A TARDE MEMÓRIA
Igreja Católica inicia ciclo penitencial seguido pela Semana Santa
Período é uma preparação para a Páscoa, a mais importante celebração do ano para o catolicismo


A Páscoa é a maior festa litúrgica para os católicos. Ela celebra a certeza na ressurreição de Jesus como base da fé cristã. Para chegar até este período há uma intensa preparação iniciada na Quarta-feira de Cinzas e que é chamada de Quaresma, pois o período dura 40 dias. Até a festa pascal também haverá a Semana Santa. Este ciclo, tradicionalmente, é bastante festejado na Bahia como demonstram as coleções de imagens que pertencem ao Centro de Documentação A TARDE com destaque para a chamada Procissão do Senhor Morto que ocorre na Sexta-Feira da Paixão.
“A Quarta-feira de Cinzas inicia esse ciclo. É um período para se converter, mudar de vida, rever nossos valores e nos recondicionar à proposta de Jesus Cristo. A cinza lembra que nós somos pó e voltaremos ao pó, ou seja, a vida é transitória. Mas vale lembrar que existe um além da História e nós fomos feitos para a eternidade”, explica o padre Manoel Filho, vigário episcopal para a Cultura, Educação e Comunicação da Arquidiocese de Salvador e coordenador nacional e na Arquidiocese de Salvador da Pastoral do Turismo.
A celebração de Cinzas ocorreu na última quarta-feira. Ela é marcada por uma missa que tem um dos mais conhecidos ritos desse período. Durante a celebração, o sacerdote faz uma cruz de cinzas na testa ou as joga na parte superior da cabeça dos participantes.
As cinzas usadas nesta celebração, segundo o padre Manoel Filho são resultado da queima dos ramos que foram utilizados na Procissão de Domingos de Ramos do ano anterior. É mais um indício de como todas estas celebrações estão conectadas.
“Para nós, católicos, celebrar é diferente de festejar e de lembrar. Celebrar tem a ver com atualizar o mistério e por isso nos solidarizamos com Jesus na cruz e fazemos silêncio na Semana Santa, não comemos carne, mas também fazemos oferta da comida. O jejum tem duas faces que é a de tirar de mim e dar ao outro. Fazer jejum tem o compromisso com o outro nessa perspectiva de atualizar o mistério e por isso a Semana Santa é revestida, e no passado bem mais do que hoje, de discrição e de silêncio”, acrescenta o padre que é licenciado em História e professor da Universidade Católica do Salvador (UCSal).
Nesse período, nas celebrações católicas, o momento conhecido de exaltação à Santíssima Trindade por meio do cântico de glória é suprimido assim como os instrumentos. Os celebrantes passam a adotar o roxo nos paramentos. Todos estes cuidados mostram como o momento é especial para que a celebração da grande festa católica, a Páscoa, aconteça de forma muito marcante. “O nascimento de Jesus Cristo foi um grande momento, mas a sua ressureição significa que a sua missão foi cumprida. Por isso a Festa da Páscoa é tão importante”, reitera padre Manoel.
Compromisso
Na Quarta-Feira de Cinzas também é lançada a Campanha da Fraternidade, uma ação da Igreja Católica no Brasil realizada desde 1964. A iniciativa surgiu de uma experiência realizada em Nìsia Floresta, na Arquidiocese de Natal, no Rio Grande do Norte, então sob o governo de Dom Eugênio Sales. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) decidiu adotar a experiência em todo o território nacional.
O objetivo da Campanha da Fraternidade é levar os católicos a refletirem e adotarem ações contra um problema que atinge especialmente os segmentos mais vulneráveis da população brasileira. “A Igreja ensina que um pecado não tem apenas uma consequência individual. Por isso é necessário se converter também socialmente. A Campanha da Fraternidade está relacionada a esse contexto de que determinados problemas sociais necessitam da nossa ação”, completa o padre.
