RELAÇÕES MODERNAS
Relacionamentos abertos e sem filhos: existe ligação ou é mera coincidência
Especialista e adeptos explicam a desconstrução do modelo tradicional de união

Os relacionamentos abertos se tornaram tendências após o final da pandemia da Covid-19, e desde então seguem ampliando e se juntando com outras formas de viver uma união, a principal delas, não ter filhos.
A modalidade de união sem um filho também ganhou popularidade, visto que, nos últimos 20 anos, o número de famílias sem um descendente subiu para 24,1%, de acordo com o Censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Esse tipo de união foi discutido na mídia nas últimas semanas, após o casal de atores da Globo Agatha Moreira e Rodrigo Simas confirmar que não quer ter filhos, afirmando que atualmente “já são uma família”.

“Sou apaixonada por criança. Mas a decisão de ser mãe me soa quase egoísta. Se eu decido ter, pode ser só para suprir o meu desejo. Se eu decido não ter, é porque realmente não quero abrir mão da vida que tenho. E eu gosto muito da vida que tenho hoje”, afirmou a atriz em entrevista à Globo.
Relacionamento aberto e sem filhos tem relação?
Tomando a inspiração do casal de atores, o portal A TARDE conversou com a psicoterapeuta clínica, especializada em casais e sexologia clínica, Ana Paula Pitiá, que comentou sobre o comportamento dos casais que vivem um relacionamento aberto e sobre a escolha de não terem filhos.
Inicialmente, a profissional contou que atualmente não existe uma relação concreta entre abrir um relacionamento e ter filhos, porém passariam pelo mesmo processo, o consenso do casal.
Tendo isso em vista, levantamos os seguintes questionamentos sobre a relação do relacionamento aberto com a decisão de ter filhos ou não:
- Existe uma relação entre a felicidade e longevidade do casal com a decisão de abrir o relacionamento e não ter filhos?
- Quais os principais motivos que levam os casais a abrirem os relacionamentos? E pela decisão de não ter filhos?
- Qual é o maior desafio para os casais que decidem abrir a relação? Como estabelecer acordos e limites que funcionem na prática sem gerar insegurança?
- Quais são as principais queixas ou crises que casais com esse perfil (aberto e sem filhos) costumam levar para a terapia?
Longevidade e felicidade do casal
Sobre esse ponto, a psicoterapeuta aponta que inicialmente existem expectativas, principalmente de segurança e parceria, de ambas as partes para um casal ser longevo em um relacionamento aberto.
“Se existe um relacionamento, existe um nível de comprometimento emocional”, contou Ana Paula Pitiá.
Somado a isso, ela aponta que o fato de um relacionamento ser aberto não garante que ele seja longevo e feliz, mas, na verdade, “tem que ter muito amor dentro dessa relação para se abrir essa relação”.
Ou seja, os principais pontos que garantiriam um relacionamento aberto e duradouro, de acordo com a psicoterapeuta, devem ser:
- disponibilidade afetiva;
- afeto;
- segurança emocional.
Porém, ainda conforme a especialista, existe uma relação que indica que a probabilidade de um divórcio diminui quando um casal tem um filho pequeno.
“Ter filhos, principalmente de idades menores, como na primeira infância, é um indicativo de que os divórcios não são tão prevalecentes”, apontou a psicoterapeuta.

