CONJUNTURA POLÍTICA
O que está em jogo nas eleições brasileiras?
Cientista político analisa a disputa entre o projeto autoritário e a preservação das instituições democráticas


Hoje o Brasil realiza a décima eleição presidencial desde 1989, a primeira direta depois da redemocratização, num mundo em que a extrema-direita aprendeu a ganhar votos com um discurso fácil sobre economia, segurança e costumes para entregar, no poder, uma mistura de neoliberalismo e populismo autoritário.
Steven Levitsky descreve o roteiro onde autoritários eleitos tentam converter o Estado em arma contra rivais e em escudo para os aliados, o que eleva o custo da oposição, sendo que Hungria, Turquia e agora os Estados Unidos seguiram por este caminho, embora a Hungria tenha mostrado em abril passado que uma oposição unificada ainda derrota o projeto.
O cientista político André Singer faz alerta semelhante em seu novo livro (Impasse: O Brasil diante da onda reacionária, Cia. das Letras, 2026): a democracia vem sendo solapada de maneira gradual, mas contínua, e um novo governo de extrema-direita pode mergulhar o Brasil em uma regressão democrática complexa.
Mudança de padrão: a força do PL no Congresso e a herança de Flávio
A competição política brasileira já mudou de padrão. Entre 1994 e 2014, a disputa se organizou entre PT e PSDB. Agora o PL saltou de 99 deputados para 121 e passará a ter 28 senadores — também a maior bancada, ante 9 do PT, números ainda sujeitos a ajustes da Justiça Eleitoral.
Como o carisma do pai, lembra Singer, não se transmite, o que Flávio Bolsonaro herda é exatamente esta máquina partidária eficiente, e ele terá de decidir, se eleito, se aposta em uma travessia ao neoliberalismo, com um tesouraço de cerca de R$ 190 bilhões somado a um governo radical que beira o populismo autoritário, com a anistia prometida a Jair.
O presidencialismo de coalizão exige moderação e pactos amplos, mas, infelizmente, Flávio tende a repetir o pai em uma missão de ruptura com a República, com ataques ao STF (cujos poderes o programa quer reduzir), às universidades e aos bancos públicos, assim como cortes em políticas essenciais à maioria do povo brasileiro. A moderação será um princípio ou uma heresia?
O desafio de Lula: bem-estar social, classe média e mobilização nas ruas
Se Lula garantir a virada histórica sobre o bolsonarismo e for reeleito, precisará entregar um governo social-democrata de bem-estar social. Isto pede um novo arranjo econômico imediato, já que a frente ampla que o elegeu foi, na expressão de Singer, um veneno-remédio, e um aceno aos eleitores fora da polarização, pois a faixa de dois a cinco salários mínimos precisa voltar ao centro das estratégias do lulismo.
Precisará também das ruas, em uma continuação do segundo turno, para pressionar o Congresso por reformas pontuais num tempo de poder escasso, porque caminha para o fim da maior carreira política presidencial do nosso país e liderará a sua sucessão no PT.
O cenário pós-lulista e o valor inegociável da democracia
Aliás, o PT e o PL saem desta eleição como as duas maiores máquinas partidárias do país, uma senha sobre o período pós-lulista que se avizinha. O que está em jogo é se a República chegará a 2030 com instituições capazes de assegurar o próximo governo e uma vida democrática ainda com virtudes e desafios.
A democracia é um valor inegociável, não acham? Bom voto!
*Cláudio André é cientista político, professor do Mestrado Profissional em Governança e Políticas Públicas (UNILAB) e pesquisador da UFRB. E-mail: [email protected].