COPA A TARDE
Irmãos sim, inimigos também: os irmãos na Copa do Mundo de 2026
Mundial de 2026 tem sete duplas de irmãos em campo, sendo quatro em seleções diferentes
Às vésperas da Copa do Mundo, em um amistoso entre França e Costa do Marfim, um jogador marcou um gol e chutou a bandeira francesa - mas o gesto significou muito mais do que simplesmente a rivalidade em campo.
Na última quinta-feira, 4, Guéla Doué, jogador do Strasbourg, da França, entrava em campo para defender os marfinenses com uma motivação extremamente pessoal. Para ele, vencer os franceses não era somente vencer uma das maiores favoritas a vencer a Copa - era vencer seu irmão.
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Astro do Paris Saint-Germain, bicampeão da Champions League e estrela em finais, Désiré Doué se tornou um dos maiores nomes da França atual, mas precisou ver enquanto seu próprio irmão marcava gol, vencia e chutava a bandeira de seu país.
Os dois são filhos de pai marfinense e mãe francesa, tendo assim o direito à dupla nacionalidade. Ao entrarem no mundo do futebol, no entanto, cada irmão fez sua escolha, com o mais velho defendendo o país do pai, e o mais novo, seguindo os passos da mãe.
Na Copa do Mundo, os dois podem acabar frente a frente no campo, e não são os únicos. Ao todo, sete duplas de irmãos estão confirmadas na competição, que assiste os Doué, Williams, Luckassen/Brobbey, Souttar, Hernández, Duarte e Bacuna.
Existia, ainda, uma oitava, com os irmãos Timber, da Holanda, mas Jurriën Timber foi cortado às vésperas da Copa por lesão na virilha. De todas as duplas, quatro representam seleções diferentes, trazendo confrontos dentro de famílias que são tudo menos inexplicáveis.
Com um pano de fundo de muita imigração e diversos jogadores que jogam por metrópoles mas têm origem em colônias, a geopolítica e a história mundial fizeram com que muitas famílias e irmãos se dividissem estre países, vivendo hoje o sonho de disputar o maior torneio do mundo, mas separados.
Irmãos Williams
O caso mais famoso é, também, um dos mais antigos dentre os irmãos que jogam a Copa de 2026. Nico Williams, estrela da seleção espanhola, é irmão de Iñaki Williams, que decidiu seguir um caminho diferente.
Os dois nasceram na Espanha, dividem até mesmo o clube, jogando juntos no Athletic Bilbao, mas vão disputar a Copa do Mundo por seleções diferentes pela segunda vez consecutiva. Nico defenderá a Espanha, enquanto Iñaki vestirá a camisa de Gana, país de origem de seus pais.
A história da família Williams é, sem dúvidas, uma das mais marcantes entre as duplas do Mundial. Os pais dos jogadores deixaram Gana em busca de uma vida melhor antes mesmo do nascimento dos filhos, percorrendo cerca de 4 mil quilômetros até Melilla, enclave espanhol no norte da África.
Parte do trajeto foi feita em uma caçamba e outra parte a pé, sob o calor do deserto do Saara. A mãe, Maria, estava grávida durante a viagem, e o casal foi detido em Melilla, recebeu asilo político e acabou encaminhado para Bilbao, onde Iñaki nasceu. Oito anos depois, nasceu Nico.
Dentro de campo, os irmãos seguiram juntos no Athletic Bilbao, da base ao profissional, mas tomaram decisões diferentes nas seleções. Iñaki chegou a frequentar seleções de base da Espanha e disputou um amistoso pela equipe principal, mas depois aceitou o convite de Gana. Nico, por sua vez, seguiu o caminho da seleção espanhola desde cedo e se tornou uma das estrelas da atual geração do país.
Nico, de 23 anos, atua pelos lados do ataque e chega ao Mundial como um dos nomes mais importantes da Espanha. Iñaki, de 31, joga como ponta-direita e segundo atacante, sendo uma das referências ofensivas de Gana.
Na Copa de 2022, primeira em que os irmãos coexistiram, Espanha e Gana não se cruzaram. Os ganeses caíram na fase de grupos, enquanto os espanhóis foram eliminados por Marrocos nas oitavas de final.
Em 2026, no entanto, um encontro entre os irmãos é mais provável, mas não é certo - ele só poderá acontecer no mata-mata, já que a Espanha está no Grupo H, ao lado de Cabo Verde, Arábia Saudita e Uruguai, enquanto Gana está no Grupo L, com Panamá, Inglaterra e Croácia, estando as duas seleções no mesmo lado da chave e, assim, podendo se enfrentar muito em breve.
Irmãos Souttar
Até no grupo do Brasil tem jogador que vê a Copa como um caso de família. Os irmãos John Souttar e Harry Souttar nasceram em Aberdeen, na Escócia, e atuam como zagueiros, mas fizeram escolhas distintas usando a dupla nacionalidade, deixando de ser parceiros de zaga para, possivelmente, se enfrentarem.
Na Copa, John defenderá a Escócia, enquanto Harry jogará pela Austrália, país que pode representar por causa da mãe. Ainda que tenha crescido nas categorias de base escocesas, Harry já defende os australianos há sete anos, atualmente jogando pelo Leicester City.
John, no entanto, seguiu ligado à seleção escocesa, atualmente jogando pelo Rangers, clube escocês de Glasgow.
