A delação premiada de Vorcaro
Confira a coluna Conjuntura Política

Em rodada recente da pesquisa AtlasIntel/Bloomberg de fevereiro deste ano revelou que 91,5% dos brasileiros acreditam que organizações criminosas controlam esferas importantes da política e do sistema judicial do país. O dado é brutal e vai muito além de uma percepção pontual de desconfiança, já que revela a força de uma convicção enraizada entre os cidadãos comuns e que estrutura a maneira como enxergamos as relações entre Estado e sociedade civil no país.
O caso sui generis do Banco Master de Daniel Vorcaro revela a estratégia de crescimento rápido e fraudulento que ganhou visibilidade ao oferecer produtos de renda fixa, como CDBs, com rendimentos muito acima da média do mercado, mas encobrindo falhas graves de lastro, liquidez e insolvência. O tamanho do escândalo, que pode ultrapassar o rombo de R$60 bilhões, agora envolve uma guinada na estratégia de Vorcaro, que trocou toda a equipe de defesa e assinou um termo de confidencialidade para colaborar com a Justiça uma delação.
Em tese, a elaboração institucional e probatória da delação pode durar de três a seis meses. A dúvida do momento é saber se a delação a ser encaminhada com o aval da PF e da Procuradoria-Geral da República (PGR) pode apresentar quatro dimensões. A primeira é entender quais as conexões estabelecidas com alguns ministros do STF e se houve consultoria ou tráfico de influência para facilitar juridicamente os interesses do Master.
Uma segunda dimensão é entender a relação do Master com os governos estaduais em torno de 18 entes federativos cujos fundos de previdência investiram no Banco Master. A terceira dimensão envolve o senador Ciro Nogueira (PP-PI), descrito por Vorcaro como "um dos meus grandes amigos de vida", que propôs a chamada "Emenda Master" para quadruplicar a cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão — medida que beneficiaria diretamente o modelo de negócios do banco, mas deixaria o nosso sistema bancário falido.
Uma quarta dimensão envolve o presidente do União Brasil Antônio Rueda e a cúpula nacional do partido como supostos “lobistas oficiais” de Vorcaro no Congresso para ajudar na venda do Master para o BRB a fim de evitar a liquidação do banco. Em outra frente, ainda há suspeitas como Vorcaro manteve relações com lideranças do PT e com quais objetivos estratégicos quanto à defesa dos interesses do banco.
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De maneira geral, a delação de Vorcaro promete causar muito impacto político e eleitoral com maior foco na direita do que na esquerda, mas não há condições sobre as quais se calcule o peso da delação para cada grupo, o que deixa em aberto uma margem grande de incerteza que pode atravessar os próximos meses decisivos para os atores políticos que disputarão as eleições. Clima tenso no ar.
*Professor adjunto de Ciência Política da UNILAB e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRB. E-mail: [email protected]
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