COPA A TARDE
Brasil tem chance de hexa na Copa do Mundo 2026? Especialistas analisam
Jornalistas esportivos avaliam como a Seleção Brasileira chega para a Copa do Mundo
Uma geração inteira já cresceu sem nunca ter visto o Brasil ser campeão do mundo. O sonho do hexa ficou preso em um looping que, de 4 em 4 anos, reacende a mesma pergunta - a Seleção Brasileira tem chances reais de ser campeã?
No torneio que envolve até aqueles que não gostam e nem acompanham futebol, os que passaram todo o ciclo de Copa assistindo às partidas dos atletas convocados para a competição começam a receber as perguntas de quem busca entender se estão se iludindo ou podem acreditar no sonho do hexa, que agora perdura há 24 anos.
Ninguém melhor para opinar, então, do que os especialistas da bola. Para os jornalistas esportivos, o Brasil tem chance real de conquistar o hexa, ou entra na Copa de 2026 mais apoiado na tradição do que em evidências concretas de futebol?
A resposta, no entanto, não é unânime. Mesmo com a chegada de Carlo Ancelotti, técnico multicampeão no futebol europeu, o ciclo brasileiro foi marcado por instabilidade, trocas no comando técnico, resultados decepcionantes e dificuldade para construir uma identidade clara.
Antes do italiano, o Brasil passou por Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior, que passou o comando para Ancelotti em 2025. Hoje, o técnico já teve o contrato renovado até a Copa de 2030 antes mesmo da disputa do Mundial de 2026.
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Essa decisão reforça a confiança da CBF no treinador, mas também ajuda a alimentar uma leitura feita por parte dos especialistas - talvez o projeto mais completo do italiano à frente do Brasil não seja este, e sim o próximo ciclo.
Ouvidos pela reportagem, os jornalistas Pedro Sento Sé, Elton Serra e Rafael Tiago convergem em um ponto central: o Brasil não pode ser descartado, porque segue sendo Brasil, mas está longe de chegar como favorito ao título.
Tradição não basta, mas pesa
Entre os três especialistas, Pedro Sento Sé é o que adota uma análise mais cautelosa. Jornalista reconhecido no rádio esportivo baiano, Pedro é apontado como uma das referências da crônica esportiva local.
Com passagens por Record Bahia, Rádio Sociedade, Bar FC, Galáticos, programa Sport+ e até mesmo a Revista Placar, ele também já comandou o "A TARDE Esporte Clube no Ar", na Rádio A TARDE FM.
A leitura de Pedro parte menos do talento individual e mais do processo. Para ele, a Seleção Brasileira chega à Copa de 2026 prejudicada por um ciclo ruim, confuso e instável.
"O Brasil nem de longe chega entre as favoritas", avalia. "É claro que não pode ser descartado, mas não chega entre as favoritas porque o ciclo de Copa do Brasil foi o pior possível", completa.
Na avaliação do jornalista, a sucessão de treinadores impediu a formação de uma equipe sólida. Pedro cita, em especial, a passagem de Fernando Diniz, que comandou o Brasil de forma interina em meio à expectativa frustrada pela chegada de Ancelotti em um primeiro momento.
"Trocas de treinadores, um treinador que inclusive nem treinador era, era um treinador tampão dele mesmo, no caso Fernando Diniz. Então, um treinador que teve pouco tempo para pensar e preparar a Seleção, pouquíssimos jogos, chegou pressionado para se classificar e agora tem aí uma meta de fazer a melhor Copa possível", opina.
A crítica, no entanto, não significa descrença absoluta. Pedro vê em Ancelotti um trunfo importante, especialmente por sua experiência em competições eliminatórias e pela capacidade de lidar com ambientes de pressão.
O italiano construiu parte de sua reputação justamente em torneios de mata-mata, sobretudo na Liga dos Campeões, o que alimenta a esperança de que o Brasil possa crescer durante a Copa.
Ainda assim, para o comentarista, o ciclo mais promissor de Ancelotti tende a ser o de 2030. "Eu acredito que esse ciclo de Copa de Ancelotti, para valer mesmo, seja o próximo, visando a Copa de 2030, agora que ele está de contrato renovado", diz.
"Mas a gente não pode descartar jamais o Brasil pela força dos seus atletas e pela capacidade de Ancelotti pelos títulos que já empilhou em campeonatos de tiro curto", afirma.
