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OPINIÃO

Canabrava, no embalo do Barradão, de lixão a coisa chic

Coluna de Levi Vasconcelos deste domingo, 23

Levi Vasconcelos, com colaboração Marcos Freitas
Por Levi Vasconcelos, com colaboração Marcos Freitas
Barradão será o palco do último BaVi de 2026
Barradão será o palco do último BaVi de 2026 - Foto: Victor Ferreira | EC Vitória

Dizem que o Esporte Clube Vitória tem esse nome porque nasceu na Vitória, bairro chic, o metro quadrado mais caro de Salvador, em 13 de maio de 1899, um ano depois que a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, em tese a abolição da escravidão. E agora em novembro completa 40 anos que renasceu em Canabrava, bairro periférico famoso na época por abrigar um imenso lixão, que baixava o astral pela aparência de miséria com direito a um monte de miseráveis escarafunchando o lixo.

O primeiro jogo lá foi contra o Santos, deu empate, 1 a 1, mas no frigir dos ovos Canabrava ganhou. Se livrou do lixão, a área do entorno virou comércio top com grandes lojas, inclusive de supermercados e condomínios de alto padrão.

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PRA CIMA – Rafael Rocha, 27 anos, nascido e criado na área, hoje lavador de carro no alto do Paralela Park, é o que chamam de Geração Barradão. E atesta:

– Puxou para cima sim senhor. Trabalho aqui não falta. Amanhã (hoje) tem Ba-Vi aqui. O pessoal já se prepara na véspera. Todo mundo entra em campo e marca o seu golzinho.

E aqui, o pessoal torce mais para quem?

– É mesclado, tem Vitória e tem Bahia e ainda bem, porque em jogo na Fonte Nova muitos vão vender lá também.

Na mesma pegada vai Aderaldo Mattos, há mais de 40 anos morador na área, trabalhando na Borracharia Ba-Vi, nome posto justamente para deixar prevalecer a força do futebol pelo lado bom, a convivência civilizada.

– Vieram novas vias, isso facilitou o tráfego, mas diminuiu o número de clientes. Mas valeu. Antes ninguém queria morar aqui.

COMÉRCIO – Luis Carlos Lemos, há mais de 23 anos instalado em Canabrava numa oficina mecânica, também festeja a mudança.

– Após o fim do lixão o comércio proliferou e muitos moradores que trabalhavam na reciclagem passaram a buscar empregos formais. No conjunto, o Barradão ajudou muito a valorizar a região.

Mas Leo Teles, presidente da Associação dos Moradores de Canabrava, diz que nem tudo são flores. Em dias de jogos, como o Ba-Vi de hoje, as vias principais travam.

– Temos que fazer um arrodeio de 8 a 10 km para chegarmos ao miolo da comunidade. O Barradão até prometeu uma escola de ensino médio, mas até hoje, nada.

POLÍTICA COM VATAPÁ

Bira Gordo

Contava o saudoso Roberto Albergaria (nos deixou em 2015), antropólogo, ou o antropólogo putanheiro, como gostava, com a sua intrínsica, descontraída e divertida verve esculhambativa que tanto festejava na Rádio Metrópole, que o historiador Ubiratan Castro, professor da UFBa (falecido em janeiro de 2019), corpo de gigante e alma de menino, amigo de sempre e eventual companheiro de exílio em Paris, pelo corpanzil ganhou o carinhoso apelido dos mais chegados de Bira Gordo.

Voltou do exílio e decidiu se candidatar a vereador em Salvador, lá por volta de 1982. Chegou em Itapuã para fazer comício, soltou a língua:

— Temos que mudar este país, meus amigos! Temos que acabar as desigualdades que tanto maculam a dignidade nacional! Não é possível que entre nós ainda haja gente passando fome!

Da plateia, alguém gritou com voz de falsete:

— Passa fome porque você come a comida toda, sêo gordo!

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