Beijoqueiro deixou sua marca em Salvador nos anos 1980 e 1990
Taxista beijou Irmã Dulce, foi preso durante visita de João Paulo II e é lembrando até hoje

Ele não era artista, político ou celebridade, mas conseguiu entrar para a história com um gesto simples e ousado: o beijo, que era dado em figuras públicas nacionais e estrangeiras em visita ao Brasil. O ex-motorista de origem portuguesa José Alves de Moura, o "Beijoqueiro", transformou a irreverência em marca registrada ao surpreender Frank Sinatra, Irmã Dulce, Gilberto Gil e o Papa João Paulo II com beijos durante eventos. Entre aplausos e polêmicas, ele passou por Salvador nos anos 1980 e 1990, quando foi preso na cidade.
Com o tempo, o Beijoqueiro se tornou um símbolo da extravagância nacional dos primeiros anos após a ditadura militar e cravou suas peripécias na memória coletiva, ao desafiar protocolos de segurança para dar umas bitocas em gente que sequer esperava ser beijada. Na última reportagem da série especial sobre os 477 anos da capital baiana, comemorados neste domingo (29), relembramos a passagem do personagem pela cidade a partir dos registros preservados no Centro de Documentação (Cedoc) de A TARDE.
Personagem de uma época que, para os nostálgicos, era mais “romântica e ingênua”, o Beijoqueiro certamente seria visto de outra forma nos tempos atuais, quando a sociedade discute questões como assédio e consentimento. Mas, mesmo nos seus anos de intensa atividade, ele não era unanimidade e a depender da celebridade envolvida, armavam-se esquemas de segurança cinematográficos para mantê-lo longe dos ‘alvos’ de seu ‘afeto’.
"Em nome do povo brasileiro, em nome de Irmã Dulce, me deixe beijar os pés do papa". O pedido do Beijoqueiro foi feito ao delegado Romeu Tuma, na época superintende da Polícia Federal (PF) e responsável pela segurança da segunda visita de João Paulo II a Salvador. O registro está na edição de A TARDE de 21 de outubro de 1991, quando o personagem foi fotografado enrolado em uma bandeira do Brasil. Ele beijou várias vezes o próprio Romeu Tuma, que nas imagens de A TARDE, aparece rindo da peculiar situação.
Mais cedo naquele mesmo dia, relata a reportagem, o Beijoqueiro havia sido detido por agentes da recém-criada Delegacia de Proteção ao Turista (Deltur), no Belvedere da Sé. A prisão dele foi a primeira ocorrência policial registrada naquela especializada. "Ele foi localizado nas proximidades da Igreja do Rosário, na Avenida Sete de Setembro, em meio a populares, onde aguardava a passagem do papa para beijar seus pés, como fez na primeira visita do santo padre ao Brasil. Bastante descontraído, aproveitou a oportunidade e beijou as delegadas e agentes, convidando-as para formarem sua segurança pessoal", explica o texto em A TARDE.
Na visita de João Paulo ao Brasil nos anos 1980, o Beijoqueiro seguiu o papa por todas as capitais visitadas pelo pontífice da Igreja Católica, conseguindo beijá-lo, finalmente, em Manaus, no Amazonas. A estimativa é que ao longo da sua carreira de caçador de beijos, José Alves de Moura tenha sido preso pelo menos 70 vezes entre 1980 e a primeira década dos anos 2000.
Mais duas visitas
Antes da detenção pelos agentes da Deltur, o Beijoqueiro já tinha visitado Salvador em 1987, quando beijou as mãos de Irmã Dulce, nas comemorações pelo aniversário de 73 anos da futura Santa Dulce dos Pobres. A cena, registrada pelo fotojornalista e cineasta Roberto Gaguinho, que integrou a equipe de A TARDE, aparece na capa do jornal na edição de 21 de maio daquele ano. A chamada elenca o nome de José Alves de Moura e o apelido pelo qual ficou famoso, junto com os nomes das autoridades e celebridades que prestigiaram as homenagens ao “Anjo Bom da Bahia”.
