Carminha cancelada? Globo traz Avenida Brasil de volta a um país que mudou
Colunista faz crítica ao retorno do fenômeno da Globo e analisa as mudanças sociais no Brasil após 14 anos

A reexibição de Avenida Brasil no Vale a Pena Ver de Novo, iniciada nesta última segunda-feira, 30, chega com imagens de uma década atrás. Rever o folhetim que dominou a conversa pública (e que, literalmente, parou o país em seu último capítulo) é, ao mesmo tempo, um prazer e um convite sempre importante à reflexão: a novela e seus arquétipos de 2012 ainda cabem no Brasil de 2026?
Na sua era original, a trama de João Emanuel Carneiro dialogava com um cenário de polarização emocional e demandas por justiça simbólica, com a ascensão da classe média no país.
Nesta ocasião, o país aplaudia a vingança transformada em espetáculo, tendo Carminha (Adriana Esteves) no centro, personificando uma vilania incrível. Hoje, entretanto, avaliamos essas narrativas por novas lentes. O que antes era "humor do subúrbio" ou "justiça da mocinha", agora passa pela responsabilidade emocional e do lugar de fala.
Um novo olhar
Vamos combinar uma coisa? Este texto é apenas uma reflexão sobre mudanças de comportamentos, não um desejo de polemizar.
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Pense comigo, caro leitor, a jornada de Nina (Débora Falabella), por exemplo, hoje soa menos como heroísmo e mais como uma obsessão tóxica. Se em 2012 o público vibrava com suas manipulações, em 2026 questionaríamos os limites éticos de uma protagonista que demonstra comportamento abusivo para atingir seus fins.
Da mesma forma, a hipersexualização de Suelen (Isis Valverde) e as piadas em torno de sua origem boliviana revelam uma camada de xenofobia e machismo que o Brasil de uma década atrás fingia não ver, mas que o telespectador atual poderia não tolerar.

Até as relações afetivas de Tufão (Murilo Benício) e Monalisa (Heloísa Périssé) devem ganhar uma nova leitura. Pois, o que era visto como "conflito de amor" hoje é lido sob a ótica da falta de responsabilidade afetiva e da dependência emocional.
Plano da Globo com a reprise
Isso não apaga os méritos da novela. A construção dramática, o ritmo e o elenco continuam exemplares. É por isso que a volta de Avenida Brasil ganha um peso estratégico.
Nos bastidores, a Globo planeja uma continuação possivelmente para 2027. Isso transforma a reprise em um termômetro de mercado.
A emissora quer testar como o público atual reage a esse universo. Há caminhos criativos para aprofundar personagens e inserir novos debates sociais, mas os riscos são reais.
Se em sua exibição original as comparações com a série americana Revenge ficaram restritas a fóruns de nicho, hoje qualquer "inspiração" excessiva vira "exposed" nas redes sociais em questão de minutos. O público de 2026 exige originalidade e atualização de olhar.
Com certeza o que os amantes de um bom dramalhão desejam mesmo é que a Globo saiba honrar o seu passado e tenha coragem de manter forte o gênero.
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