COLUNA
Maragogipinho, onde o barro virou a estrela mais linda
Coluna de Levi Vasconcelos deste domingo, 8


Maragogipinho, antes da Comarca de Nazaré, que incluía a Ilha de Itaparica e Jaguaripe, hoje distrito de Aratuípe, sempre um paradisíaco recanto rodeado de manguezais às margens do Rio Jaguaripe, está cada vez mais estrela no mix cultural que herdamos de negros e indígenas.
Lá acontece, daqui a duas semanas, o 4º Festival da Cerâmica, que celebra a vasta infinidade de produtos de barro, de utensílios a objetos sagrados, o grande legado cultural dos povos que nem sabiam o que era fundição.
Desde 2004 a Unesco, a banda da Organização das Nações Unidas (ONU) que cuida de educação, ciência e cultura, carimbou Maragogipinho como o maior Centro de Cerâmica da América Latina. Justo num lugar em que a grande maioria vive do barro processado em 187 olarias existentes nas redondezas.
TONY EM CENA
Lá, tudo é cerâmica. Por exemplo, você acha Cerâmica do Pelé, Fuleco Artesanato, Beija Flor Artes e Olaria do Padre.
E o conjunto ganhou um bom pique quatro anos atrás, quando o prefeito Antonio Marcos Araújo Souza, o Tony (PCdoB), negro, professor das redes estadual e municipal, também diretor de Cultura da União dos Municípios da Bahia (UPB), abraçou a ideia da Secretaria do Trabalho Emprego e Renda (Setre) e passou a fazer o Festival da Cerâmica.
– Antes éramos apenas os fornecedores da Feira dos Caxixis, em Nazaré, na Semana Santa. Agora temos cara própria.
E funcionou? Com a palavra, Jucival Antonio Nazaré Araújo, o Dute, 55 anos, nascido e criado lá, dono do Fuleco, ceramista a vida inteira:
– Sim, e na tampa da cara de todo mundo. Antes, os que vinham aqui comprar só chegavam nos fins de semana. Hoje, no mínimo, bem por baixo, dez carros por dia.
CAÇAMBAS
Se o negócio cresceu, os problemas também. Um deles: o barro é retirado de algumas fazendas e transportado por caçambeiros, hoje ao preço de R$ 1.400 a caçamba, mais R$ 200 para descarregar.
Vendo a procura crescer, os caçambeiros dispararam os preços. Tony comprou caçambas para contrapor, os donos dos barreiros não aceitaram. Ele agora tenta com a EBDA comprar uma propriedade com barro.
– Não queremos briga, apenas um fator regulador.
Tony diz que grande parte das obras produzidas lá são com finalidades religiosas, a maioria para as religiões de matriz africana. Para ele, fazer tudo isso fluir bem é questão de honra.
POLÍTICA COM VATAPÁ
Cadeia do Sal
Digam o que quiserem dos portugueses, nossos colonizadores, sempre citados como burros em rodas de piadas, não eram nada disso, segundo dez entre dez historiadores. E também eram diferenciados, tinham muito bom gosto na escolha dos locais para tocar a vida.
Às vezes, muito pelo contrário, eram engenhosamente perversos, como os idealizadores da Cadeia do Sal, no subsolo do Paço Municipal, em Jaguaripe, que fica bem pertinho de Aratuípe e de Maragogipinho.
A engenharia era diabólica. As celas foram construídas abaixo do nível do mar, de forma que todas as vezes em que a maré enchia, o preso ficava com água entre o peito e o pescoço. Resistir três dias era um milagre.
Em 1849, D. Pedro II chegou lá. Ficou encantado com a beleza arquitetônica do prédio e perguntou:
– Quanto custou?
– Uns 40 contos de réis…
E ele, surpreso:
– Oh!… Por acaso as chaves são de ouro?
Dizem nas cercanias que foi a primeira suspeita de superfaturamento da história.