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Impecável, O Canto da Sereia soa natural e prende público

Murilo Melo
Por Murilo Melo
| Atualizada em
Minissérie é potencializada pelo cuidado com o roteiro, figurino, sonoplastia e cenários
Minissérie é potencializada pelo cuidado com o roteiro, figurino, sonoplastia e cenários - Foto: TV Globo | Divulgação

Televisão, há muito tempo se fala, é um brinquedo caro. Funciona como qualquer comércio: tudo o que é feito ali precisa de um retorno imediato do público ou sai de cena. Nos dias de hoje, para chamar a atenção do telespectador e colocar a concorrência de escanteio, são necessários grandes investimentos, planejamento, boas sacadas e uma produção afiada. A Globo conseguiu misturar todos estes ingredientes com competência em O Canto da Sereia, microssérie que estreou nesta terça-feira, 8.

Inspirada no livro homônimo de Nelson Motta, lançado em 2002, a microssérie teve o roteiro adaptado por George Moura, Patrícia Andrade e Sérgio Goldenberg, e direção de José Luiz Villamarim e Ricardo Waddington, dupla responsável pelo sucesso Avenida Brasil.

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Na trama, Sereia, personagem de Ísis Valverde, é uma cantora baiana adorada por uma multidão de fãs - e possui características que remetem principalmente a Ivete Sangalo. Em plena terça-feira de Carnaval, ela é assassinada em cima do trio elétrico, em frente ao tradicional prédio Sulacap, no Centro.

A partir daí, o público passa a acompanhar, em quatro episódios, as investigações de Agostinho Matoso (Marcos Palmeiras), chefe de segurança que tenta descobrir quem é o culpado pela morte da cantora, que estava sob sua responsabilidade. O rapaz começa a investigar os principais suspeitos do crime por conta própria.

As primeiras cenas mostram Sereia e sua vida nos bastidores da fama: o sucesso sendo previsto pela mãe de santo Marina de Oxum (Fabíula Nascimento) e as discussões com seus produtores. A pulseirinha com a imagem de Iemanjá ganha destaque através de closes.

Ísis interpreta uma cantora angustiada. Vez ou outra sorri, ao mesmo tempo em que demonstra expressões tristes, como se escondesse um segredo do passado. Não leva muito a sério as broncas de Mara Moreira (Camila Morgado), empresária e amante, e parece depositar toda sua confiança e amizade em Só Love, personagem interpretado pelo ator João Miguel.

O roteiro é bem estruturado, não dando pistas de quem cometeu o crime. Também é costurado em uma narrativa fragmentada por meio de flashbacks, sem ser linear. Visível também as cenas embaladas pela literatura - a exemplo da que Sereia caminha em direção ao mar fazendo alusão a Iemanjá. Os detalhes da produção chamam atenção, desde os abadás, os carros estacionados nos locais apropriados durante a festa, a euforia da população (muito bem realizada pela figuração), até a plateia montada nos condomínios da Avenida Sete.

A minissérie consegue ser popular e ter qualidade. Os enquadramentos de câmera e as sequências são claramente inspiradas no cinema. Também foi possível perceber o cuidado com o figurino, a trilha sonora - embalada pelas canções "A Roda" e "Baianidade Nagô" - e os cenários. O elenco é promissor, apesar de grande parte ainda estar presente na memória como "personagens de Avenida Brasil", como Marcos Caruso (o eterno Leleco), que interpreta agora o governador da Bahia.

O Canto da Sereia tem suas derrapadas e volta e meia esbarra em expressões clichês da Bahia. Ouvimos "meu rei" e "nêgo". Além disso, Marcos Palmeiras diz: "Essas coisas só acontecem na Bahia".

Nada disso, porém, invalida as qualidades da microssérie. Sua história é cheia de fôlego, eletrizante, dinâmica e soa como verdade. A trama é, ao mesmo tempo, colorida e obscura. A equipe que produz esteve em sintonia com uma das mais bem contadas histórias que o público já viu em um primeiro capítulo. Por isso empolga e promete ser um sucesso.

No livro, Motta conta uma história que mostra o único acontecimento capaz de parar a Bahia em pleno carnaval. E, pelo que se viu nas redes sociais, o telespectador parece ter decidido, até sexta-feira, parar tudo e acompanhar a minissérie de tão surpreendente que se mostra ser.

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