O Beijoqueiro voltou à cidade pela terceira vez em 1992, também para beijar Irmã Dulce uma última vez, durante o velório da santa dos pobres. "Famoso por beijar celebridades, o beijoqueiro José Alves de Moura, 52 anos, não quis perder a oportunidade de dar um beijo naquela que, como definiu, 'fez o que nenhum governo de nenhum país realizou'. Em meio a lágrimas, ele criticou a ausência do presidente Fernando Collor, dizendo que ontem não era dia de expediente e que [Collor] perdera 'a última oportunidade de ver o corpo de uma santa'”, registra a edição de A TARDE, de 16 de março de 1992.
Mais adiante, no mesmo texto, o jornal cita que o Beijoqueiro “apelou ainda aos governos estadual e federal para que ajudasse concretamente as instituições mantidas pela fundação", em referência às Obras Sociais Irmã Dulce (Osid), fundadas pela freira baiana ainda no final dos anos 1950.
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Portugal x Brasil
Natural de Portugal e radicado no Brasil, José Alves de Moura foi motorista, segundo ele mesmo revelou em entrevista ao A TARDE em 1987, “de táxi, caminhão e coletivo”. Morreu em 2019, aos 79 anos, já fora dos holofotes e do circuito de eventos onde buscava celebridades para beijar. Durante boa parte da vida, morou no Rio de Janeiro, mas viajava por todo o país atrás de figuras públicas para brindá-las com bitocas, geralmente na bochecha.
O evento que é considerado o primeiro “ataque” e o mais famoso do Beijoqueiro, que recebeu o apelido de “serial kisser" graças a um documentário sobre sua vida, aconteceu em 26 de janeiro de 1980, no Maracanã, quando ele conseguiu subir no palco e beijar o cantor Frank Sinatra durante um show.
Esse show do Sinatra, recorda o jornalista e escritor Mouzar Benedito, ouvido pela equipe do A TARDE Memória, teve forte esquema de segurança. O jornalista entrevistou o Beijoqueiro nos anos 1980 e escreveu sobre as peripécias do personagem para um site, mais recentemente. Ele afirma que se divertia "vendo o medo de autoridades e de gente famosa, que armava um esquema de segurança terrível com medo de um ataque inédito", justamente os beijos do ex-motorista português.
"No famoso show do Frank Sinatra, em 1980, que reuniu 175 mil pessoas no Maracanã, o Beijoqueiro conseguiu, não sei como, entrar no meio do gramado onde estava o Sinatra e tascar uns beijos nele. O Sinatra ficou assustado e deu um empurrão nele", acrescenta Mouzar.
Figura controversa
A presença de José Alves de Moura em eventos públicos despertava tanto curiosidade quanto controvérsia, já que os beijos inesperados eram vistos por alguns como expressão do humor brasileiro, mas também levantavam discussões sobre invasão de privacidade, algo que, naquela época, não era tão amplamente debatido como hoje, Mas que já incomodava, principalmente quando os alvos do Beijoqueiro eram mulheres.
Durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento do Rio de Janeiro, em 1992 - a Rio 92 -, o ataque do Beijoqueiro assustou as atrizes Shirley Maclaine e Olivia Newton-John, que viu o ataque à colega acontecer de perto e quando percebeu as intenções do Beijoqueiro de beijá-la também, buscou abrigo entre os seguranças.
"O tom rosado deu lugar à leve vermelhidão de raiva, até os tradutores explicarem a ela (Shirley Maclaine) que o português J. Moura justamente ficara conhecido como Beijoqueiro por ações diretas como aquela. Com um time completo de célebres bochechas a sua disposição, o beijoqueiro só teve sucesso em sua investida contra Shirley Maclaine", diz A TARDE, na edição de 08 de junho de 1992.
O beijo mais desejado pelo Beijoqueiro, no entanto, não era nas atrizes, mas em Pelé, que ele não conseguiu beijar. Ainda assim, o personagem afirmou, na ocasião, que saiu feliz do evento na Avenida Atlântica por "ao menos uma vez, não ter apanhado de policiais e seguranças", acrescenta a reportagem.
Na sua visita a Salvador em 1987, quando beijou irmã Dulce e o então governador Waldir Pires, o Beijoqueiro esteve na sede de A TARDE. Durante a visita, além de afirmar estar satisfeito pelos beijos no governador e na fundadora das Osid, aproveitou para se gabar de ter furado o esquema de segurança em Manaus, na ocasião em que beijou os pés do papa João Paulo II 17 vezes. Sobre a visita a Salvador, exaltou “o tratamento recebido por parte da polícia baiana que, ao contrário das existentes em outros estados, não lhe molestou. 'No Rio já levei murros, cassetadas, safanões’", explicou.
