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Enem 2026: Filosofia e Sociologia abordam ética, política e movimentos sociais
Análise é do Renato Faria, professor de Filosofia e Sociologia do Bernoulli Educação


A prova de Ciências Humanas do Enem 2026 manteve o caráter crítico e reflexivo, com destaque para movimentos sociais, diversidade cultural e debates éticos e políticos. Segundo o professor Renato Faria, do Bernoulli Educação, o exame exigiu dos candidatos uma leitura aprofundada e a capacidade de relacionar diferentes áreas do conhecimento. A presença de textos mais extensos e questões interdisciplinares também chamou a atenção nesta edição.
“A prova de Ciências Humanas manteve uma abordagem crítica, exigindo dos candidatos atenção às grandes questões sociais. Os movimentos sociais tiveram destaque, especialmente a identidade dos povos originários, abordada em diferentes questões. Uma delas discutiu o aumento do ingresso de indígenas nas universidades e a importância de políticas públicas que garantam não apenas o acesso, mas também a permanência desses estudantes.
O movimento feminista também ganhou espaço, com questões sobre a participação política das mulheres e uma reflexão crítica sobre a associação da figura feminina ao pecado no discurso religioso medieval. Outros temas recorrentes no Enem estiveram presentes, como o patrimônio cultural enquanto expressão da memória coletiva, a valorização do movimento negro e as conquistas do movimento operário no século XIX. Na Sociologia, chamou atenção uma questão baseada na obra Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro, que abordou o conceito de patrimonialismo.
Um dos aspectos mais surpreendentes foi a estrutura da prova. Logo na primeira página, um texto extenso de Lilia Schwarcz sobre a construção dos museus serviu de base para um conjunto de questões que relacionavam o conteúdo ao pensamento pré-socrático e a discussões sobre etnocentrismo e pluralidade cultural. Esse formato exigiu uma leitura mais atenta e aprofundada, com a necessidade de retomar o texto diversas vezes. Trata-se de um modelo presente nas primeiras edições do Enem, mas que, nos últimos anos, havia cedido espaço a textos mais curtos e fragmentados. Essa escolha reforçou o caráter interdisciplinar da avaliação.
Em Filosofia, a prova apresentou menos vocabulário técnico e valorizou o letramento filosófico, ou seja, a capacidade de interpretar textos mais complexos, que não foram originalmente produzidos para o grande público. Ainda assim, o domínio dos conteúdos clássicos foi importante, especialmente nas questões sobre os pré-socráticos, os contratualistas Hobbes e Rousseau, com discussões sobre a legitimidade do poder, e Aristóteles, com reflexões sobre ética e ação virtuosa.
O exame também reafirmou a importância dos debates éticos e políticos, trazendo uma questão sobre os limites do melhoramento genético na escolha de características dos filhos. Entre as mais complexas, destaco a que relacionou o pensamento de Hannah Arendt e Walter Benjamin para discutir a espetacularização e a estetização da política.
De modo geral, foi uma prova que exigiu repertório sociocultural, capacidade interpretativa e compreensão das relações entre filosofia, política e sociedade, valorizando uma formação crítica e interdisciplinar dos estudantes.”