OPINIÃO
Três Graças tem "farofa" que o Brasil ama para valorizar a boa e velha telenovela
Coluna discute importância das novelas manterem ritmo que combina drama com humor

Tem sido cada vez mais comum a Globo produzir novelas que tentam, a todo custo, parecer séries de streaming. Tramas excessivamente realistas, fotografias escuras, ritmos desacelerados e uma intelectualização que muitas vezes afasta o telespectador que busca o relaxamento do clássico do folhetim. É por isso que o sucesso de Três Graças precisa ser estudado.
Aguinaldo Silva provou que a "telenovela raiz" não está morta; ela apenas precisava de alguém com coragem para servir a boa e velha "farofa" que o Brasil ama.
O saldo final da produção é incontestável: excelentes números de audiência, um faturamento comercial positivo que lavou a alma dos diretores e uma grande repercussão nas redes sociais. Aguinaldo sabe como ninguém que o público quer se emocionar, sim, mas também quer ver o absurdo, o circo armado e o melodrama elevado à máxima potência.
O penúltimo capítulo, exibido nesta quinta-feira, 14, foi a prova definitiva dessa assinatura. A sequência da fuga de Arminda (Grazi Massafera) reuniu todos os elementos que consagraram o autor ao longo das décadas.
Tivemos traição, flagrante, vilão falido armado, luta corporal e um "cafuçu" disputado. Diga se não são ingredientes dignos das melhores páginas do folhetim tradicional.
O ápice do "surto coletivo" foi a transformação da tragédia em comédia. Ver Arminda, vivida por Grazi Massafera (que merece todos os elogios) alucinada em uma caminhonete batizada de Nazaré, enquanto uma música clássica tocava ao fundo e o dinheiro roubado voava pela comunidade da Chacrinha, é o puro suco da teledramaturgia brasileira.
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A cena de Ferette (Murilo Benício) e Joaquim (Marcos Palmeira) catando notas pelo chão, coroada pelo atropelamento bizarro da descontrolada Lucélia (Daphne Bozaski), resgata o pastelão que a TV moderna parecia ter vergonha de fazer.
Globo não pode esquecer as raízes
Grazi Massafera entregou tudo nessa reta final com um semblante transtornado e uma entrega visceral, mostrando que o bom ator se diverte quando o texto permite o exagero. Aguinaldo Silva não tem medo do ridículo porque sabe que a vida real já é séria demais. Suas vilãs psicóticas e situações inusitadas conversam diretamente com o imaginário popular.

A TV aberta encontra sua força justamente quando abraça a sua essência. Três Graças funcionou como um termômetro que prova que o brasileiro ainda quer sentar no sofá no horário nobre para ver o malfeitor se dar mal em uma perseguição cômica, a mocinha sofrer e o dinheiro voar pelos ares.
A novela se despede deixando o público com aquela saudade legítima do "novelão" diário. O bastão agora passa para Walcyr Carrasco, outro mestre da catarse popular.
Diante do caos observado na vida dos brasileiros, às vezes tudo o que o povo quer é uma vilã em uma caminhonete, uma trilha erudita e uma chuva de dinheiro cenográfico na tela.



