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CONJUNTURA POLÍTICA

Ganha na Bahia quem tem Lula

Confira a coluna Conjuntura Política desta segunda-feira, 5

*Cláudio André de Souza
Por *Cláudio André de Souza
Presidente Lula mandou recado a Flávio Bolsonaro durante agenda de campanha em Florianópolis/SC, reduto bolsonarista
Presidente Lula mandou recado a Flávio Bolsonaro durante agenda de campanha em Florianópolis/SC, reduto bolsonarista - Foto: Foto: Ricardo Stuckert.

Com 99,98% das urnas apuradas, Jerônimo Rodrigues foi reeleito governador da Bahia no primeiro turno com 55,80% dos votos válidos (4.625.244 votos), ante 43,73% de ACM Neto (3.624.563), levando o PT ao sexto mandato consecutivo no estado, o ciclo mais longevo de um mesmo partido à frente de um governo estadual no país desde a redemocratização. O governador superou em três pontos percentuais (pp) o desempenho do segundo turno de 2022 (52,79%) e ACM Neto recuou 3,5 pp nesta eleição.

É preciso reconhecer que ACM Neto errou menos em 2026 do que em 2022. Na chapa ao Senado, reuniu dois nomes mais fortes do que em 2022 com a chegada de Ângelo Coronel (Republicanos) e João Roma (PL). Escolheu como vice Zé Cocá, presença simbólica e efetiva do interior, onde a oposição sempre encontrou mais dificuldade para falar com os eleitores. Também trouxe João Santana, marqueteiro de três campanhas presidenciais vitoriosas (Lula em 2006, Dilma em 2010 e 2014) e conhecedor da gramática do voto lulista. E ainda teve a inteligência de costurar segurança, saúde e educação como pilares “plebiscitários” da campanha na tentativa de emparedar o eleitorado lulista e convencê-lo a mudar de lado.

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Esta inflexão, porém, não bastou. Ao contrário, tudo indica que ACM Neto perdeu terreno em cidades importantes entre as 30 maiores, com destaque para Salvador. Na capital, ele e o prefeito Bruno Reis assistiram a um baile do governador. Jerônimo perdeu na capital, mas com 44,51% dos votos válidos, 9 pp acima dos 35,5% do segundo turno de 2022, o que fez a vantagem de ACM Neto despencar em votos absolutos. A capital era o ativo mais valioso da oposição, e a meta de 70% dos votos válidos, que testava a capacidade de entrega de Bruno Reis, ficou longe: ACM Neto terminou perto de 55%. Ainda venceu de forma paupérrima em Feira de Santana (53,33%) e Vitória da Conquista (51,47%), diferente do que pregava a chapa e suas lideranças ao longo da campanha eleitoral.

Quatro fatores ajudam a explicar o resultado: o primeiro é o lulismo baiano e a sua plasmação em uma chapa completa, com destaque para Rui Costa. O lulismo opera como atalho de representação política, o encontro entre uma liderança e eleitores mediado por um partido ideológico estável, e a chapa governista permitiu ao eleitor votar em bloco: Jerônimo para governador, Rui Costa (30,07%, 4,33 milhões de votos) e Jaques Wagner (27,65%, 3,99 milhões) para o Senado. Os dois petistas somaram 8,3 milhões de votos, perto de 90% dos votos de que dispunham os eleitores de Jerônimo. Rui Costa, o mais votado do estado, parece ter quebrado o alinhamento entre ACM Neto e a sua chapa ao Senado por falar com o eleitor urbano das grandes e médias cidades que reconhece a gestão dele sem necessariamente se identificar ideologicamente com o PT.

O segundo fator é a força dos prefeitos, ou seja, desde o início da campanha, ao menos 346 dos 417 gestores baianos (82,97%) declararam apoio público à Jerônimo, contra 53 de ACM Neto (12,71%). Em 2022, o governador havia vencido em 22 dos 27 territórios de identidade, com média de 60,7% nos territórios conquistados. O prefeito é a ponte mais curta entre o governo e o eleitor, e a corrida da oposição por vereadores e ex-prefeitos, as chamadas “bandas B”, chegou tarde para reduzir a diferença no interior.

O terceiro ponto fundamental é a força de Lula. O presidente teve 66,08% dos votos na Bahia (5.615.010), contra 28,61% de Flávio Bolsonaro (2.431.459), sendo que o petista venceu em 413 dos 417 municípios baianos. Flávio ganhou em Luís Eduardo Magalhães (62%), Buerarema e Itamaraju (51%) e Teixeira de Freitas (49%), duas delas, Luís Eduardo Magalhães e Teixeira de Freitas, entre as de maior vantagem percentual de ACM Neto em 2022 (41 pp e 20 pp). O alinhamento na disputa para governador mantém o padrão das eleições anteriores, com o governador abaixo do presidente, mas a distância se reduziu: no primeiro turno de 2022, Lula teve 69,73% e Jerônimo, 49,45%, 20 pontos de diferença; agora são dez (66,08% a 55,80%).

O quarto é o palanque nacional, e aqui ACM Neto repetiu a equidistância testada e reprovada em 2022. Declarou apoio a Ronaldo Caiado (PSD), candidato sem comício, sem material e sem presença nas ruas baianas, enquanto João Roma e Ângelo Coronel, candidatos ao Senado na sua própria chapa, ainda calcularam veladamente uma distância pública em relação a Flávio. Em tese, o caso Banco Master e a suposta delação de Daniel Vorcaro destronaram o voto Lula-Neto. A conta fecha de forma simples: Lula e Flávio somaram 94,7% dos votos, de modo que, para chegar aos 43,73%, ACM Neto perdeu pouco menos de dez pontos no eleitorado de Lula, que são em boa medida os dez pontos que separaram o presidente de Jerônimo. A conversão do voto lulista para Jerônimo avançou na Bahia.

A geografia do voto segue em aberto até a totalização por município, mas a nossa hipótese é que Jerônimo tenha reunido mais força nas grandes cidades do que em 2022, quando levou apenas nove das maiores e fez 47,96% de média nelas. Outro caminho analítico é entender o aumento da diferença percentual nas médias e pequenas cidades, o que se entrecruza novamente com a força do governismo dos prefeitos e vereadores baianos.

De maneira geral, um dado também é certo: para avançar a força política do lulismo baiano de olho em 2030 será fundamental mandar sinais ao eleitorado que acenou positivamente com um discurso crítico de mudança em torno das agendas da segurança pública, saúde e educação. A reeleição do governador Jerônimo Rodrigues já parte do desafio de vencer estas agendas nos primeiros 100 dias do seu segundo governo, a se iniciar em 2027.

*Cláudio André de Souza é professor adjunto de Ciência Política da UNILAB e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRB.

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