Luckassen e Brobbey
Os Williams, os Doué e os Souttar podem ter países diferentes, mas têm os mesmos pais e, claro, os mesmos sobrenomes - mas há quem não divida nenhum desses. Derrick Luckassen e Brian Brobbey também estarão no Mundial por seleções diferentes, dividindo apenas uma mãe.
Os dois têm dupla nacionalidade, holandesa e ganesa, e são meio-irmãos, tendo pais diferentes. Nascidos em Amsterdã, eles seguiram caminhos distintos no futebol internacional, indo cada um para um canto até mesmo nos clubes.
Derrick Luckassen passou pelas categorias de base da Holanda, mas decidiu defender Gana e foi convocado pela primeira vez em março deste ano. Atualmente, atua como zagueiro no Pafos FC, do Chipre, e fez 48 jogos na temporada, com seis gols marcados.
Brian Brobbey, por sua vez, se consolidou como centroavante da seleção holandesa. Aos 24 anos, joga no Sunderland, da Inglaterra, e na temporada, disputou 36 partidas, marcou oito gols e deu uma assistência.
Países diferentes, pais diferentes e, além de tudo, sobrenomes diferentes. Enquanto Derrick escolheu usar o Luckassen da mãe, Brian preferiu o Brobbey do pai, que nem mesmo está no nome de Derrick.
Irmãos Hernández
Nem todos os irmãos, no entanto, escolheram se separar. Entre os irmãos que estarão do mesmo lado, Theo e Lucas Hernández formam uma das duplas mais conhecidas. Os dois foram convocados pela França e disputarão juntos a Copa do Mundo, podendo atuar inclusive na mesma posição.
Franceses, mas também aptos a representar a Espanha, os dois escolheram a seleção francesa, mas jogam em clubes de países distintos. Lucas Hernández é zagueiro ou lateral-esquerdo do PSG, enquanto Theo Hernández é lateral-esquerdo do Al-Hilal, da Arábia Saudita.
Irmãos Duarte
Os Hernández, ainda que famosos, integram juntos uma seleção mais que tradicional e conhecida no futebol mundial. Os Duarte, por outro lado, já marcaram seus nomes na história do país que defendem.
Deroy Duarte e Laros Duarte nasceram na Holanda, mas escolheram representar Cabo Verde, tendo conquistado a primeira classificação da história do país para uma Copa do Mundo.
Deroy Duarte atua como meio-campista central e joga no Ludogorets Razgrad, da Bulgária, enquanto Laros Duarte é volante do Puskás Akadémia, da Hungria.
Os irmãos fazem parte de uma geração memorável que levou Cabo Verde ao maior palco do futebol, em uma edição ampliada e marcada pela presença de seleções com trajetórias inéditas ou pouco frequentes no torneio.
Irmãos Bacuna
Em Curaçao existe uma história quase igual - assim como os Duarte, os Bacuna também estão fazendo história em 2026. Leandro Bacuna e Juninho Bacuna também nasceram na Holanda, mas escolheram representar Curaçao.
Hoje, os dois são alguns dos nomes mais conhecidos do país caribenho, que vive a mesma história de Cabo Verde, conseguindo a primeira classificação para a Copa na história do país.
Ambos atuam como meio-campistas e têm passagens por ligas europeias, com Juninho Bacuna jogando no FC Volendam, clube rebaixado para a segunda divisão da Holanda, e Leandro Bacuna defendendo o Igdir FK, da segunda divisão da Turquia.
Os Bacuna são mais um exemplo do peso da diáspora no elenco de Curaçao, que chega à Copa com jogadores formados em diferentes centros do futebol europeu e quase nenhum jogando no país.
Irmãos Timber
Após perder os Duarte e os Bacuna, a Holanda quase teve sua dupla de irmãos no torneio, e de um jeito especial - gêmeos. Jurriën Timber e Quinten Timber chegaram a figurar como possibilidade para a Copa, mas Jurriën, defensor do Arsenal, foi cortado às vésperas da competição por não se recuperar de uma lesão na virilha.
Com o corte, o técnico Ronald Koeman convocou Lutsharel Geertruida para a vaga. Quinten Timber, meio-campista, segue no elenco da Holanda, mas a chance de os irmãos disputarem juntos o Mundial ficou para a próxima Copa do Mundo.
Irmãos Boateng
A presença de irmãos na Copa do Mundo, apesar de crescente, é antiga. Historicamente, o caso mais lembrado é o de Jérôme Boateng e Kevin-Prince Boateng, que estiveram entre os irmãos mais famosos a se enfrentarem em Copas.
Jérôme defendeu a Alemanha, enquanto Kevin-Prince vestiu a camisa de Gana. Os dois se enfrentaram na Copa de 2010, na África do Sul, quando a Alemanha venceu por 1 a 0 em Joanesburgo. Quatro anos depois, voltaram a ficar frente a frente no Brasil, em Fortaleza, em empate por 2 a 2 na fase de grupos.
Mais do que curiosidades, esses casos ajudam a contar uma das marcas do futebol contemporâneo que está cada vez mais latente em uma Copa com 48 nações, mais do que em qualquer Copa da história - seleções cada vez mais atravessadas por migrações, identidades múltiplas e histórias familiares que não cabem em uma única bandeira.