DIREITO E TRIBUTOS
O crédito tributário mudou de lugar. E quase ninguém percebeu
A reforma tributária e o novo protagonismo dos créditos como ativos financeiros


Durante muitos anos, a principal preocupação das empresas na área tributária era relativamente simples: quanto imposto teremos de pagar? Essa pergunta continua importante. Mas deixou de ser suficiente.
A reforma tributária trouxe uma mudança silenciosa que tende a alterar profundamente a forma como as empresas administram seus tributos. Pela primeira vez, o imposto deixa de ocupar sozinho o centro das atenções. Os créditos tributários passam a disputar esse protagonismo.
Com a criação da CBS e do IBS, a eficiência tributária passará a depender não apenas da correta apuração do imposto devido, mas também da capacidade da empresa de identificar, validar e aproveitar corretamente os créditos gerados ao longo de toda a cadeia econômica.
Na prática, o crédito tributário deixa de ser apenas um registro contábil e passa a representar um ativo financeiro e ativos financeiros precisam ser administrados. Um crédito perdido, glosado ou apropriado de forma inadequada deixa de representar apenas um problema fiscal. Ele reduz liquidez, pressiona o fluxo de caixa, compromete o capital de giro e limita a capacidade de investimento da empresa.
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Isso exigirá das empresas processos mais robustos, integração entre áreas, tecnologia, qualidade das informações e, principalmente, governança. Afinal, no novo sistema, o crédito tributário deixa de ser uma consequência automática da operação e passa a ser resultado direto da qualidade da gestão.
Empresas que estruturarem uma governança consistente sobre seus créditos terão maior liquidez, mais previsibilidade financeira e melhores condições para crescer. As que continuarem tratando esse tema apenas como uma rotina operacional poderão descobrir, tarde demais, que perderam algo muito mais valioso do que um benefício fiscal: O CAIXA.
E existe uma diferença importante entre pagar mais imposto e perder um crédito tributário. O imposto normalmente é percebido. O crédito perdido, muitas vezes, passa despercebido. Mas ambos produzem exatamente o mesmo efeito: reduzem a capacidade da empresa de investir, inovar e competir.
Esta é a reflexão que, a cada novo artigo que publico, se torna mais evidente: a reforma tributária deixou de ser uma discussão sobre tributos. Ela passou a ser uma discussão sobre estratégia empresarial.
E talvez esse seja o maior desafio dos próximos anos. As empresas que continuarem tratando a reforma apenas como uma mudança na legislação correrão o risco de enxergar apenas o imposto. As que compreenderem que ela redefine a forma de competir estarão um passo à frente. Porque, no fim, a verdadeira vantagem competitiva não nascerá da reforma tributária. Nascerá da forma como cada empresa decidirá enfrentá-la.