O Beijoqueiro ainda contou ao A TARDE que, até aquele momento, 1987, tinha sido preso 31 vezes, processado em 12 oportunidades e agredido em 23 ocasiões, o que lhe rendeu cicatrizes no corpo. Uma delas conseguiu em 1983, quando foi preso em São Paulo por tentar beijar o cantor Júlio Iglesias e apanhou na delegacia ao tentar beijar o delegado em troca da soltura.

Audácia e ousadia
A ousadia do Beijoqueiro em atravessar protocolos e oferecer beijos inesperados o transformou em um personagem que era símbolo de irreverência e motivo de debate tanto pelo arroubo em beijar até desconhecidos na rua, sem autorização, quanto pela habilidade em furar esquemas de segurança. O jornalista Mouzar Benedito recorda que, na posse do governador Leonel Brizola, em 1983, no Rio de Janeiro, o esquema de proteção foi quebrado de forma inusitada: "Ele desceu por uma corda e tascou um beijo no Brizola. Não teve repressão, o Brizola deu risada e impediu que a segurança o prendesse”.
Na edição de A TARDE de 8 de dezembro de 1992, outro registro sobre o personagem conta que ele havia tentado beijar o ex-presidente da extinta União Soviética, Mikhail Gorbachev, que iria ser homenageado pela Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro. "Na saída do hotel, um susto: o Beijoqueiro José Alves de Moura conseguiu furar a segurança, se aproximou do carro de Gorbachev, abriu a porta e, quando se preparava para beijá-lo, foi afastado e jogado ao chão por um segurança. 'Quero dar um beijo pela paz', gritava", relata o texto. Ele ainda fez uma segunda tentativa de beijar Gorbachev na sede da ABL, mas não conseguiu.
Suas tentativas de beijos também eram direcionadas a jogadores, equipes técnicas de futebol e figuras públicas nas arquibancadas dos estádios. Em 24 de novembro de 1991, beijou a ex-ministra da economia Zélia Cardoso de Mello durante um jogo do Vasco no Maracanã. E, em 2001, conseguiu beijar Luiz Felipe Scolari, o Felipão, depois dele anunciar os convocados para as eliminatórias da Copa do Mundo de 2002. "O técnico foi surpreendido e acabou sendo 'atacado' pelo 'Beijoqueiro', de quem recebeu, além do tradicional beijo, um buquê de flores. Scolari reagiu com bom-humor ao assédio do caçador de personalidades. 'É um sinal de carinho, de amizade', disse ele, constrangido", revela a edição de A TARDE de 14 de junho.
Memória coletiva
Apesar do controverso comportamento, o Beijoqueiro ganhou espaço na memória coletiva como o personagem excêntrico que sempre era esperado em grandes eventos. Quando não estava presente, sua falta era notada, como destacou uma nota de A TARDE de 19 de julho de 1993: "o famoso Beijoqueiro brasileiro não apareceu na Bahia durante a III Conferência Ibero-Americana".
Entre humor e desconforto, o Beijoqueiro era capaz de transformar um instante em memória, enquanto encarnava a contradição. Para uns, era um homem comum que soube transformar a espontaneidade em espetáculo; para outros, um invasor de intimidades e causador de constrangimentos.
No fim da década de 1980, Mouzar Benedito trabalhava no jornal A Gazeta de Pinheiros, em São Paulo, quando teve a oportunidade de entrevistar José Alves de Souza. Ele nunca esqueceu desse encontro. "O Beijoqueiro tinha viajado para fazer um de seus atentados de beijos em São Paulo, não lembro contra quem, e acabou sendo levado lá na Gazeta de Pinheiros para ser entrevistado por mim. Eu fiz uma entrevista muito divertida com ele, e no final, óbvio, ele me deu um beijo na careca...", recorda o jornalista, de forma bem-humorada.
Confira as edições de A TARDE com o beijoqueiro:
Beijoqueiro beijou as mãos de Irmã Dulce no aniversário da freira
Crédito: Cedoc A TARDE/27.05.1987
Preso no Belvedere da Sé para não tentar beijar o papa João Paulo II
Crédito: Cedoc A TARDE/21.10.1991
*Com a colaboração de Tallita Lopes
*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.
*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE
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