HISTÓRIA
Autor e cartunista lança livro sobre a saga de Garcia D’Ávila
Obra transforma pesquisa histórica em cordel ilustrado e revisita o legado do Castelo da Torre

O cartunista e historiador ambiental Paulo Serra lança no próximo sábado, 31, às 15h30, na Praia do Forte, o livro A Vida e a Saga de Garcia D’Ávila, resultado de mais de duas décadas de pesquisa em história ambiental.
A obra propõe uma leitura acessível sobre um dos personagens centrais da formação da Bahia, combinando rigor histórico, linguagem em cordel e ilustrações autorais.
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Da pesquisa acadêmica ao livro
Paulo Serra conta que sua relação com a história não é recente. “Eu já trabalho com história há uns 20 anos, especificamente com história ambiental. Já existem alguns personagens com os quais eu tinha trabalhado antes, como João das Botas, o Conselheiro, Tomé de Sousa, entre outros”, explicou.
O interesse específico por Garcia D’Ávila surgiu a partir de leituras que chegaram de forma quase casual. “No caso de Garcia D’Ávila, um amigo meu me presenteou com dois livros do engenheiro Luciano Reis, que era apaixonado por história, já falecido, e morava em Monte Gordo. Recebi também outro livro sobre a história da Mata de São João.”
A identificação com o material foi imediata. “Eu me encantei com esses livros, que têm uma linguagem muito fácil e interessante. A partir daí, resolvi fazer uma palestra sobre esses livros, e foi assim que começou: da palestra, depois, virou o livro.”
Cordel, ilustração e acesso ao público
A escolha por uma linguagem acessível não foi um obstáculo para o autor. “Na realidade, não foi um grande desafio, porque eu já tenho o costume de transformar textos em cordel”, afirmou.
Segundo Paulo Serra, a experiência prévia foi determinante para o formato final da obra. “Eu já tinha feito outros trabalhos anteriores, outros livros em que utilizei a linguagem do cordel e a ilustração, porque eu sou cartunista e ilustrador. Então, para mim, foi fácil, já que a linguagem do livro era bem clara.”
Quem foi Garcia D’Ávila
No livro, Paulo Serra reconstrói a trajetória de Garcia D’Ávila desde sua origem. “O Garcia D’Ávila, como ele era filho bastardo de Tomé de Sousa, que teve ele com uma aia, com a empregada doméstica da casa dele, chegou ao cartório, deu o nome a ele e registrou.”
A relação com o pai mudou quando Tomé de Sousa foi nomeado governador-geral. “Depois, quando soube que seria nomeado governador-geral do Brasil, ele tirou o nome e conversou com ele, dizendo: ‘Olha, se você for com o meu nome, você não vai ganhar nada. Se for sem o meu nome, eu vou poder te doar, vou poder te ajudar bastante’.”
A partir disso, Garcia D’Ávila construiu sua própria trajetória. “Então ele fez isso: tirou o nome, ninguém sabia de quem ele era filho e empregou logo ele. Ele foi trabalhar como almoxarife, fiscal de obra da Fortaleza de Salvador. Não podia receber dinheiro, então recebeu em duas vaquinhas.”
Com o tempo, acumulou poder e terras. “A partir daí foi crescendo, ganhou mais sesmarias em Itapuã, formou ali a milícia dele. Tomé de Sousa foi embora em 1553 e deixou tudo para ele. Ele foi ficando rico, com muito gado e muita terra.”
Violência, poder e expansão territorial
O livro não suaviza os episódios de violência ligados à expansão colonial. “Com esse exército de índios que ele formou como milícia, ele começou a fazer o que o rei pediu”, relatou Paulo Serra.
Segundo ele, houve uma ordem direta da Coroa. “Dom João III pediu que ele se vingasse dos índios que mataram o primeiro donatário, Francisco Pereira Coutinho, que foi morto e devorado pelos indígenas. Isso ficou conhecido como a política do grande terror.”
A partir daí, Garcia D’Ávila consolidou seu domínio. “Ele era muito amigo do rei, muito ligado ao rei, então começou a matar índios, tomar terras. Houve guerra com os indígenas em Itapuã, e ele foi para Tatuapara, que hoje é a Praia do Forte.” Foi ali que nasceu um dos símbolos históricos da Bahia. “Lá, em 1551, ele começou a construir o castelo dele.”
O Castelo da Torre e seus descendentes
A expansão não parou. “Ele continuou matando índios, destruindo aldeias e crescendo com as terras, avançando com muito gado. Em pouco tempo, ele já era o maior pecuarista do Brasil”, afirmou o autor.
A herança foi organizada para a geração seguinte. “Depois, acabou tendo um neto, Francisco Dias D’Ávila Caramuru. Para esse neto, ele preparou tudo, e esse neto foi o melhor administrador dos bens dele.”
Paulo Serra destaca a dimensão histórica do personagem. “Ele avançou bastante. Foi considerado o primeiro bandeirante do Nordeste, descobriu minas, trabalhou com a agricultura, trouxe a cana, trouxe o engenho, plantou coco por todo esse litoral.”
Tudo isso resultou numa estrutura de poder inédita. “Criou uma estrutura fortíssima, que foi o Castelo da Torre, que tinha um poderio enorme.”
Por que contar essa história hoje
Para o autor, o livro dialoga diretamente com a falta de conhecimento histórico local. “A importância maior, eu acho, é que a gente mora na cidade de Salvador e não conhece a história da cidade”, afirmou.
Ele cita um dos equívocos mais comuns. “Você vai à Praia do Forte e, se perguntar a qualquer pessoa que forte é esse, vão dizer que é o Forte Garcia D’Ávila. Na realidade, o forte fica em cima de um morro e não é um forte, é um castelo — um castelo medieval, quinhentista, importantíssimo, um dos três das Américas.”
Paulo Serra também esclarece outra confusão histórica. “Na realidade, o forte verdadeiro foi construído na praia, ali onde hoje é o Projeto Tamar, e foi a pedido de Tomé de Sousa.”
O livro também busca preencher lacunas no ensino. “Se você mora numa cidade, é importante conhecer a história dela. Então o livro fala de topônimos, explica o que é Tatuapara, fala dos rios, dos principais rios, como o Rio Pojuca.”
Segundo o autor, o problema é estrutural. “O nosso problema é que ninguém estudou a história da Bahia na escola. A gente estudou por livros feitos no eixo Rio-São Paulo, não na Bahia.”
Por isso, a obra ganhou um apelido simbólico. “Meu livro está sendo apelidado de Manual da Praia do Forte, porque com ele você vai entender quase toda a história de forma leve, rápida e fácil, ilustrada, aprendendo história.”
O lançamento de A Vida e a Saga de Garcia D’Ávila acontece no dia 31 de janeiro, às 15h30, no Espaço Baleia Jubarte, na Praia do Forte, com entrada gratuita, palestra e programação cultural.
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