INCLUSIVA
Camisa para que?
Neste fim de semana estive numa loja esportiva à procura de um presente para um afilhado do programa de cartinhas de Natal dos Correios (que faço questão de participar todos os anos) e acabei entrando numa discussão interessante sobre consumo de esporte pelo público feminino.
Tudo começou com camisas de times de futebol. Flamengo, Vitória, Bahia, Corinthians, todos tinham vários modelos, tamanhos e padrões – masculinos. De todas as equipes, apenas Bahia e Vitória tinham modelos (aliás, apenas um) para mulheres, e com poucas opções de tamanhos.
Segui com times de basquete e futebol americano. Ali o problema se agravou: não havia modelos femininos. Fiquei especialmente frustrada porque queria comprar uma camisa para mim, porém não tinha um tamanho que me atendesse. Resultado: não levei.
“Ah, mas você poderia ter comprado o P masculino”, me disseram. Mas por que? Por que eu tenho que me contentar com um modelo que não é feito pensado em mim enquanto consumidora, ter que pagar o mesmo valor que um homem – este sim público-alvo – e provavelmente ter que ajustar essa camisa depois?
“Ah, mas poucas mulheres compram camisas e artigos de clubes”. Não admira, já que as peças não são feitas pensando nelas. E, quando são, raramente têm as mesmas variedades que as masculinas. Quais clubes disponibilizam primeiro, segundo e terceiro uniformes em modelos femininos? E camisa de goleiro/a? E as comemorativas?
Além disso, muitas torcedoras se juntam para protestar quando não são levadas em consideração pelos seus clubes. As corintianas reclamaram quando o uniforme 2 não foi lançado com opção feminina. As do Atlético-MG fizeram nota de repúdio quando, em 2016, modelos desfilaram de lingerie o uniforme do Galo. O São Paulo tem um coletivo de torcedoras que cobra visibilidade (e produtos) para elas.
Isso mostra o quanto o público feminino é desprezado – e como isso é pouco inteligente. Segundo levantamento da Pluri Consultoria, em 2012, 68,9% das brasileiras torcem para um time de futebol.
Ou seja, milhões de consumidoras em potencial desprezadas pelos seus clubes. Clubes esses que deixam de arrecadar uma receita que poderia fazer a diferença para fazer aquela contratação especial para a temporada...
Iranduba na contramão
Mas que bom que temos equipes visionárias no país, e, não por acaso, no futebol feminino. Após sagrar-se em 2017 como um dos melhores do Brasil, o Hulk da Amazônia planeja para 2018 um centro de treinamento próprio e, o mais interessante: um programa de sócio-torcedor, o primeiro para clubes de futebol feminino.
Se o Hulk não tem a estrutura dos maiores do Brasil (como Santos, Corinthians, Flamengo e Ponte Preta, por exemplo), sobra no planejamento, e mostra que pode continuar crescendo.
Ah, sim: a equipe disponibiliza modelos femininos (e masculinos, também) dos uniformes das jogadoras.