A conclusão de Pedro, então, é direta - há esperança, mas não favoritismo. "É torcer pelo melhor cenário, mas com o povo brasileiro sabendo que, hoje, não estamos bem preparados para conquistar o hexa", finaliza.
Existem seleções mais "prontas"
Elton Serra também enxerga a Seleção fora do primeiro bloco de favoritas. Natural de Salvador, o jornalista construiu trajetória no rádio, em portais esportivos e na televisão até chegar à ESPN Brasil, onde se consolidou como comentarista e integrante da programação nacional.
Antes da projeção nacional, Elton teve passagem por CBN, Transamérica, Tudo FM e pelos portais Futebol Baiano e Arena Nordeste. Também é autor de "Década de Ouro", obra sobre o heptacampeonato baiano do Esporte Clube Bahia.
Para Elton, toda potência tradicional precisa ser considerada em uma Copa do Mundo. O torneio, por natureza, permite oscilações, surpresas e arrancadas improváveis, mas ainda assim, quando compara elenco, momento e maturidade competitiva, ele coloca o Brasil atrás de outras seleções.
"Para mim, todas as principais seleções têm chances. Algumas têm mais, outras têm menos. Hoje eu vejo a seleção um pouco distante da briga pelo título. Eu acho que o Brasil hoje tem menos chance de vencer a Copa do Mundo que Inglaterra, Espanha, França e Argentina, para ficar nessas quatro", analisa.
O jornalista destaca que a Copa do Mundo é um "torneio de tiro curto", no qual o estado físico e psicológico pode ser decisivo. Nesse sentido, uma seleção que chega sem favoritismo pode crescer no mata-mata, desde que encontre encaixe, confiança e desempenho no momento certo.
No entanto, Elton Serra ressalta que o Brasil, nos últimos ciclos, não conseguiu ultrapassar a barreira que separa candidatos de campeões. "Vem de quartas de final em 2010, vem de semifinal em 2014, vem de quartas em 2018 e 2022. Então é uma equipe que não conseguiu atravessar essa barreira para tentar lutar por um título", diz.
A sequência recente pesa na análise. Desde o título de 2002, o Brasil não voltou a disputar uma final de Copa do Mundo. Caiu para França em 2006, Holanda em 2010, Alemanha em 2014, Bélgica em 2018 e Croácia em 2022, em um retrospecto que reforça a percepção de que a camisa ainda assusta, mas já não resolve sozinha.
Para Elton, o ciclo atual não ofereceu elementos suficientes para colocar o Brasil sequer como semifinalista provável. "Ainda vejo nesse ciclo de Copa que não me trouxe nenhuma coisa nova para colocar pelo menos o Brasil como um semifinalista. Eu acho que o Brasil ainda não consegue ultrapassar a barreira das quartas de final", crava.
Mesmo assim, o comentarista evita um diagnóstico definitivo. O mata-mata, lembra ele, pode mudar a trajetória de uma equipe. Um jogo grande, uma atuação acima da média ou uma vitória contra rival forte pode transformar uma seleção desacreditada em candidata real.
"É mata-mata. Você está num dia bom, você vence, você cresce. Isso aconteceu com Marrocos, aconteceu com Croácia, aconteceu com Portugal, aconteceu com Holanda. Então pode acontecer", afirma.
Para Elton, o Brasil tem chance porque é gigante, mas não porque tenha mostrado, até agora, futebol de favorito.
"Não vejo a Seleção como favorita, mas tem chances porque a Copa do Mundo dá chance também para gigantes vencerem, até porque poucas seleções venceram em quase 100 anos de existência da competição", finaliza.
Falta craque, falta meio e falta gol
A avaliação mais crítica vem de Rafael Tiago Nunes. Coordenador do Portal A TARDE, Rafael foi editor de Esportes do jornal impresso do A TARDE por seis anos, setorista de Bahia e Vitória, editor de Esportes do Jornal Massa! por cinco anos, apresentador do podcast "Mais um Gol" e comentarista esportivo da Band Bahia por 8 anos.
Para Rafael Tiago, a Seleção Brasileira não tem chance real de ser campeã em 2026. Mais que isso - ele considera que chegar às oitavas de final já seria um grande feito, diante das limitações técnicas do elenco.
O ponto central da crítica é a ausência de um atacante decisivo. Rafael avalia que o Brasil sofre há muito tempo com a carência de um camisa 9 capaz de transformar domínio em gols e resolver jogos travados, algo essencial em Copa do Mundo.
