A democracia de cada dia
Leia a coluna desta segunda, 12

A cerimônia no Palácio do Planalto, 8, em alusão aos três anos das invasões às sedes dos Três Poderes em Brasília representa uma efeméride política que somente passa a fazer mais sentido quando damos sentido ao peso retrospectivo de reafirmação da democracia brasileira como modelo funcional de sociedade: a necessidade de manter viva na memória coletiva a gravidade daquele episódio, impedindo que o revisionismo histórico e a normalização do absurdo façam do golpismo uma página virada sem consequências ou aprendizados.
Vale lembrar que testemunhamos naquele janeiro de 2023 a materialização violenta de um projeto antidemocrático gestado, financiado e estimulado por lideranças que negaram os resultados das urnas em 2022 e que buscaram inviabilizar o exercício do poder por um governo eleito democraticamente. Até aqui, a direita brasileira segue complacente com os valores antidemocráticos do bolsonarismo e seguem aliados “forever” para mais uma eleição presidencial. Para se ter uma ideia, inexiste um balanço crítico dos partidos de centro e direita quanto ao lugar do bolsonarismo como fenômeno social e político brasileiro.
Não se trata de exigir adesão ideológica à esquerda ou à centro-esquerda, mas cabe cobrar um compromisso mínimo e inegociável com as regras do jogo democrático, algo que partidos conservadores consolidados em democracias maduras jamais hesitam em demonstrar publicamente, rompendo com extremismos e isolando correligionários que flertam com aventuras autoritárias. Se assim fosse, jamais a direita marcharia para a eleição de 2026 como apêndice do clã bolsonarista.
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O problema é que a direita brasileira, diferentemente de suas congêneres europeias ou mesmo latino-americanas em países como Chile e Uruguai, ainda não fez esse movimento de depuração necessário, preferindo manter a ambiguidade calculada de repudiar episódios como o 8 de janeiro em discursos públicos enquanto preserva alianças estratégicas com os mesmos atores políticos que estimularam, financiaram ou se omitiram diante da escalada golpista. Uma pergunta não pode ficar para trás: ainda existe uma direita democrática no Brasil que não seja um satélite social e ideológico do bolsonarismo?
A democracia não é um patrimônio conquistado de uma vez por todas que possa ser guardado em um cofre institucional para consultas esporádicas, mas um regime que precisa ser defendido cotidiana e ativamente sem minimização de ataques frontais às instituições ou do cultivo deliberado do esquecimento coletivo. O PL da Dosimetria vetado por Lula e com chance concreta de ser revertido o veto por parte do Congresso é um escárnio de reificação do golpismo como destino-manifesto da nossa nação. Romper com o golpismo é uma tarefa histórica na ordem do dia.
Cláudio André de Souza é professor adjunto de Ciência Política da Unilab e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (UFRB). E-mail: [email protected]
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