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Os Naturalistas do Império trata do conhecimento científico

Chico Castro Jr.
Por Chico Castro Jr.
| Atualizada em
Os autores Magnus Roberto e Ana Lúcia Rocha Barbalho
Os autores Magnus Roberto e Ana Lúcia Rocha Barbalho - Foto: Adilton Venegeroles l Ag. A TARDE

Muito já se falou sobre o tal “complexo de vira-lata” que acomete os brasileiros ao se comparar com povos mais desenvolvidos. Acontece que há razões históricas para isso. Uma delas, insuspeita para quem não é acadêmico, surge detalhada no livro Os Naturalistas do Império - O Conhecimento Científico de Portugal e Suas Colônias (1768-1822).

Organizado pelo casal de historiadores/pesquisadores Ana Lúcia Rocha Barbalho da Cruz e Magnus Roberto de Mello Pereira, o livro é um trabalho de fôlego, resultado de dez anos de pesquisas em arquivos de Portugal, Brasil, África e Índia. A publicação da edição de luxo, em formato grande e com muitas ilustrações históricas, é decorrente da premiação no Prêmio Odebrecht de Pesquisa Histórica Clarival do Prado Valladares.

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“A dedicação ao tema foi intensa. Ela só foi possível graças aos apoios recebidos da Fundación Carolina, CNPq, Capes, Fundação Araucária e, por último, Fundação Odebrecht”, enumera Magnus.

Imagem ilustrativa da imagem Os Naturalistas do Império trata do conhecimento científico

Aquarela de autor desconhecido retrata cena em Moçambique com indianos, portugueses e nativos

O(s) tema(s) a que Magnus e Ana Lúcia vêm se dedicando, em linhas gerais, tratam do Império Português e da ciência produzida nele e em suas colônias. Acontece que, como se sabe, a história é escrita pelos “vencedores” – Inglaterra e Estados Unidos. E com a história da ciência não é diferente.

“A sensação que temos (os brasileiros em geral) é que o conhecimento científico não nos pertence. Todo ele foi e continua sendo produzido nos países avançados da Europa e nos EUA. A nossa história do conhecimento científico e tecnológico não iria além de uma meia dúzia de casos notáveis: Santos Dumont, Oswaldo Cruz, etc”, pontua Magnus.

Segundo Magnus, Ana Lúcia e a equipe de sete pesquisadores do livro, esta é uma sensação artificial, decorrente da pouca habilidade historiográfica dos – físicos, químicos, botânicos etc – que se propuseram a documentar a história de suas disciplinas no Brasil.

“Quase sempre, eles não sabiam fazer pesquisa histórica, nem ler manuscritos, nem interpretá-los. As histórias que produziam eram simples resumos de literatura produzida na Europa e nos EUA. Como essas histórias eram calcadas nas respectivas histórias nacionais (francesa, inglesa, etc) elas deixavam de fora a Península Ibérica”, afirma Magnus.

Ele cita como “caso extremo” o ornitólogo (estudioso das aves) Olivério Mário Oliveira Pinto, que, em 1963, dispensou por completo o conhecimento produzido pelos cientistas luso-brasileiros no período do Império.

“Sem querer demonizá-lo, pois muitos pensavam ou ainda pensam igual. O que nos move é principalmente o intuito de quebrar esse paradigma e disseminar a noção de que o saber científico também nos pertence”, afirma.

Com seu trabalho, Magnus e Ana Lúcia vem recuperando – inclusive coordenando a coleção de livros Ciência &Império (Editora da UFPR) – o trabalho de homens como João da Silva Feijó. “Um cientista luso-brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, sobre quem não se sabia praticamente nada, mas tem mais de mil páginas contendo estudos sobre os mais variados temas, como a flora do Ceará, o levantamento da natureza de Cabo Verde, manuais de zoologia e botânica, etc”, diz.

“Atualmente, está em preparação um volume dedicado a Luís Antônio de Oliveira Mendes, um advogado baiano que estudou diversos temas referente à agricultura e também escreveu sobre a saúde dos escravos”, avisa Magnus.

Cientistas “traidores”

Uma outra explicação para o “sumiço” do registro da produção desses cientistas pioneiros da história brasileira é sua ligação com a coroa portuguesa, já que eles tinham toda sua formação bancada por Lisboa, na Universidade de Coimbra – o que desagradou aos que apoiavam a causa da independência. “O raciocínio é anacrônico, pois considera ter havido uma traição a um país (Brasil) que ainda nem existia. Esses brasileiros trabalhavam para melhorar a sua ‘pátria’ maior, que era o Império Português”, conclui Magnus.

Serviço

Os naturalistas do Império / Ana Lúcia Rocha Barbalho da Cruz e Magnus Roberto de Mello Pereira / Versal - Odebrecht / 460 p.

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