DIA DOS PAIS
Educar, cuidar e conscientizar: como pais influenciam a formação de novas gerações
Historiador relaciona cuidado, racismo e segurança pública a construção de uma sociedade mais justa


A comemoração do Dia dos Pais simboliza um momento de celebração do amor e da importância da figura paterna na formação emocional e social dos filhos. A presença física e afetiva do pai influencia diretamente a construção da autoestima e do senso de pertencimento da criança.
A paternidade atua como um catalisador de empatia, pois a responsabilidade de cuidar, proteger e projetar o futuro de um filho força o homem a sair de uma perspectiva individualista e a enxergar as vulnerabilidades do mundo real e mudar apercepção e preocupação com a garantia dos direitos e oportunidades das próximas gerações.
Ao vivenciar na pele as ansiedades ligadas ao acesso à saúde, à educação de qualidade, à segurança nas ruas e à igualdade de oportunidades, por exemplo, a alteridade deixa de ser um conceito abstrato e torna-se uma vivência concreta.
É o caso do historiador e coordenador da Rede de Observatórios da Segurança na Bahia, Dudu Ribeiro. "A chegada da paternidade me fez pensar de forma ainda mais sensível sobre o lugar do homem negro na sociedade e como inúmeros processos de violência comprometem esse percurso de oferecer e receber cuidado", afirmou, em entrevista ao portal A TARDE.
Para Dudu, a experiência de ser pai também trouxe uma nova perspectiva sobre as desigualdades que atravessam, especialmente, a população negra. A paternidade reforçou a necessidade, dele, de ampliar a reflexão sobre como o racismo, a violência e a desigualdade que impactam não só indivíduos, mas comunidades inteiras.
"A paternidade me apresenta novos mundos, novas possibilidades de aprofundar esse compromisso com a comunidade sobretudo com a comunidade negra na diáspora. Eu sempre tive a preocupação de não olhar os dados enquanto números, mas sobretudo enquanto vidas. Então, a paternidade me impôs essa condição mais assertiva de auto-proteção, para proteger a minha família frente ao fato do homem negro estar em uma condição de violação permanente na sociedade racista", completa Dudu.
O papel do diálogo na formação de crianças mais conscientes
A construção de uma sociedade mais segura e igualitária perpassa pela forma como as crianças e adolescentes são preparados para compreender a realidade ao seu redor.
"Não tem assunto que a gente não possa tratar com as infâncias, claro que, com o devido cuidado a formação e ao momento daquela criança, é importante que ela seja apresentada ao mundo da forma mais verdadeira possível", orienta o historiador.
"Nesse sentido, reforçar a autoestima, as suas capacidades e fornecer instrumentos para estimular uma boa vivência na infância e no percurso de criação, os prepara para os próximos momentos e fases da vida", relata ele.

A responsabilidade pela formação de uma criança vai além do papel exercido pelos pais. Dudu destaca que a infância é construída a partir de uma rede de relações que envolve família, escola e comunidade.
"Nós temos uma responsabilidade como pais, no entanto, as crianças são formadas em comunidades, pela comunidade escolar, familiar, e todas as incidências do contexto e as formas. Portanto, fornecer a segurança, a confiança e o respeito àquela infância permite com que ela seja fortalecida e consiga ser estimulada a lidar com esses temas que atravessarão a sua vida da forma mais assertiva possível", diz Dudu.
Neste contexto de segurança e proteção a integridade da infância, recursos jurídicos, como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), são importantes para orientar pais e responsáveis no processo de educação pessoal e social.
"Nós temos um grande estatuto institucional que é o ECA, é uma vitória da sociedade civil e dos movimentos pela infância. Ele garante um conjunto de direitos e o olhar do Estado sobre essas crianças. No entanto, nós temos também um país bastante desigual e desigual racialmente, portanto, o olhar para as infâncias não deve ser algo único, como um padrão homogêneo, mas perceptível das inúmeras formas de viver e de quais são os mecanismos e políticas para proteger as crianças", ressalta o historiador.
Dudu Ribeiro, que não recebeu a paternidade apenas como uma mudança na sua vida pessoal, mas também no exercício do seu trabalho de defesa dos direitos humanos, aproveitou a oportunidade para deixar uma mensagem para todos os homens que são ou serão pais, especialmente aqueles que vivenciam os impactos do racismo e da violência em seu cotidiano.
Leia Também:
"Que esses pais busquem reconstruir o sentimento de amor comunitário, um amor que crie esse ecossistema em torno da infância e que também permita o cuidado desse pai", diz ele.
"É importante que a gente perceba que, para cuidar do outro, a gente precisa se sentir bem cuidado, e nós estamos falando de cidadãos que são constantemente alvos da violência letal do estado e da violência racial. Então, é necessário reconstruir essa conexão para que isso faça com que a gente tenha condições de cuidar das infâncias enquanto cuidamos de nós mesmos", finaliza Dudu.


