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RELAÇÕES MODERNAS

Relacionamentos abertos e sem filhos: existe ligação ou é mera coincidência

Especialista e adeptos explicam a desconstrução do modelo tradicional de união

Gustavo Zambianco
Por
Relacionamento aberto
Relacionamento aberto - Foto: Divulgação | Freepik

Os relacionamentos abertos se tornaram tendências após o final da pandemia da Covid-19, e desde então seguem ampliando e se juntando com outras formas de viver uma união, a principal delas, não ter filhos.

A modalidade de união sem um filho também ganhou popularidade, visto que, nos últimos 20 anos, o número de famílias sem um descendente subiu para 24,1%, de acordo com o Censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

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Esse tipo de união foi discutido na mídia nas últimas semanas, após o casal de atores da Globo Agatha Moreira e Rodrigo Simas confirmar que não quer ter filhos, afirmando que atualmente “já são uma família”.

Agatha Moreira e Rodrigo Simas
Agatha Moreira e Rodrigo Simas - Foto: Reprodução | Redes Sociais

“Sou apaixonada por criança. Mas a decisão de ser mãe me soa quase egoísta. Se eu decido ter, pode ser só para suprir o meu desejo. Se eu decido não ter, é porque realmente não quero abrir mão da vida que tenho. E eu gosto muito da vida que tenho hoje”, afirmou a atriz em entrevista à Globo.

Relacionamento aberto e sem filhos tem relação?

Tomando a inspiração do casal de atores, o portal A TARDE conversou com a psicoterapeuta clínica, especializada em casais e sexologia clínica, Ana Paula Pitiá, que comentou sobre o comportamento dos casais que vivem um relacionamento aberto e sobre a escolha de não terem filhos.

Inicialmente, a profissional contou que atualmente não existe uma relação concreta entre abrir um relacionamento e ter filhos, porém passariam pelo mesmo processo, o consenso do casal.

Tendo isso em vista, levantamos os seguintes questionamentos sobre a relação do relacionamento aberto com a decisão de ter filhos ou não:

  • Existe uma relação entre a felicidade e longevidade do casal com a decisão de abrir o relacionamento e não ter filhos?
  • Quais os principais motivos que levam os casais a abrirem os relacionamentos? E pela decisão de não ter filhos?
  • Qual é o maior desafio para os casais que decidem abrir a relação? Como estabelecer acordos e limites que funcionem na prática sem gerar insegurança?
  • Quais são as principais queixas ou crises que casais com esse perfil (aberto e sem filhos) costumam levar para a terapia?

Longevidade e felicidade do casal

Sobre esse ponto, a psicoterapeuta aponta que inicialmente existem expectativas, principalmente de segurança e parceria, de ambas as partes para um casal ser longevo em um relacionamento aberto.

“Se existe um relacionamento, existe um nível de comprometimento emocional”, contou Ana Paula Pitiá.

Somado a isso, ela aponta que o fato de um relacionamento ser aberto não garante que ele seja longevo e feliz, mas, na verdade, “tem que ter muito amor dentro dessa relação para se abrir essa relação”.

Ou seja, os principais pontos que garantiriam um relacionamento aberto e duradouro, de acordo com a psicoterapeuta, devem ser:

  • disponibilidade afetiva;
  • afeto;
  • segurança emocional.

Porém, ainda conforme a especialista, existe uma relação que indica que a probabilidade de um divórcio diminui quando um casal tem um filho pequeno.

“Ter filhos, principalmente de idades menores, como na primeira infância, é um indicativo de que os divórcios não são tão prevalecentes”, apontou a psicoterapeuta.

Relacionamento aberto
Relacionamento aberto - Foto: Divulgação | Freepik

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O que motiva um casal a abrir o relacionamento e não ter filhos?

Atualmente, está cada vez mais comum a prática dos relacionamentos abertos sem filhos, porém, de acordo com a psicoterapeuta, ainda não existem estudos concretos que unam a abertura de um relacionamento com a decisão de não ter um filho.

Mas, mesmo sem a existência de um elo entre os dois assuntos, o meio de decisão é o mesmo: um diálogo e um consenso entre ambas as partes.

Adepto das relações não monogâmicas, o filmmaker e editor Rodolfo Guimarães contou sobre sua trajetória nos relacionamentos abertos e indicou que, no seu caso, as decisões da abertura de suas relações aconteceram de forma natural, já que, desde o início, ele buscou se relacionar com pessoas que seguiam o mesmo modelo de relação que ele.

"No meu caso, não aconteceu dessa forma de formular uma decisão para que o relacionamento se abra. Normalmente, eu já me relacionava com as pessoas não monogâmicas".

