava, hontem, seu desaparecimento, descia, às 8 horas da noite, no aeródromo de Croydon, nos arredores de Londres, sorridente e surprehendido pelo alarme que provocou essa sua viagem", explica o jornal.
Flerte com o nazismo
Em outubro de 1938, Charles Lindbergh recebeu da Alemanha nazista a Cruz de Serviço da Águia Alemã, gesto que foi interpretado como simpatia ao regime. Em novembro daquele ano, após a Kristallnacht, quando sinagogas, casas e lojas judaicas foram atacadas e cerca de 30 mil judeus enviados a campos de concentração, os Lindbergh desistiram de se mudar para a Alemanha. Nesse mesmo mês, Charles concluiu outra missão, avaliar o sistema aeronáutico da União Soviética, conforme também foi noticiado por A TARDE, em 08 de novembro daquele ano.
De volta aos EUA em 1939, Lindbergh tornou-se uma das principais vozes do isolacionismo, defendendo a neutralidade americana na Segunda Guerra e chegando a publicar textos que exaltavam ideias de supremacia racial, em contraste com a posição do então presidente Roosevelt de conter a expansão nazista. Durante a guerra, ele entrou no Comitê America First e seu discurso em Des Moines, em 1941, acusando britânicos, judeus e o governo Roosevelt de pressionar os EUA para a guerra, manchou ainda mais sua imagem já abalada pela condecoração nazista e por acusações de antissemitismo.
Na década de 1960, longe das acusações da época da Segunda Guerra, Charles Lindbergh passou a dedicar-se à conservação ambiental, viajando pelo mundo para apoiar causas ligadas à proteção de espécies e habitats ameaçados e em defesa das terras dos Maasai, na África, e Tasaday, nas Filipinas. Também atuou junto à União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e ao World Wide Fund For Nature (WWF). Consta, ainda, em sua controversa biografia, que ele ajudou a criar o Parque Nacional Voyageurs, em Minnesota e defendeu a preservação de baleias, lobos e áreas selvagens no Havaí, onde viveu seus últimos anos.
O aviador morreu em 26 de agosto de 1974 e seu enterro, uma cerimônia simples, ocorreu em um cemitério com vista para a Baía de Kipahula, em Maui.
*Com a colaboração de Tallita Lopes
*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.
*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE