Busca interna do iBahia
HOME > colunistas > CONJUNTURA POLÍTICA

CONJUNTURA POLÍTICA

A vitória de Lula e da Democracia

Confira a coluna Conjuntura Política desta segunda-feira, 26

Cláudio André de Souza *
Por Cláudio André de Souza *
Presidente Lula
Presidente Lula - Foto: Ricardo Stuckert

O presidente Lula (PT) foi reeleito presidente com 51,8% dos votos válidos (64,26 milhões de votos), ante 48,2% de Flávio Bolsonaro (59,83 milhões), uma vantagem de 4,43 milhões, sendo a maior votação de um candidato a presidente na história do país. Segundo o Datapedia Consultoria Política, pela primeira vez desde a redemocratização quem terminou o primeiro turno em segundo lugar venceu o segundo turno: Flávio liderava por 1,87 ponto percentual (47,03% a 45,16%) e Lula terminou 3,57 pp à frente, uma oscilação de 5,4 pp em três semanas.

A virada precisa ser lida em um contexto mais amplo, isto é, Lula e o PT estiveram entre os dois primeiros colocados nas dez eleições presenciais desde 1989, disputaram o segundo turno em oito e venceram seis, o que faz do PT o partido de massas mais forte da história republicana do Brasil, ou seja, a única sigla que atravessou quatro décadas com enraizamento social e capacidade monstruosa de reconstrução eleitoral. Lula é uma liderança histórica, e a sua quarta vitória confirma o lulismo como fenômeno ampliado de representação política.

Tudo sobre Conjuntura Política em primeira mão! Compartilhar no Whatsapp Entre no canal do WhatsApp.

A recuperação sem precedente no segundo turno se deu com Lula conquistando 10,4 milhões de votos entre os turnos (de 53,88 para 64,26 milhões), contra 3,7 milhões de Flávio, ou seja, quase três de cada quatro votos adicionais, e sem o apoio de Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Augusto Cury. Tudo indica que esta eleição foi decidida por um fôlego inédito de mobilização nas ruas e nas redes sociais, assim como pelo reencontro do PT com um programa anti-neoliberal mais forte de defesa de um Estado de bem-estar social voltado à classe trabalhadora, mas, em especial, que vivem mensalmente entre dois e cinco salários mínimos. No discurso da vitória ainda na noite de ontem, Lula disse que governará de maneira diferente, reconhecendo que precisa de mais entregas na ponta com agendas de acesso à saúde, consumo e em uma nova política de segurança pública.

Lula virou a eleição em 211 municípios, sendo 76 em Minas Gerais, 32 em São Paulo, 20 no Paraná e 19 no Rio Grande do Sul, mas com virada em cidades de 18 estados. Minas Gerais foi o único estado a trocar de líder (Flávio vencera por 48,2% a 43,3% e Lula fechou em 50,4% a 49,6%).

A conta nacional do lulismo avançou com o Sudeste e o Nordeste, que juntos responderam por cerca de 77% do ganho de margem de Lula. O Sudeste, onde ele perde, pesou 47% (de 39,7% para 47,2% dos votos válidos), e São Paulo, onde Flávio ganhou com 53,9%, entregou sozinho quase um quarto da virada, com 1,5 milhão de votos de margem.

Já o Nordeste respondeu por 31% e foi o alicerce: Lula foi de 63,8% para 69,4% e somou cerca de 3 milhões de votos a mais no segundo turno. Em sete estados da região, o crescimento dele superou todos os votos dos candidatos menores no primeiro turno, sinal de que atraiu também quem não votou em ninguém ou votou em Flávio. O Nordeste sustentou e ampliou o piso, e no Sudeste perder por menos foi suficiente para virar as eleições.

O dado mais cético ao longo do segundo turno foi a dupla reversão de ausentes e inválidos. O fato é que o número de ausentes caiu 8,82% entre os turnos (a abstenção foi de 21,08% para 19,2%, cerca de 3 milhões de eleitores a mais nas urnas) e o de brancos e nulos caiu 32,08%. Em 2022 os ausentes caíram 1,72% e os inválidos subiram 4,08%, e em 2018 ambos subiram. O resultado são 4,78 milhões de votos válidos a mais (de 119,30 para 124,08 milhões), volume maior que a vantagem final de Lula nas eleições (4,43 milhões). E bem verdade que a campanha concentrou a estratégia em reverter abstenção e voto inválido, o que ajudou Lula nas urnas.

A abstenção baiana caiu de 19,97% para 16,72%, a maior queda entre os estados, e 367 mil eleitores a mais votaram, o terceiro maior ganho absoluto do país, atrás de São Paulo e Minas Gerais. Esta queda explica no máximo 45% dos 820 mil votos a mais de Lula, de modo que o restante veio de migração de voto, e a Bahia, com 16,7% de abstenção contra 19,2% do país, votou mais do que o Brasil e votou em Lula.

Na Bahia, Lula foi de 66,2% para 71,3% dos votos válidos (+5,1 pp), enquanto Flávio ficou praticamente estagnado (28,5% para 28,7%), e a vantagem do presidente no estado passou de 3,22 milhões para 3,88 milhões de votos, com cerca de 820 mil votos a mais para Lula. Em Salvador, o movimento foi semelhante, sendo que o petista chegou a 73% dos votos válidos, consolidando mais uma derrota histórica de ACM Neto e Bruno Reis, aliados de primeira hora de Flávio Bolsonaro somente no segundo turno.

Na política baiana, o maior derrotado é ACM Neto. Manteve publicamente a retórica do "tanto faz" e, derrotado por Jerônimo no primeiro turno (55,80% a 43,73%), embarcou de cabeça no segundo turno no apoio a Flávio Bolsonaro, que terminou com 28,7% na Bahia, quinze pontos abaixo dos 43,73% conquistados pelo próprio ACM Neto. O "tanto faz" só funciona enquanto o eleitor pode votar nos dois, e quando o palanque nacional exige escolha o baiano decide o voto por Lula. Em um estado hegemonicamente lulista há décadas, ACM Neto conseguiu perder duas vezes (2022 e 2026) e, na minha avaliação, protagonizou o maior fracasso eleitoral da década na Bahia.

A vitória de Lula tem, por fim, um efeito cívico. Em um país em que o 8 de janeiro nasceu de uma narrativa de fraude nas urnas, e depois de um domingo em que a Justiça Eleitoral prorrogou de forma "bagunçada" a votação de última hora, uma vantagem de 4,43 milhões de votos reduz a adesão popular a um discurso de falta de legitimidade das urnas. Com Lula, a democracia brasileira e o pacto constitucional de 1988 estão mantidos. De maneira geral, um dado também é certo: o recado das urnas pode ser traduzido em um pedido de mandato mais forte para entregar ao povo brasileiro em torno de um pacto republicano de bem-estar social. As urnas cobrarão resultados na saúde, no bolso e na segurança. Sem dúvidas, o futuro do Brasil é democrático.

*Cientista Político, professor do Mestrado Profissional em Governança e Políticas Públicas (Unilab) e pesquisador da UFRB

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Google Noticias Siga o A TARDE no Google Noticias

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no Email

Tags

eleições 2026 Lula Política

Relacionadas

Mais lidas