LITERATURA
Obra de Patricio Pron resgata passado de ditadura na Argentina nos anos 70


A obra 'O Espírito dos Meus Pais Continua a Subir na Chuva', do escritor argentino Patricio Pron, que mescla autoficcão e gênero policial, é mais uma que mergulha nas memórias dos anos de chumbo da Argentina, através de recordações familiares. A publicação destaca o período militar nos anos de 1976 e 1983, que resultou em prisões e assassinatos de opositores do regime, mas não é um livro- reportagem ou sobre os desaparecidos políticos.
"Acho que os filhos, em algum momento, sentem necessidade de saber quem foram seus pais e saem em busca de respostas. Os filhos são os detetives que os pais lançam no mundo para que um dia retornem e contem a eles sua história e, assim, eles mesmos possam compreendê-la"
"Os filhos não são os juízes dos pais, já que não podem julgar de maneira realmente imparcial alguém a quem devem tudo, inclusive a vida, mas podem tentar colocar ordem em sua história, restituir o sentido que foi apagado pelos acontecimentos mais ou menos pueris da vida e sua acumulação, e depois proteger essa história e perpetuá-la na memória", afirma o autor, filho de ex-militantes de esquerda que hoje vive em Madri, no livro.
Lançado no mercado, com selo da Editora Todavia, o exemplar traz na trama a história de um jornalista viciado em ansiolíticos e calmantes e que vive na Alemanha. Ele retorna à Argentina para rever o pai, o também jornalista e militante político, que está muito se doente e hospitalizado. Faz um acerto de contas com seu passado e do país que nasceu.
Quebra-cabeça
A partir daí, a narrativa fragmentada e escrita na primeira pessoa, convida o leitor a montar um quebra cabeça misterioso que envolve um brutal assassinato de um homem pacato, sem inimigos, Alberto Burdisso, o que de certa forma faz conexão com os abusos cometidos nos anos de exceção, onde a tortura imperava assim como os desaparecidos. O medo também dominava mesmo naqueles militantes que não abraçaram a causa da luta armada.
No enredo, ao chegar à Argentina em 2008, o homem descobre que seu pai investigava obcecadamente a morte de Burdisso, desaparecido em uma pequena comunidade no Pampa argentino (o pai guardava muitos documentos, notas , recortes de jornais e reportagens feitas por ele mesmo). Para intensificar o mistério, este mesmo homem teve uma irmã desaparecida: Alissia Raquel Burdisso, raptada e assassinada pelas forças oficiais em 1977. Por que seu pai estaria tão interessado neste caso?
Começa então uma pesquisa profunda. O jornalista se empenha em descobrir por que o homem desapareceu e as razões que levaram seu pai a também a se dedicar tão obstinadamente nessa busca. O leitor também tem que fazer suas pesquisa em meio a lacunas e pistas deixadas pelo autor, tal como o pai faz com o filho, que tem que montar as peças deste jogo, ainda que algumas pareçam sem nexo na narrativa.
Cartilha de segurança
É um livro de 160 páginas que traz capítulos curtos e com uma numeração também incomum ( O leitor compreenderá depois). O autor traz fatos verdadeiros à trama, como a que se refere, por exemplo o assassinato dos irmãos Burdisso e também enfoca a infância dos filhos militantes políticos que também seguiam determinadas cartilhas de segurança
"Quando eu era menino, tinha ordens de não trazer outras crianças para casa; quando andava sozinho pela rua, tinha que caminhar em sentido contrário ao trânsito e prestar atenção se algum carro parasse perto de mim. Eu usava uma plaquinha no pescoço com meu nome, minha idade, meu tipo sanguíneo e um telefone de contato: se alguém tentasse me puxar para dentro de um carro, eu tinha que jogar essa plaquinha no chão e gritar meu nome muitas vezes e o mais alto que pudesse". Eu não podia contar a ninguém nada do que escutasse em casa.(...)", conta na obra. Alguém se identifica?
As regras visavam proteger a família dos ativistas .Por outro lado o autor afirma que na década de 70, um filho de um militante político representava até um álibi para diversas famílias durantes as patrulhas policiais . Mas não era nada fácil para as crianças, ainda que não compreendessem a gravidade da situação política, viver sem a plena liberdade que a infância proporciona.
Memórias apagadas
A questão da memória e o apagamento desta percorre toda a trama. "Eu pensava que a péssima memória do meu pai era apenas uma desculpa para se livrar dos raros inconvenientes ocasionados por uma vida cotidiana que havia muito tempo ele tinha deixado nas mãos da minha mãe: aniversários, datas festivas, compras domésticas. Se meu pai tivesse uma agenda, eu pensava, cada folha se soltaria no dia seguinte, um objeto incandescente, o tempo todo em chamas, como o diário de um piromaníaco"
Mas o jornalista filho também não se lembra de muita coisa. É uma espécie de apagamento, comum nas pessoas que têm traumas. À proporção que a história avança, a memória individual começa a ser recuperada e a memória coletiva ganha alinhavos.
O livro tem uma escrita interessante, original para o tipo de relato autobiografico– em um trecho, por exemplo, o autor passa o integralmente ao leitor uma receita de bolo de carne moída que a mãe preparava– mas também traz algumas partes cansativas que exigirá um enfrentamento da leitura, pois são muitas notas e descrições como, por exemplo, a dos livros e autores que o pai lia, a meu ver, excessivas.
Pron tambem republica trechos da imprensa da época, promovendo uma crítica ao estilo e erros das matérias, que soa um tanto arrogante. Mas vale ler a obra- documento que sinaliza para a preservação da memória em tempos tão sinistros, obscuros e, lembrando a pandemia e a polįtica brasileira, de tanta insegurança em relação ao futuro.