A direita brasileira e a crise venezuelana
Confira o texto do professor Cláudio André de Souza

A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos neste sábado (3) expôs o caráter antinacional de setores da direita brasileira. Enquanto uma operação militar de grande escala violava a soberania de um país vizinho, uma enxurrada de políticos aliados do bolsonarismo celebravam a prisão do presidente venezuelano nas redes sociais, ignorando os riscos concretos que tal intervenção representa para o Brasil.
O fato é que Donald Trump não fez questão de disfarçar o objetivo imperialista na ação, já que no seu pronunciamento anunciou que grandes empresas petrolíferas americanas investirão bilhões de dólares para “consertar a infraestrutura” venezuelana. Segundo ele, os EUA construíram a indústria petrolífera da Venezuela e o “regime socialista a roubou”, em retórica que soa explicitamente como anexação econômica. Não é exagero entender os passos de Trump como um novo tipo de imperialismo moderno de cunho autoritário.
Se de um lado a direita brasileira olhou para a mera disputa retórica eleitoral, aliados do presidente Lula expressaram preocupação de que os próximos passos de Trump na região envolvam tentativas de influenciar o processo eleitoral brasileiro e assume o objetivo estratégico de dominar uma nova etapa imperialista na América do Sul até como manobra de neutralização dos interesses a longo do prazo da China e da Rússia aqui no continente.
O pretexto do combate ao narcotráfico como motivação da prisão de Nicolás Maduro carece de evidências concretas, mas depois da fala de Trump fica difícil mascarar os interesses óbvios da operação. A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo e Trump deixou claro que os EUA pretendem “administrar” o país até uma “transição adequada”, sem que haja um prazo definido. A promessa de que empresas americanas assumirão o controle da indústria energética venezuelana provocou repercussão negativa internacional. A Rússia, o Irã, a China e países latino-americanos condenaram a operação como violação flagrante da soberania.
De forma imediata, o presidente Lula classificou os ataques como algo que “ultrapassa uma linha inaceitável” e representa “uma afronta gravíssima à soberania”, posição coerente com a defesa histórica do multilateralismo preconizado pela diplomacia do Itamaraty.
Enquanto a direita brasileira antinacional celebra de forma irresponsável uma intervenção militar que viola a ordem internacional, algo que não ocorria há décadas na América do Sul, o governo brasileiro liderado por Lula precisa gerenciar uma crise que a gente sabe como começa, mas não tem noção como termina, já que envolve grandes interesses econômicos e políticos a médio prazo. Trump quer petróleo e um novo ciclo de dominação da geopolítica do nosso continente.
Cláudio André de Souza é professor adjunto de Ciência Política da Unilab e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (UFRB)
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