CULTURA
Iphan tomba templo de Jarê mais antigo do Brasil na Chapada Diamantina
Terreiro foi fundado em 1949 por Pedro Florêncio Bastos (Pedro de Laura)

Em um passo significativo para o reconhecimento da diversidade religiosa afro-brasileira, o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) aprovou o tombamento federal do Terreiro Palácio de Ogum e Caboclo Sete-Serra, localizado em Lençóis, na Chapada Diamantina.
Considerado o templo de Jarê mais antigo ainda em funcionamento no Brasil, o tombamento, aprovado na 111ª reunião do Conselho no dia 26 de novembro, garante proteção permanente contra destruição e demolição, consolidando o local como um testemunho vivo da resistência e da criatividade das populações negras.
“Trata-se de um bem cultural de excepcional valor histórico, simbólico e espiritual, cuja materialidade e ambiência expressam a permanência e a vitalidade de uma tradição afro-brasileira singular,” destacou Desiree Ramos Tozi, relatora do processo.
O presidente do Iphan, Leandro Grass, enfatizou a importância do ato como um "reparo histórico" e uma prioridade da gestão, ressaltando a complexidade e a riqueza da cultura de matriz africana na Bahia.
Jarê: o candomblé dos caboclos
O Jarê é uma prática religiosa singular nascida na Chapada Diamantina (Andaraí e Lençóis). Teve origem com mulheres nagôs, africanas escravizadas, que mesclaram seus rituais privados, realizados em iorubá (ou "falando cortado"), com o culto público e aberto aos caboclos (espíritos ligados aos indígenas), realizado em português. Com o tempo, as duas liturgias se uniram no mesmo espaço, dando origem ao Jarê como é conhecido hoje.
Fundado em 1949 por Pedro Florêncio Bastos (Pedro de Laura), o Terreiro é uma exceção à regra: tradicionalmente, um templo de Jarê é fechado após a morte de seu líder. No entanto, a pedido de Pedro de Laura, a casa foi mantida ativa pelos seus adeptos.
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Por isso, é frequentemente chamado de "casa de Pedro de Laura" ou "casa do Capivara", em referência ao rio próximo.
Natureza, espiritualidade e patrimônio
A relevância do Palácio de Ogum não se restringe à sua antiguidade. O processo de tombamento, iniciado em 2007 pelos próprios membros do terreiro, valorizou a forma como a arquitetura dialoga com o meio ambiente.
O terreno de cerca de 3.782 m² abriga o conjunto edificado, incluindo o pagodô (casa principal de cerimônias) e o espaço consagrado aos exus (caramanchão).
O local é cercado por vegetação nativa e árvores sagradas, como a gameleira, além de conter pedras e cursos d'água que integram o universo simbólico do Jarê.
Segundo o superintendente do Iphan na Bahia, Hermano Guanais, o tombamento traz um novo olhar para a Chapada Diamantina: "Valorizando muito mais do que paisagem e arquitetura, as práticas culturais que estão espraiadas naquele território".
Com a proteção federal, qualquer restauração ou modificação no terreiro só poderá ocorrer mediante autorização prévia do Iphan.
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