"Eu acredito que não tem chance. Inclusive, acho que se chegar às oitavas de final seria um grande feito, visto que a Seleção não tem nenhum grande craque, nenhum grande matador", afirma.
"O Brasil sofre com a carência de muito tempo de um grande atacante, de um grande fazedor de gols. As grandes apostas do Brasil são jogadores de ponta que não têm necessariamente a artilharia como ponto forte, como é o caso de Vinícius Júnior, Raphinha, entre outros atletas que têm sido testados nas respectivas posições", diz.
A análise se estende ao meio-campo, um dos setores mais frágeis da Seleção na opinião de Rafael. Ele critica a falta de jogadores com características bem definidas, capazes de marcar com excelência, construir com qualidade, pisar na área ou decidir com assistência.
"O meio de campo do Brasil é o meio de campo mais fraco que eu já vi na minha vida desde que eu entendo de Copa do Mundo", dispara. Na visão dele, nomes como Bruno Guimarães, Fabinho e Lucas Paquetá não formam um setor dominante no padrão exigido para uma seleção campeã mundial.
"São jogadores de passes laterais e de pouca intensidade. Então, quando o Brasil precisar do seu meio de campo, de alguém que faça diferença, o Brasil não tem literalmente ninguém que possa fazer essa diferença", critica.
Rafael reconhece que a defesa apresenta mais solidez do que outros setores, especialmente pela presença de goleiros de alto nível, como Alisson e Ederson. Ainda assim, aponta sinais de declínio e vê as laterais como problema relevante.
"Hoje você tem ainda a defesa, que eu acho que é um pouco mais sólida, bons goleiros como Ederson e Alisson, mesmo já em declínio técnico, mas são goleiros decisivos em seus respectivos clubes. E as laterais do Brasil também ainda são um ponto fraquíssimo", opina.
Para ele, até hoje, a lateral esquerda não tem um dono confiável. Na direita, uma alternativa mais ofensiva, como Wesley, poderia dar ao time alguma agressividade, mas não seria suficiente para mudar o patamar da equipe.
O diagnóstico final, então, é o mais pesado entre os especialistas ouvidos, especialmente quando compara a fase atual do Brasil com outras vividas pela Canarinha no passado.
"Desde que eu entendo de Copa, que é de 1994 para cá, é a primeira vez que eu vejo uma Seleção Brasileira sem nenhum craque, sem unanimidade, sem nenhum grande artilheiro", crava.
"É a seleção mais comum da história das Copas da Seleção Brasileira"
Rafael Tiago - Rafael Tiago
Camisa forte, ciclo fraco
As três opiniões partem de tons diferentes, mas chegam a um ponto comum - o Brasil não entra na Copa do Mundo de 2026 no mesmo patamar de seleções mais consolidadas. Equipes como Espanha, França, Argentina e Inglaterra aparecem, na leitura dos especialistas, em estágio mais avançado de construção, com mais estabilidade, repertório e confiança recente.
A Seleção Brasileira, por outro lado, ainda tenta equilibrar tradição e reconstrução. Tem jogadores relevantes no futebol europeu, um treinador de currículo histórico e a camisa mais vitoriosa das Copas, mas carrega um ciclo marcado por instabilidade, desempenho irregular e dúvidas em setores importantes.
Pedro Sento Sé vê um Brasil que não pode ser descartado, mas que chega mal preparado. Elton Serra considera a Seleção distante do favoritismo, ainda presa à barreira das quartas de final. Rafael Tiago vai além e enxerga uma equipe sem craque, sem artilheiro e sem meio-campo dominante para sustentar uma campanha de título.
A resposta, então, depende do peso dado a cada fator. Pela camisa, pela história e pela capacidade individual de alguns atletas, o Brasil sempre terá alguma chance. Pela construção recente, pelo desempenho do ciclo e pela comparação com outras potências, o hexa parece mais uma possibilidade aberta pelo imprevisível da Copa do que uma projeção sustentada pelo futebol apresentado.
Em 2026, a Seleção Brasileira chega ao Mundial com o dever histórico de competir pelo título, especialmente sendo o único país presente em todas as edições de Copa desde a primeira em 1930, mas sem a aura de favorita. O hexa é possível, como quase tudo em uma Copa do Mundo. Mas, na análise dos especialistas, é justo dizer que não é provável.