Leia Também:
O que motiva um casal a abrir o relacionamento e não ter filhos?
Atualmente, está cada vez mais comum a prática dos relacionamentos abertos sem filhos, porém, de acordo com a psicoterapeuta, ainda não existem estudos concretos que unam a abertura de um relacionamento com a decisão de não ter um filho.
Mas, mesmo sem a existência de um elo entre os dois assuntos, o meio de decisão é o mesmo: um diálogo e um consenso entre ambas as partes.
Adepto das relações não monogâmicas, o filmmaker e editor Rodolfo Guimarães contou sobre sua trajetória nos relacionamentos abertos e indicou que, no seu caso, as decisões da abertura de suas relações aconteceram de forma natural, já que, desde o início, ele buscou se relacionar com pessoas que seguiam o mesmo modelo de relação que ele.
"No meu caso, não aconteceu dessa forma de formular uma decisão para que o relacionamento se abra. Normalmente, eu já me relacionava com as pessoas não monogâmicas".
Além disso, é válido relatar que, no presente, tal decisão de não ter filhos já é evidenciada em diversos casais atuais, podendo estar ligada a modelos de famílias mais modernas e quebras de paradigmas históricos.
Mudança na perspectiva do que é ser adulto
Um dos principais pontos citados pela psicoterapeuta seria uma alteração na forma da sociedade entender o que seria uma pessoa adulta.
“Antigamente ser adulto era ter família; hoje, após essa transformação na perspectiva cultural, ser adulto implica em outros aspectos, em outras responsabilidades, que fazem com que os adultos tomem e tenham a liberdade de decidir por ter ou não filhos”, diz a psicoterapeuta.
Parte desse sentimento de independência citado pela psicoterapeuta também foi levado em conta por Rodolfo, que contou à reportagem que não quer ser pai e tomou essa decisão buscando “ter liberdade, uma tomada de decisão livre e independência”.
Esse ponto ainda pode ser utilizado como justificativa para a abertura de um relacionamento. Além da mudança da perspectiva da sociedade atual, o casal pode abrir o relacionamento por outros motivos, dependendo de regras, expectativas e valores.
Questão econômica
Além da mudança do entendimento do que é ser um adulto atualmente, outro ponto que influencia as pessoas a serem pais ou não é a questão econômica, já que está cada vez mais caro ter um filho.
De acordo com um estudo feito pelo Insper a pedido do Estadão, conduzido por Juliana Inhasz, professora e coordenadora do curso de economia do instituto, o custo para criar um filho é:
- Para as famílias da classe C (entre R$ 5.281 e R$ 13,2 mil de renda mensal): gasto estimado varia de R$ 480 mil a R$ 1,2 milhão;
- Para as famílias da classe B (entre R$ 13.201 e R$ 26,4 mil de renda mensal): gasto estimado de R$ 1,2 milhão até R$ 2,4 milhões;
- Para as famílias da classe A (renda mensal superior a R$ 26 mil): gasto estimado partindo de R$ 3,6 milhões e continua a subir em função da renda familiar.
Desafios atuais para se abrir um relacionamento
Além da decisão consensual, existem diversos outros desafios para a abertura de um relacionamento; a principal delas, de acordo com Ana Paula Pitiá, seria a preservação do afeto e a sustentação da relação como um todo.
Somado a isso, Rodolfo Guimarães separou alguns pontos que, para ele, seriam positivos ou negativos quando se trata de um relacionamento aberto.
Pontos Positivos
- Honestidade e comunicação profunda: Há a premissa de que os envolvidos são maduros para dialogar sobre "tudo e qualquer coisa", tornando a parceria e a cumplicidade mais profundas do que nas relações monogâmicas.
- Manutenção da individualidade: O modelo permite que a pessoa compreenda e mantenha a sua própria individualidade, algo que o autor nota se perder frequentemente nos casamentos tradicionais.
- Criação de filhos em comunidade (descentralização): Diferente da monogamia, em que costuma haver uma sobrecarga da mãe na criação, o pensamento não monogâmico abre margem para uma lógica mais comunitária e horizontalizada, em que o cuidado com a criança é compartilhado (como o autor exemplifica com comunidades indígenas).
- Poder de decisão e personalização: A relação não vem em um pacote pré-formatado pela sociedade. Os envolvidos têm a liberdade de construir seus próprios acordos, negociações e formatos de acordo com suas experiências pessoais.
Pontos negativos
- Falta de plena consciência e referências: Por ser um "mundo de descobertas" e não um modelo pronto, muitas vezes nem quem está vivendo a relação tem total consciência do que está fazendo.
- Caminho desconhecido e difícil: O autor compara o processo a "abrir a mata com o facão". É um caminho escuro que precisa ser iluminado conforme se anda, o que não torna a relação mais fácil e exige constantes diálogos de resolução.
- Gasto energético e emocional elevado: Lidar com a complexidade de tantas emoções juntas gera um desgaste grande de energia e disposição.
- Impacto de terceiros na relação: Ter que gerenciar e lidar com problemas e situações que aconteceram em outras relações do parceiro(a), mas que inevitavelmente acabam influenciando e afetando o relacionamento de vocês.
Insegurança acende alerta
Já sobre os arrependimentos e alertas que um relacionamento aberto pode causar, a psicoterapeuta afirma que, quando casais que vivem em um relacionamento aberto e sem filhos buscam um auxílio psicológico, “normalmente é por insegurança ou ciúmes”.
No fim, seja optando pela liberdade das relações abertas ou pela independência de uma vida sem filhos, o diagnóstico de especialistas e adeptos é o mesmo: não existem fórmulas prontas, e o sucesso de qualquer formato familiar dependerá sempre da transparência e do respeito aos acordos estabelecidos.