Além disso, é válido relatar que, no presente, tal decisão de não ter filhos já é evidenciada em diversos casais atuais, podendo estar ligada a modelos de famílias mais modernas e quebras de paradigmas históricos.

Mudança na perspectiva do que é ser adulto

Um dos principais pontos citados pela psicoterapeuta seria uma alteração na forma da sociedade entender o que seria uma pessoa adulta.

“Antigamente ser adulto era ter família; hoje, após essa transformação na perspectiva cultural, ser adulto implica em outros aspectos, em outras responsabilidades, que fazem com que os adultos tomem e tenham a liberdade de decidir por ter ou não filhos”, diz a psicoterapeuta.

Parte desse sentimento de independência citado pela psicoterapeuta também foi levado em conta por Rodolfo, que contou à reportagem que não quer ser pai e tomou essa decisão buscando “ter liberdade, uma tomada de decisão livre e independência”.

Esse ponto ainda pode ser utilizado como justificativa para a abertura de um relacionamento. Além da mudança da perspectiva da sociedade atual, o casal pode abrir o relacionamento por outros motivos, dependendo de regras, expectativas e valores.

Questão econômica

Além da mudança do entendimento do que é ser um adulto atualmente, outro ponto que influencia as pessoas a serem pais ou não é a questão econômica, já que está cada vez mais caro ter um filho.

De acordo com um estudo feito pelo Insper a pedido do Estadão, conduzido por Juliana Inhasz, professora e coordenadora do curso de economia do instituto, o custo para criar um filho é:

  • Para as famílias da classe C (entre R$ 5.281 e R$ 13,2 mil de renda mensal): gasto estimado varia de R$ 480 mil a R$ 1,2 milhão;
  • Para as famílias da classe B (entre R$ 13.201 e R$ 26,4 mil de renda mensal): gasto estimado de R$ 1,2 milhão até R$ 2,4 milhões;
  • Para as famílias da classe A (renda mensal superior a R$ 26 mil): gasto estimado partindo de R$ 3,6 milhões e continua a subir em função da renda familiar.

Desafios atuais para se abrir um relacionamento

Além da decisão consensual, existem diversos outros desafios para a abertura de um relacionamento; a principal delas, de acordo com Ana Paula Pitiá, seria a preservação do afeto e a sustentação da relação como um todo.

Somado a isso, Rodolfo Guimarães separou alguns pontos que, para ele, seriam positivos ou negativos quando se trata de um relacionamento aberto.

Pontos Positivos

  • Honestidade e comunicação profunda: Há a premissa de que os envolvidos são maduros para dialogar sobre "tudo e qualquer coisa", tornando a parceria e a cumplicidade mais profundas do que nas relações monogâmicas.
  • Manutenção da individualidade: O modelo permite que a pessoa compreenda e mantenha a sua própria individualidade, algo que o autor nota se perder frequentemente nos casamentos tradicionais.
  • Criação de filhos em comunidade (descentralização): Diferente da monogamia, em que costuma haver uma sobrecarga da mãe na criação, o pensamento não monogâmico abre margem para uma lógica mais comunitária e horizontalizada, em que o cuidado com a criança é compartilhado (como o autor exemplifica com comunidades indígenas).
  • Poder de decisão e personalização: A relação não vem em um pacote pré-formatado pela sociedade. Os envolvidos têm a liberdade de construir seus próprios acordos, negociações e formatos de acordo com suas experiências pessoais.

Pontos negativos

  • Falta de plena consciência e referências: Por ser um "mundo de descobertas" e não um modelo pronto, muitas vezes nem quem está vivendo a relação tem total consciência do que está fazendo.
  • Caminho desconhecido e difícil: O autor compara o processo a "abrir a mata com o facão". É um caminho escuro que precisa ser iluminado conforme se anda, o que não torna a relação mais fácil e exige constantes diálogos de resolução.
  • Gasto energético e emocional elevado: Lidar com a complexidade de tantas emoções juntas gera um desgaste grande de energia e disposição.
  • Impacto de terceiros na relação: Ter que gerenciar e lidar com problemas e situações que aconteceram em outras relações do parceiro(a), mas que inevitavelmente acabam influenciando e afetando o relacionamento de vocês.

Insegurança acende alerta

Já sobre os arrependimentos e alertas que um relacionamento aberto pode causar, a psicoterapeuta afirma que, quando casais que vivem em um relacionamento aberto e sem filhos buscam um auxílio psicológico, “normalmente é por insegurança ou ciúmes”.

No fim, seja optando pela liberdade das relações abertas ou pela independência de uma vida sem filhos, o diagnóstico de especialistas e adeptos é o mesmo: não existem fórmulas prontas, e o sucesso de qualquer formato familiar dependerá sempre da transparência e do respeito aos acordos estabelecidos.

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