EXCLUSIVO
"Eu gosto da língua portuguesa contaminada e impura", diz Gregório Duvivier
Ator ocupa o Teatro Sesc Casa do Comércio até domingo

Por Eugênio Afonso

Ele não faz novela nem é influenciador digital, mas, sem dúvida, é um dos artistas mais criativos, dinâmicos e talentosos de sua geração.
O carioca Gregório Duvivier, 39, surgiu para o grande público nos esquetes da trupe de humor Porta dos Fundos e ganhou o mundo.
Além de ator, é escritor, dramaturgo, palhaço, roteirista e humorista. Desde que surgiu, suas ideias e opiniões contundentes têm sido uma marca em sua trajetória profissional.
Gregório sempre se posiciona politicamente e se considera um socialista, um homem de esquerda que tenta estar ao lado do povo.
Já esteve em Salvador com os espetáculos Sísifo e Portátil, e agora traz o monólogo O Céu da Língua, que estreia hoje no Teatro Sesc Casa do Comércio, onde segue em curta temporada até domingo, 18 de janeiro.
O espetáculo, cujo texto é dele e da atriz paulista Luciana Paes – também responsável pela direção –, aborda a presença quase invisível da poesia no nosso cotidiano.
Segundo Gregório, tudo partiu da sua vontade de trabalhar com Luciana, amiga que divide com ele, entre outras coisas, a paixão pela língua portuguesa.
Fã da Bahia, Duvivier diz que o público daqui é muito caloroso, tem a poesia no sangue, que Salvador é uma cidade infinita e riquíssima, e que a Concha Acústica do Teatro Castro Alves é uma catedral da cultura brasileira.
E para fazer companhia a Gregório no palco, nesta temporada, estão o instrumentista Pedro Aune, responsável pela direção musical e execução da trilha com seu contrabaixo, e a designer Theodora Duvivier, irmã do comediante, que manipula as projeções exibidas no fundo da cena.
Via WhatsApp, Gregório conversou, com exclusividade, com o Caderno 2+ de A TARDE sobre teatro, política, poesia, Bahia, Brasil e, obviamente, O Céu da Língua.
Confira a seguir.
O que quer o Céu da Língua? Fale um pouco sobre o espetáculo
É uma celebração da língua portuguesa, não só da língua portuguesa, da língua, de modo geral, da fala. A celebração do fato de que a gente fala e de que a fala é que faz o ser humano, humano. Então, é uma ode à palavra.
O que o público vai ver em cena?
Uma festa em torno da língua e vai participar dessa festa. O público vai se descobrir dono de um tesouro, que é a língua portuguesa.
A origem deste monólogo está relacionada ao espetáculo Um Português e Um Brasileiro Entram no Bar? Destrincha isso pra gente.
Não, na verdade sim. Quer dizer, tem a ver porque era uma peça que eu fazia com o Ricardo Araújo Pereira (comediante português) também sobre linguagem. Na verdade, a origem do espetáculo é a vontade de trabalhar com Luciana Paes, que é essa grande amiga, e a gente divide essa paixão pela língua. A origem é um encontro meu com ela, e depois com essa equipe. Então, vem do encontro com essas pessoas.
Quem tem medo de poesia?
Muita gente. Eu, por exemplo, tenho medo às vezes. Acho que nem toda poesia é divertida. Às vezes, a poesia pode ser chata, pretensiosa. Ela dá medo mesmo, mas é bom porque mostra que ela tem poder, é temerária. Assim como o humor, ela subverte o sentido das palavras, ela acorda as palavras e isso é muito poderoso.
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Que poetas foram referência para a construção do texto?
Não sei nem por onde começar, mas muita gente tá lá, literalmente dito, Camões, Florbela Espanca, João Cabral de Melo Neto, Eugênio de Andrade, Caetano Veloso, mas tem muita gente que não tá dita expressamente. É gente como Castro Alves, Machado de Assis, Cecília Meirelles, Clarice Lispector. Ah, Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes. A gente tem muita sorte de nascer falando português, digo nascer falando porque acho que, de alguma forma, a criança já nasce com a língua, né, a gente ouve ela na barriga.
Podemos dizer que é um espetáculo meio Policarpo Quaresma, ferrenho defensor da língua portuguesa?
Nada de Policarpo Quaresma, ao contrário, o Policarpo era um purista, era contra os estrangeirismos e eu não acredito nisso. Eu gosto da língua contaminada por todas as outras línguas, eu gosto dela impura, então sou um anti-Policarpo Quaresma.
Como tem sido a parceria com Luciana Paes, autora do texto juntamente com você, diretora do espetáculo e companheira do Porta dos Fundos?
A Luciana é o motivo, o início e o fim dessa peça. Foi o encontro com ela que fez nascer a peça, e a gente foi escrevendo junto. Um ia puxando o fio do outro e a gente tem essa paixão em comum, que é a língua. Ela é essa companheiraça, a gente tem muita afinidade em todas as paixões e tem uma parceria muito fértil.
Você é um dos artistas mais atuantes, politicamente falando, de sua geração. Isto interfere, para o bem ou para o mal, na sua carreira?
A política não é uma opção, não sei se interfere bem ou mal, só sei que não penso nisso. Acho uma besteira pensar: será que isso vai ser bom ou ruim pra minha carreira? Acho uma cafonice. A gente tem que pensar em trabalhar, em focar, em entregar pro público uma peça, uma música, um livro de qualidade. Pensar em coerência, no que a gente acredita. Então, esse conceito de bom pra carreira, ruim pra carreira, não cogito não. E acho meio ruim um artista que faz esse tipo de cálculo, sabe?
Há diferença de público pelos quatro cantos do Brasil? Se sim, como é o baiano?
Ah, sim, cada público tem seu jeito. O Brasil é um país continental que tem muita diferença entre os públicos. Mas, ao mesmo tempo, tem muita coisa que nos une. Eu acho que o brasileiro, de modo geral, é muito caloroso. Muito barulhento no bom sentido. Muito efusivo. E o público baiano é muito emocionante. Eu fiz peça na Concha Acústica e foi uma delícia. A Concha é uma catedral da cultura brasileira. Para mim, foi talvez a maior emoção da vida. E é um público muito caloroso. O público baiano gosta muito de poesia. A poesia está no sangue do baiano. O baiano fala de forma poética e engraçada. E tem a tradição de ter talvez nossos melhores poetas. Aqueles que fizeram a poesia popular, como Castro Alves, Caetano Veloso, Jorge Amado e tantos outros. A Bahia tem essa tradição, mas não sou eu que tô inventando isso, é uma tradição baiana. Então, o público tá acostumado a deglutir poesia.

