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Ayrson Heráclito leva ancestralidade baiana à Bienal de Veneza
Artista baiano apresenta a exposição Juntó na mostra principal da Bienal de Veneza 2026


A Bienal de Veneza costuma ser ratificada como a principal vitrine mundial da arte contemporânea. E quem está participando desta 61ª edição, intitulada In Minor Keys, que segue até 22 de novembro na icônica cidade italiana, é o artista visual baiano Ayrson Heráclito, 57.
Com Juntó, exposição composta por 20 esculturas em aço inox e 238 desenhos em nanquim, Ayrson está expondo no Arsenale – espaço reservado aos artistas centrais da Bienal –, um trabalho que representa um mergulho profundo na cosmopercepção afro-brasileira.
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Nascido em Macaúbas, Ayrson também é professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e conta que Juntó nasce da experiência afro-atlântica que construiu o panteão de deuses afro-brasileiros, que também é parte da cultura ‘yorùbáiana’ e que carrega a Bahia em sua essência.
Através de instalações, performances, esculturas, desenhos, fotografias e vídeos, o trabalho do artista baiano costuma ter como foco as matrizes culturais afro-brasileiras e suas conexões com a África e a diáspora africana nas Américas.
Em 40 anos de carreira, o Ogã – na tradição Jeje Mahi do candomblé – diz que estar na Bienal de Veneza é como participar do Oscar das artes visuais, e que o público verá um trabalho iniciático, preciso e sensível, que une arte e espiritualidade em concepções estéticas afrocentradas.
Via WhatsApp, Ayrson Heráclito conversou com o Caderno 2+ sobre sua participação na Bienal de Veneza deste ano, ancestralidade, espiritualidade, relevância de seu trabalho, arte contemporânea negra e indígena, dentre outros temas. Confira.
Como foi o convite para a Bienal desta vez, já que é a sua terceira participação?
Sim, é a minha terceira participação. A primeira foi em 2017 e a segunda, em 2023 na Bienal de Arquitetura, no pavilhão do Brasil. Nesta edição de 2026, fui convidado pela curadora geral, a camaronesa Koyo Kouoh, que já conhecia meu trabalho e foi responsável pela curadoria da minha primeira exposição individual na África, em Dakar, no Senegal (2015). Sempre tivemos muitas afinidades estéticas e políticas sobre a arte negra.
O que propõe Juntó? Destrincha este trabalho para o leitor de A TARDE.
O Juntó é um projeto que desenvolvo desde 2019 com esculturas e desenhos que investigam a sistematização do sagrado. Ele cria um inventário visual inspirado em entendimentos oraculares afro-brasileiros. O projeto nasce diretamente da cosmologia afro-brasileira e yorùbá.
No contexto cultural dos terreiros, cada pessoa possui duas divindades preponderantes: uma que rege a cabeça e outra que atua como adjunto – daí a corruptela ‘adijunto’, que se transforma em Juntó. A partir dessa concepção, desenvolvi um inventário visual com 222 combinações possíveis de juntós, baseadas nos 16 principais orixás cultuados no Brasil.
Cada desenho carrega um poema de força específico, um Oriki, que funciona como enunciação sagrada e energia vital. Esses desenhos não são apenas registros gráficos, mas amuletos que devem ser evocados. Eles servem também como modelos para a criação das esculturas em aço inox que compõem a instalação.
O Juntó é, portanto, mais que representação, é apresentação de uma lógica espiritual e estética afrocentrada. Ele cria pontes entre passado, presente e futuro, traduzindo memórias coletivas, espiritualidade e identidade em materialidades. Cada peça é um dispositivo de memória e energia, ativando narrativas que atravessam gerações e reafirmam a força da ancestralidade afro-brasileira no campo da arte contemporânea.
Juntó leva a Bahia com ele?
Sim. O Juntó nasce da experiência afro-atlântica, que construiu nosso panteão de deuses afro-brasileiros. É parte da cultura “Yorùbáiana” e carrega a Bahia em sua essência.
Que percepção os povos de outros continentes têm do seu trabalho?
Hoje, a arte negra e indígena é reconhecida internacionalmente como parte central da arte contemporânea. No exterior, ela é vista como legítima, inovadora e profundamente conectada a debates sobre identidade, ancestralidade e meio ambiente.
É preciso ser de alguma religião de matriz africana para captar melhor a força da sua arte?
Claro que não. Não é necessário pertencer a uma religião de matriz africana para captar a força da arte produzida por artistas negros ou indígenas.
O que acontece é que muitas dessas obras carregam entendimentos, referências e energias que nascem de tradições filosóficas e espirituais afro-brasileiras e indígenas – como o candomblé, a umbanda ou os rituais de pajelança – e isso pode enriquecer a experiência de quem já tem familiaridade com esses universos.
Qual a importância de participar da Bienal de Veneza, sobretudo para um artista brasileiro?
É como participar do Oscar das artes visuais. A Bienal de Veneza é a principal vitrine mundial da arte contemporânea, dá visibilidade internacional e insere o artista nos grandes debates globais.
O que o público que visita a Bienal terá a oportunidade de ver do seu trabalho?
Um trabalho iniciático, preciso, e sensível que une arte e espiritualidade em concepções estéticas afrocentradas.
Esta é a primeira vez que um artista brasileiro faz parte da mostra principal da Bienal de Veneza?
Não. Eu mesmo já participei em 2017. A arte brasileira vem ganhando espaço, com nomes como Marepe, Juraci Dória, Rosana Paulino, Dalton de Paula, Eustáquio Neves e Sonia Gomes.
Como representar a ancestralidade em um trabalho de linguagem visual?
A ancestralidade se manifesta na incorporação de signos, memórias e energias que atravessam gerações. É traduzida em formas visuais que evocam presença, continuidade e resistência.
De que forma, imagem, espiritualidade, proteção e transformação podem se tornar indissociáveis no seu trabalho?
Esses elementos se fundem porque a arte é veículo de energia. A imagem não é apenas estética, mas também espiritual, protetora e transformadora. Penso arte como amuleto e oferenda, criando um campo de força que atua sobre quem a contempla.
O que quer a sua arte?
Minha arte quer iniciar entendimentos, cosmopercepções, quer reconectar com ancestralidades e abrir caminhos de transformação social e espiritual.
Quando volta a expor na Bahia e quais os próximos projetos?
Após a Bienal, retorno com projetos expositivos em Salvador, como uma individual na galeria que me representa, a Paulo Darzé, e em outras cidades do Brasil, como uma grande instalação imersiva no MIS de Fortaleza, em setembro.
Tem ainda uma grande performance com Joceval Santos na HKW, em Berlim, e uma individual na galeria que me representa na capital paulista, a Simões e Assis, em agosto. Sempre buscando ampliar o diálogo entre arte, espiritualidade e sociedade.


