DADOS DO IBGE
Avós baianos buscam mais independência e reduzem morada com os netos
Tecnologia aproxima avós e netos que escolheram viver o amor familiar em casas separadas


Entre o aconchego da família e a liberdade das próprias escolhas, os avós encontram um equilíbrio precioso: florescem ao cuidar dos seus, sem abrir mão de si mesmos. No Dia dos Avós, 26 de julho, dados do IBGE revelam que a coabitação entre avós e netos vem diminuindo na Bahia.
Em 2010, eram ao menos 809.686 avós vivendo sob o mesmo teto que seus netos; já em 2022, esse número caiu para 650.297, segundo o último Censo Demográfico. Especialistas destacam que morar separado dos filhos e netos não significa afastamento e muitas vezes representa a conquista de independência e liberdade.
"Essa redução pode estar relacionada a diferentes transformações sociais e demográficas. Os idosos estão vivendo mais e, muitas vezes, com melhores condições de saúde e maior independência, o que permite que tenham suas próprias residências e escolham onde e com quem desejam morar. Também houve mudanças na estrutura das famílias, nos padrões de moradia e na dinâmica de trabalho. Além disso, a tecnologia facilita a comunicação e a manutenção dos vínculos mesmo quando as gerações não vivem na mesma casa", explica a médica geriatra da Rede Mater Dei e Rede Do'r de Feira de Santana, Maria Clara de Oliveira Valente, docente do curso de medicina da Unex.
Há 25 anos trabalhando no grupo de convivência "Alegria de Viver Casa do Idoso" do Centro Social Urbano (CSU) - equipamento público administrado pela Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (Seades) - de Castelo Branco, Fátima Bastos percebeu mudanças nessa relação entre os netos e as avós que fazem parte do grupo.
"Antes havia mais avós morando com netos, hoje não tanto. Mas é difícil ter parâmetros estatísticos. Hoje, a maioria tem suas casas, são pensionistas ou aposentadas, fazem suas coisas e mantêm autonomia. Quando possível, convivem com filhos e netos, mas não de forma exclusiva ou obrigatória, entende?", explica.
Uma delas é a aposentada Wilma Barbosa Sousa (83), que mora apenas com o marido - de 89 anos -, e divide seu tempo entre visitas aos seis netos e três bisnetos, e as suas atividades e viagens.
"Ajudei, com muito amor, a criar alguns, como minha neta Layla Carolina, que por um tempo passava o dia comigo enquanto os pais trabalhavam. É o tipo de convívio que nos enche de amor e confiança, sabe? Até porque cuidar de neto, na minha opinião, exige cuidado em dobro. Mas também é importante termos autonomia e tempo para fazermos nossas coisas. Eu não faço de tudo, mas aproveito a saúde que tenho para cuidar do que precisa ser cuidado", afirma Wilma.
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Ela explica que cuidar da saúde e participar de grupos como o Alegria de Viver a permite se sentir bem e jovem, apesar da idade. A professora aposentada Lícia Margarida de Oliveira (78), por exemplo, escolheu morar sozinha, apesar da saudade que sente dos membros mais novos da família.
"Tenho dois bisnetos e muitos netos, tantos que já perdi a conta, mas para mim, por causa de várias questões, foi melhor morar só com Deus. Mas uma de minhas filhas sempre vai na minha casa ajudar na faxina, sabe? E ainda que não os veja tanto quanto desejo, até porque todo mundo tem suas coisas pra fazer no dia, recebo visita de meus netos e bisnetos,", conta.
Qualidade de vida
A médica geriatra Maria Clara salienta que o mais importante é construir uma convivência baseada no afeto e no respeito à autonomia dos avós.
"Eles podem participar da rotina dos netos, compartilhar atividades e momentos de lazer, mas também devem continuar tendo espaço para suas próprias escolhas, interesses e atividades. Na prática, as famílias podem criar momentos de convivência que sejam prazerosos para todos, respeitar os desejos dos avós, não presumir que eles estão sempre disponíveis e incentivar a participação dos idosos nas decisões sobre sua própria rotina", aconselha.
E quem bem entende disso é a aposentada Jacira Pimenta Silva (85), que teve cinco filhos, cinco netos e uma bisneta.
"Cuidei de todos e continuo cuidando. Hoje, eu moro só, mas chamei uma de minhas netas, que eu também criei, para morar na casa ao lado minha quando vi que ela estava precisando de ajuda. Somos vizinhas e eu ajudo a criar a minha bisneta Agatha, ou A Gatinha, como ela diz que se chama", conta Jacira, rindo. A menina passa a maior parte do dia na creche, mas sempre tem energia de sobra para brincar com a bisa. "Ela gosta de brincar de bola, de poesia, aprende rápido e chega sempre com um abraço. É muito amor", afirma.
Muito amor dado e recebido de volta. A aposentada Valdete de Sousa Alves (74) é uma das poucas membros do grupo que, de fato, mora com o neto, o Kauã, que cria junto ao marido e ao pai do neto.
"Claro que criar ele dá trabalho, ainda mais na minha idade, mas ele tem muito amor comigo e é muito inteligente. Kauã é um dos melhores alunos da escola, faz as atividades sozinho e mexe no celular melhor do que eu, até me ensina. E apesar de ser criança, ele cuida de mim. Passa pomada no meu braço, cobra se estou tomando os remédios no horário e até me vigia quando vou a festas: 'Não beba, vovó, senão vai ficar doida'. É um amor de criança, mas no meio disso tudo também encontro tempo para mim e para minhas coisas", afirma.


