NUTRICÍDIO
Comida baiana engorda? Especialista desmente mito sobre pratos
Nutricionista desconstrói o estigma da culinária afro e destaca a preservação cultural


Você já deve ter ouvido falar que acarajé, caruru, vatapá e feijão são "comidas pesadas" e que nunca fazem parte de uma dieta considerada saudável. Mas esse dito carrega mitos que vão muito além do mero gosto alimentar.
De acordo com o nutricionista e mestre em crítica cultural, Rafael Bastos, em entrevista ao portal A TARDE, desvalorizar o valor nutricional desses pratos é também apagar a história e a cultura de um povo.
"Essa ideia de 'comida pesada' não nasceu da nutrição, mas de um processo histórico que Llaila Afrika nos ajuda a compreender chamando de nutricídio, que é quando o racismo também atravessa a alimentação e obviamente a saúde da população negra", explica Rafael.
"Muitas preparações de matriz africana foram estigmatizadas junto com toda a sua cultura, seus saberes e as religiões. Manter saúde não passa por excluir alimentos, sobretudo alimentos tradicionais, que precisa ser preservado e respeitado", completa ele.
Portanto, cuidar da saúde não significa abandonar a cultura alimentar nem deixar de consumir preparações que fazem parte da identidade de diferentes povos, mas sim encontrar um equilíbrio no consumo e na variedade da alimentação geral.
Saúde alimentar e tradição da culinária afro-brasileira
Diversos ingredientes da culinária afro-brasileira oferecem benefícios importantes para a saúde e podem ser incorporados facilmente à alimentação.
O portal A TARDE reuniu uma lista desses alimentos, com apoio do nutricionista Rafael Bastos, confira:
- Azeite de dendê: Apesar de muito estigmatizado, o azeite de dendê é uma fonte de gorduras boas e compostos antioxidantes, como carotenoides, que contribuem para a saúde da pele, da visão e do sistema imunológico.
- Feijão-fradinho: Rico em proteínas vegetais e fibras, ajuda na saciedade e favorece o funcionamento do intestino. É a base do acarajé, mas também pode ser utilizado em saladas e outras preparações do cotidiano.
- Quiabo: Possui alto teor de fibras e antioxidantes, auxiliando na saúde intestinal e na digestão. Também contribui para aumentar a saciedade nas refeições.
- Inhame:Rico em carboidratos complexos, fonte de energia, de fibras e vitaminas do complexo B. O Inhame contribui para o funcionamento do intestino, do sistema imunológico e da saúde cardiovascular.
- Abóbora: Rica em fibras, vitamina A e vitamina C, a abóbora contribui para a saúde da visão, fortalece o sistema imunológico e possui alto teor de água, favorecendo a saciedade nas refeições.
"Reduzir toda a cozinha afro-brasileira a alimentos com alto nível de gordura é um equívoco. Ela é diversa, rica em vegetais, grãos, leguminosas, raízes e sementes e pode fazer parte de uma alimentação equilibrada, com certeza", ressalta o nutricionista.
Proibir não é o caminho a se seguir
Toda alimentação saudável precisa ser equilibrada. A variedade de alimentos é essencial para garantir que todos os nutrientes sejam repostos no organismo. Por isso, transformar as comidas tradicionais em violões é prejudicial à saúde, além de reproduzir comportamentos preconceituosos.
Leia Também:
"O acarajé, por exemplo, pode fazer parte da alimentação em momentos de celebração, mas também do cotidiano, caso sejam aplicadas estratégias muito bem elaboradas. Existe o valor nutricional agregado, mas tem um valor calórico também, então é importante o equilíbrio", afirma Rafael.
"A alimentação é uma das formas principais que a gente tem de preservar a identidade de um povo, a gente também está valorizando a história, os saberes e as pessoas. Questionar o estigma de que essa comida é 'pesada' ou inferior também significa que estamos enfrentando o racismo", finaliza ele.


