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A TARDE MEMÓRIA

Salvador realizava Micareta como a despedida oficial do Carnaval

Festa acontecia em meio à celebração da Páscoa ou logo após esta comemoração

Cleidiana Ramos* | especial@grupoatarde.com.br
Por Cleidiana Ramos* | [email protected]

No segundo ano sem Carnaval e com as festas do calendário de verão ocorrendo com apenas alguns dos ritos, como missas com controle de público, dá para imaginar o tamanho e duração das celebrações quando a pandemia terminar e as condições sanitárias permitirem o retorno das aglomerações na rua. Possivelmente, além dos eventos já conhecidos surgirão outros novos por conta da dinâmica criativa típica das festas de Salvador. Uma dessas inovações no calendário de festas da cidade foi a Micareta, que era realizada no período da Páscoa católica para marcar de forma enfática a despedida do Carnaval.

Com a visibilidade e sucesso do Micareta de Feira de Santana esse tipo de evento ficou marcado como os carnavais fora de época em outras regiões da Bahia. Mas a Micareta estava na agenda soteropolitana e, na década de 1930, um período difícil com a instabilidade política do primeiro governo de Getúlio Vargas, que colocou a Bahia sob intervenção federal, as edições de A TARDE apontaram essa festa como uma forma de aliviar a tensão trazida por tantos problemas.

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“Há muitos annos a "Micareta" não offerecia opportunidade de tanta animação como a que vemos, hontem. Isto inegavelmente se deve ao trabalho da "Associação de Chronistas Carnavalescos" que, ao lado do comitê de festejos do Carnaval, constituído na maioria de commerciantes da Rua Chile, intensificou sua propaganda de modo a offerecer mais algumas horas de alegria e divertimento ao povo, afugentando as amarguras da vida”. (A TARDE, 5/4/1937, p.2).

O pesquisador e escritor Nelson Cadena afirma que a primeira Micareta realizada em Salvador aconteceu em 1913 devido à ocorrência de uma sequência de chuvas que quase inviabilizaram o Carnaval daquele ano. O evento foi planejado por jornais diários em parceria com os clubes.

“Eles reeditaram a Micareme parisiense. O evento ocorreu cinco anos após a realização de um evento semelhante no Rio de Janeiro em 1908”, conta Cadena, autor de um artigo sobre a origem da Micareta baiana. Cadena avalia que o impulso definitivo para a realização da festa no Brasil foi a exibição do filme intitulado A Micareme em Paris.

A Micareme, na versão baiana, de acordo com Cadena, era realizada no sábado e domingo de Páscoa e aos poucos estendeu-se para a segunda-feira. No sábado eram realizados os bailes nas mansões da elite e nos clubes. Já nas ruas, o pesquisador conta que o ponto alto da festa era a queima de judas com o boneco, antes de ser incendiado, levado em desfile em um carro conversível pela Rua Chile até o São Pedro. A queima era na Praça Castro Alves. “Nesse dia tinha também as batalhas de confetes e serpentinas e esgotava-se o resto do estoque de lança-perfumes do Carnaval”, completa Cadena.

Domingo era o dia de desfile dos carros alegóricos dos clubes carnavalescos. “Na contrapartida social os açougues, por solicitação da comissão organizadora, distribuíam até 500 quilos de carne para os pobres”, acrescenta o pesquisador.

Em 1935, o nome Micareta passou a ser a denominação para a festa. Nelson Cadena afirma que essa escolha foi resultado de um concurso organizado pela Associação dos Cronistas Carnavalescos com o apoio da Associação Bahiana de Imprensa (ABI) e alguns jornais. “A escolha foi por consulta popular. Os cupons para votação eram publicados nos jornais e na revista Única”, relata.

O nome micareta venceu outras sugestões: refolia, arlequinada, carnavalito, festa outonal, mascarada, bicarnaval, precareme, brincadeira e remate. “E foi assim que a Bahia contribuiu para substituir em todo país e em definitivo o galicismo Micareme pelo baianíssimo Micareta”, completa Cadena.

Documento da ABI com resultado do concurso para a escolha do nome da festa que ficou como "Micareta"
Documento da ABI com resultado do concurso para a escolha do nome da festa que ficou como "Micareta" - Foto: Cedoc A TARDE

Sucesso

A Micareta, com base nas edições de A TARDE, de 1935, 1936 e 1937 conquistou rapidamente os foliões ainda com saudades do Carnaval. A programação da edição de 1935, publicada em uma coluna semelhante à dedicada às notícias da festa de Momo, dá uma dimensão de participação ampla tanto dos clubes mais tradicionais, como o Fantoches, Cruz Vermelha e Inocentes em Progresso, como de outras associações mais modestas: Mandus em Folia, unindo os foliões do Politeama, de cima e de baixo; o Victoria em Folia, com saída do Campo da Pólvora; Boa União, de Mata Escura, Romaria Africana, da Rua das Flores, possivelmente a da Baixa dos Sapateiros; Malandros do Salgueiro, da Rua Ruy Barbosa, dentre outras.

