CONJUNTURA POLÍTICA
O “chá revelação” de ACM Neto
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Com 376 dos 417 municípios baianos (90,2%) nas mãos de Jerônimo Rodrigues, contra 41 de ACM Neto, a derrota do ex-prefeito é maior do que os 55,80% a 43,73% apurado nas urnas.
Dos 53 municípios que havia conquistado no segundo turno de 2022, 28 passaram para o lado do governador, mais da metade, sendo que em Ibiassucê ACM Neto tinha 50,5% e Jerônimo fez 70,5% agora, em Rio Real foram 52,9% contra 67,1%, em Filadélfia 50,4% contra 66,0% e em Brumado 50,5% contra 61,3%. Entram na lista ainda Juazeiro, Alagoinhas, Simões Filho e Dias d’Ávila, cidades de maior porte que em 2022 haviam ficado majoritariamente com a oposição ao PT.
O dano maior apareceu nas 18 cidades com mais de 100 mil habitantes, onde ACM Neto precisava crescer para ganhar as eleições e perdeu 351 mil votos absolutos (de 2.074.791 em 2022 para 1.723.576), enquanto Jerônimo ganhou 120 mil (de 1.369.798 para 1.489.383), o que fez a vantagem do ex-prefeito nesta faixa cair de 704.993 para 234.193 votos. Ele ainda venceu em 14 delas, duas a menos do que as 16 de 2022, e o saldo do governador no interior segue em sentido oposto, com 607.155 votos de frente nas cidades pequenas e 628.320 nas de porte médio, mais de 1,23 milhão de votos somados, de modo que o interior mais uma vez deu a sexta vitória consecutiva ao PT para o governo baiano.
Ainda no calor do resultado, o “chá revelação” de ACM Neto na quarta-feira (7) veio com o anúncio do apoio a Flávio Bolsonaro (PL), contrariando o discurso retórico do “tanto faz” no primeiro turno. Mais que isso, em um estado lulista ACM Neto se entrega nos braços do bolsonarismo e isso pode provocar um afastamento imediato do eleitor “Lula-Neto”. Na lógica do voto, era impossível alguém ter uma chapa bolsonarista ao Senado, aliança com partido bolsonarista e não ser bolsonarista, não é mesmo? Com este alinhamento claro que já tínhamos analisado ao longo da campanha é razoável supor que o acordo com Flávio e o PL existisse antes das urnas.
A conta fecha de forma simples: ACM Neto passa a pedir o voto em Flávio ao mesmo eleitorado que lhe deu os 43,73%, do qual ao menos dez pontos vieram de eleitores de Lula (66,08% contra 28,61% de Flávio na Bahia no primeiro turno), ou seja, mal terminou a apuração dos votos e o ex-prefeito larga pelo caminho o eleitorado “Lula-Neto”.
Tudo indica que o cálculo de ACM Neto envolve uma estratégia de carreira política, já que depois de duas derrotas seguidas na disputa ao governo só resta projetar um passo em Brasília que o mantenha em evidência na Bahia, mas que depende da entrega de votos a Flávio nas grandes cidades onde teve a maioria dos votos, com destaque para Salvador (cerca de 55%), Feira de Santana (53,33%) e Vitória da Conquista (51,47%).
*Cientista Político, Professor do Mestrado Profissional em Governança e Políticas Públicas (UNILAB) e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRB. E-mail: [email protected]