Você é ator, apresentador, escritor. Onde mora o real Gregório?
Acho que não existe isso. Acho que a gente é uma soma de tudo que faz, né? Então, acho que não tem muito uma pessoa real, acho que todo mundo existe. Só com apresentador é que não me identifico muito. Acho que o que eu fazia lá no Greg News era mais um trabalho de ator. Talvez o palhaço seja o mais próximo da realidade, né? Acho que palhaço é o que contempla tudo, todo o resto.
Você tem alguma relação mais profunda com a Bahia, seja afetiva, profissional, musical?
Na Bahia, me sinto muito acolhido, também porque tenho muitos amigos aí desde sempre. Minha turma no Rio é uma turma muito baiana, dos baianos que moram no Rio, e onde eu vou tenho muita afinidade com baianos, de modo geral. Amo Salvador, é uma das cidades mais interessantes do mundo. A história é muito presente, essa história tão cheia de contradições, riquezas, belezas, mas também de tragédias, e tá tudo muito impresso nas paredes, então eu acho Salvador uma cidade infinita. Riquíssima. Eu me sinto um estrangeiro em Salvador, como Lévi-Strauss vendo a baía de Guanabara, mas um estrangeiro fascinado com a quantidade de cultura que essa cidade produziu e segue produzindo e ainda vai produzir. Então, eu fico mesmo abismado em Salvador, sempre tenho vontade de ficar.
Por que os espetáculos teatrais têm tido casa cheia – graças a Dionísio – apesar de tanta oferta no universo tecnológico?
Olha, de fato existe uma procura maior, talvez depois da pandemia, pelo teatro, e eu acho que tem a ver com o fato de que o teatro é a celebração da presença, da aglomeração, tudo que a gente não pôde fazer na pandemia e que a gente percebeu que era muito importante. A humanidade e, sobretudo, a brasilidade se celebra aglomerando, e o teatro possibilita essa lembrança do que nos faz humanos, que é sentar em volta de uma fogueira e contar histórias. É assim que nasce a humanidade, então o teatro é a celebração da humanidade, por isso ele é a mais antiga das artes, e talvez venha a ser a mais duradoura também porque não precisa de tecnologia nenhuma, basta alguém olhando. E alguém se apresentando, já vira teatro, né?
Como se vê daqui a 40 anos?
Ah, daqui a 40 anos espero estar velho, porque gente que não envelhece é muito aflitivo, então espero estar velho, bem velho, mas ainda, quem sabe, no palco porque ele me faz muito feliz, e o teatro, de modo geral, me alegra. Então, posso não estar no palco, posso estar nos bastidores, na plateia, mas espero estar no teatro, espero que o teatro esteja vivo. Espero que o Brasil esteja à altura do seu carnaval, sabe, porque acho que a gente tem um País que faz a festa mais bonita do mundo, e o que falta é o resto do País estar à altura da sua festa. Os artistas estão fazendo sua parte, o povo também, faltam governantes que tenham o mesmo compromisso com o povo que os artistas têm.
Como você se define politicamente?
É difícil... mais como uma pessoa cheia de dúvidas, mas ao mesmo tempo que tenta estar sempre ao lado do povo, ou seja, de esquerda, mas livre ao mesmo tempo, não me sinto filiado a nada. Quer dizer, me sinto socialista.
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