EXPOSIÇÃO
Marcelo Reis mostra a luminosidade e a mística da Roma Negra


A luz é mais explorada, o colorido é usado, mas o registro da figura humana se assemelha com o trabalho do seu antecessor, Pierre Verger. Com um olhar quase antropológico, Marcelo Reis, que fotografa desde 1990, realiza a exposição Roma Negra, uma Cidade da Bahia, do lado de fora do Espaço Pierre Verger, a partir do dia 28.
“Tem a questão de que, sem querer ser pretensioso, eu tento retratar a figura humana como se eu não estivesse ali, consigo me abstrair de uma cena. É o elemento essencial para que a pessoa saia de uma forma espontânea e se doe como se estivesse em um ritual”, declara Reis, ao falar da influência de Verger.
“Ele, com seus modelos, tem a mesma questão humanística que Walter Firmo”. Os dois fotógrafos, ao lado de Isabel Gouveia, formam o tripé de inspiração de Reis. “Deles três, eu sempre tentei abstrair a essência, a forma de respeito. Por exemplo, o candomblé, eu vejo que as pessoas tratam a questão pelo quesito estético, mas a foto tende a não perpetuar quando tem interesse. Eu acho que tudo é questão de energia.”
Roma Negra sem clichê
Reis conta que o nome da exposição Roma Negra faz referência à expressão criada na década de 30, para se referir a Salvador. Mas, com medo de cair na repetição, ele logo sinaliza: “Não é religioso clássico, porque não vai ser o aspecto de festas, mas tem a luz”.
Com 23 fotos, Reis diz que se trata de uma mostra modesta. Mas tem muitos pontos fortes. “A exposição fica do lado de fora do espaço para chamar atenção, e a pessoa é instigada a entrar”. A montagem estará no espaço localizado no Forte de Santa Maria, na Barra, todos os dias, até 28 fevereiro.
Depois, ficará no acervo virtual do Espaço Pierre Verger, que pode ser percebido por meio dos óculos virtuais, da televisão e do áudio. “Eu fico encantado com essa tecnologia, dando vida a imagens, e a tridimensionalidade se dá por conta da luz. Senão desvirtua a ideia do artista, acho interessante”, declara Reis.
Ensinar para perpetuar
Em 1996, Marcelo Reis foi convidado para lecionar. No ano seguinte, criou o Instituto Casa da Photografia. “É muito rico quando a gente pode dar devolução. Posso ser mais do que isso [fotógrafo], posso ensinar. Eu absorvi pra quê? Quanto mais ensinar mais pessoas apaixonadas pela fotografia!” Mas conta que não se trata apenas do ensino da técnica. “As pessoas precisam ter um porquê.”
Não contente em somente fotografar, lecionar, Reis também faz projetos com o Instituto. Um dos mais recorrentes é o A Gosto da Fotografia, festival internacional, nacional e local. “A gente está passando por uma crise econômica [Brasil], então, na captação, não tivemos sucesso. Perdemos um edital.”
Fotografia baiana
Em abril deste ano, o Espaço Pierre Verger foi criado em parceria da Fundação Pierre Verger com a Prefeitura Municipal de Salvador. O objetivo é reunir obras dos fotógrafos baianos e o que está sendo feito.
Depois de Reis será a vez de Lázaro Roberto com a exposição Qual é o Pente que te Penteia?; Carol Garcia com Graffiti Salvador: Olhares Cruzados no Rastro da tinta; Sinsia Coni com Um Certo Romantismo Baiano; e Rogério Ferrari com Nosoutros. Todos terão suas obras expostas no espaço denominado de Fragmentos, criado recentemente para esse fim.
E o fato de Reis abrir essa exposição não é em vão. Logo quando o Espaço Verger foi inaugurado, ele foi convidado para ser um dos curadores. Mas as ondas do mar da Bahia não deixaram.
Tinha ficado apenas seu nome na parede, mas sua marca, identidade, está mesmo nas fotografias humanizadas.