Cruz Vermelha foi um dos clubes promotores da Micareta de Salvador
Cruz Vermelha foi um dos clubes promotores da Micareta de Salvador - Foto: Cedoc A TARDE

A Micareta tinha, inclusive, a sua rainha oficial que foi corada pela soberana do Carnaval:

“Constou do desfile das senhorinhas que tomaram parte no préstito dos “Fantoches", "Cruz Vermelha e “Inocentes”, em homenagem à Rainha da Micareta, a distincta senhorinha Ivonildes Magalhães Mattos.

O acto solenne da Coroação coube à “Rainha” do Carnaval, senhorinha Lourdes de Azevedo, que colocou a coroa na homenageada, paranymphando o acto a senhorinha Hilda Martins, "Rainha dos Fantoches". (A TARDE, 25/4/1935, p.3).

Disputa

Em 1936 a festa esteve em meio a um impasse. Um grupo de senhoras católicas queria que a Micareta fosse transferida para uma semana depois das festividades de Páscoa. Na edição de 6 de abril de 1936, a reportagem chegou a afirmar que a festa aconteceria no dia 19.

“Será a 19 do corrente, no domingo seguinte ao da Paschoa a reaiização da "Micarêta”, com que a cidade se despede definitivamente de Mômo. Extranham alguns carnavalescos que a data não tivesse sido fixada, mas isso é dispensável por já o ter sido uma vez. Como é do domínio público as senhoras catholicas, por intermédio da Associação Bahiana de Imprensa obtiveram no anno passado do chefe de polícia a transferência da Micarêta para o domingo da Paschoela ficando entendido que doravante seria sempre assim. Desde que não se revogue oficialmente essa resolução é porque está a mesma do pé para todos os efeitos”. (A TARDE, 6/4/1936, p2).

No dia seguinte, A TARDE voltou ao assunto, mas com a informação de que um grupo de comerciantes havia conseguido manter a festa no dia 12, ou seja, no domingo de Páscoa. Foi essa a decisão que acabou prevalecendo.

“A festa brilhante da "Micarêta”, annunciada officlalmente para amanhã, em que pese os desejos das senhoras catholicas bahianas, em harmonia com os sentimentos christãos da cidade, não promette a animação que fora de desejar. Incerta até poucos dias a sua realização, e que se esperava ocorresse no próximo dia 19, como o anno passado, não é de crer o povo se tenha preparado para a surpreza. Em todo caso esperemos o dia de amanhã para ver se realmente há máscaras e gastos de lança-perfume e confettis, consoante as aspirações da commissão promotora..” (A TARDE, 11/4/1936, p2).

Ao menos, no mesmo texto já estavam relacionados os bailes programados para os mais diversos clubes da cidade. No ano seguinte, a festa voltou com força máxima a ponto de ser considerada uma das melhores e uma catarse para os problemas do cotidiano, como o alto custo de gêneros básicos para a alimentação, especialmente a carne. Até a polêmica com a festa católica não aconteceu, pois a Micareta foi realizada depois da Páscoa.

“Pelo que se ouve nas rodas e pelo movimento intenso na cidade parece que a "Micareta" este anno sobrepujará todas as realizadas anteriormente. Os foliões estão dispostos mesmo a afrontar a crise e esquecer o momento político nacional todo de horizontes duvidosos, o preço dos gêneros etc.”. (A TARDE, 2/4/1937, p2).

Fantoches, estavam na programação da Micareta de Salvador
Fantoches, estavam na programação da Micareta de Salvador - Foto: Cedoc A TARDE

O tom do texto foi profético. Em novembro daquele ano, Getúlio Vargas decretou o Estado Novo transformando o seu primeiro governo oficialmente em uma ditadura. Ainda não tenho a informação de até quando a Micareta conseguiu se manter no calendário de festas da cidade, mas a sua visibilidade na cobertura de A TARDE é mais uma amostra de como Salvador, por meio de variados agentes, faz da realização de festas nos mais diversos formatos uma de suas principais marcas.

A reprodução de trechos das edições de A TARDE mantém a grafia ortográfica do período. Fontes: Edições de A TARDE, Cedoc A TARDE. Confira mais conteúdo de A TARDE Memória, no portal A TARDE, e em A TARDE FM.

*Cleidiana Ramos é jornalista e doutora em antropologia

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