TEATRO
Espetáculo Luzes da Boemia estreia no Teatro Vila Velha


Pela primeira vez encenado em Salvador, o texto Luzes da Boemia, do renomado e controverso poeta, romancista e dramaturgo galego Ramón del Valle-Inclán (1866-1936), contrapõe o valor do artista e sua atividade poética com a decadência política e moral de uma nação.
A montagem, que inaugura o projeto Teatro Épico na Bahia, estreia hoje no Teatro Vila Velha (TVV) , às 20 horas. A direção é do equatoriano Santiago Roldós, que desenvolveu os ensaios da peça durante residência artística com a Universidade Livre do TVV.
Trama
A história narra as últimas horas de vida do poeta Max Estrella, que gozou de um certo reconhecimento e agora, já ancião pobre e cego, faz uma peregrinação pelas ruas de uma Madri obscura e marginalizada, sempre acompanhado pelo personagem Dom Latino de Hispális, o que faz lembrar o clássico Dom Quixote.
Durante sua peregrinação, o poeta irá encontrar os diversos personagens como jovens artistas, prostitutas, jovens de baixa classe social, jornalista, vendedor de livro, entre outros. Para dar vida aos personagens multifacetados, 12 atores se revezam no palco.
“Há muitos anos me apaixonei por este texto que foi escrito em 1920 e continua atual pois traz questões como o valor da cultura e da poesia, em um país em decadência”, afirma Roldós.
Visão distorcida
O encenador equatoriano entrega que o espetáculo apresenta distorção da realidade (o próprio Valle- Inclan teria afirmado que o sentido trágico da vida espanhola só pode mostrar-se com uma estética sistemáticamente deformada, o, que Valle-Inclan denomina de esperpento).
Roldós acrescenta que a montagem não apresenta linguagem realista. Por outro lado, os personagens lembram bonecos e há fusão de formas humanas e animais.
O encenador informa também que existe paralelismo entre o personagem Max Estrella e sua história com a do escritor boemio Alejandro Sawa, amigo do autor, que também neste texto se utiliza da caricatura e do grotesco.
Contracultura
A boemia, neste contexto, segundo Santiago Roldós, deve ser vista como contracultura, como uma forma de resistência dos poetas contra uma sociedade que não reconhece o valor da arte.
A cenografia do espetáculo traz poucos elementos: apenas uma mesa, algumas cadeiras e bancos. Gravuras do pintor espanhol Francisco de Goya que utilizava o grotesco para satirizar a sociedade espanhola serviram não apenas de inspiração para a encenação, mas para ilustrar a identidade visual do espetáculo.
Em Salvador já foi montado o texto Divinas Palavras, de Valle-Inclan, com estrondoso sucesso e direção de Nehle Frank na década de 1990.