Ao longo da ditadura militar, a Campanha da Fraternidade foi uma iniciativa que permitiu dar visibilidade a temas que movimentos da sociedade civil não tinham espaço para defender. Como instituição de poder, a Igreja Católica pôde debater em 1979, por exemplo, a defesa do meio-ambiente, a pobreza em 1975, trabalho e justiça em 1978 e migração em 1980. “A Campanha da Fraternidade tocou em temas como vanguarda. Meio Ambiente não era debatido frequentemente como agora. Em 1988 foi a vez da questão racial, comunicação social em 1989 e outros”, enumera padre Manoel.
O sacerdote explica que o tema é decidido com três anos de antecedência pelas pastorais sociais da Igreja. Assim, Fraternidade e Fome, escolhido como o caminho de reflexão desse ano foi definido em 2020. “Há o tema e o lema que, nesse ano, seguindo uma passagem bíblica é ´Dá-lhes vós mesmos o que comer´. O lema nos compromete, pois, além de doar cesta básica, é necessário cobrar políticas públicas de combate à fome e para a segurança alimentar”, completa.
O tema da Campanha da Fraternidade é socializado em todas as celebrações da Quaresma por meio de cartilhas e outras ações educativas, o que acaba potencializando o debate. Esta é uma das mais fortes heranças de um viés mais progressista no catolicismo brasileiro com influência de movimentos como a Teologia da Libertação, Comunidades Eclesiais de Base (Cebs), dentre outros.
Procissões
A Quaresma e a Semana Santa têm em sua programação grandes procissões. A do Senhor Morto, realizada na Sexta-Feira da Paixão integra o conjunto das mais antigas celebradas na cidade. As procissões, sobretudo no período colonial, eram grandes eventos com elementos semelhantes ao teatro, afinal era uma forma ensinar.
“Na Idade Média a maioria das pessoas não tinha acesso à leitura e o acesso às informações bíblicas era por meio dos vitrais, das imagens, das vias sacras e dos grandes autos encenados na frente das igrejas. Nós herdamos a tradição portuguesa dessas encenações como uma espécie de para liturgia para nos ajudar a rezar em um determinado momento. Numa procissão, por exemplo, o fiel é uma agente ativo, pois ele caminha, observa a encenação de Verônica cantando, o que de certa forma o faz sentir a celebração”, analisa padre Manoel.
No livro Procissões tradicionais da Bahia, João da Silva Campos enumera uma série de procissões que eram realizadas em Salvador especialmente durante o período quaresmal e a Semana Santa com características de grandes eventos especialmente por conta da participação das irmandades. Uma das tradições da cidade destacada por padre Manoel Filho são as chamadas imagens de roca que são feitas de madeira para possibilitar a mudança de posição e a aproximação a pessoas reais com o uso de vestes de pano e de perucas.
A imagem que é levada na procissão do Senhor Morto pertence ao acervo da Igreja do Carmo e é uma das joias da arte local. A imagem, do século XVIII, é de autoria de Francisco das Chagas, conhecido como Cabra e tem pequenos rubis como marcas do sangue de Jesus Crucificado. “É uma obra prima do barroco brasileiro e essas procissões marcam essa condição de Salvador como uma cidade também barroca”, diz padre Manoel.

Mais recentemente outras duas procissões deste período ganharam destaque na capital baiana: a Caminhada Penitencial, que acontece no terceiro domingo da Quaresma no trajeto que começa na Igreja de Nossa Senhora da Conceição Praia e vai até o Bonfim, e a Procissão de Ramos. “Com a participação de trios elétricos e da juventude católica, a Procissão de Ramos ganhou muita projeção nos últimos anos”, diz padre Manoel Filho. Salvador, portanto, está em um novo ciclo de celebrações dos muitos que a envolvem durante todo o ano.
Cleidiana Ramos é jornalista e doutora em Antropologia
*A reprodução de trechos das edições de A TARDE mantém a grafia ortográfica do período.
Fontes: Edições de A TARDE, Cedoc A TARDE