LITERATURA
Livro reúne 26 autores e crianças negras para reescrever a infância
Lançamento de 'Contos para Ibejada' terá oficinas e sarau gratuitos na Biblioteca dos Barris


A construção da autoimagem infantil também passa pelas histórias que uma criança lê e, sobretudo, pelas histórias que ela percebe poder viver. Para crianças negras, ocupar o centro da narrativa significa romper uma tradição literária marcada por apagamento e estereótipos, criando novas possibilidades de imaginar o mundo. Quando assumem a voz da narrativa, essas crianças deixam de ser apenas representadas e passam a produzir memória, identidade e cultura.
Essa perspectiva conduz Contos para Ibejada, nova coletânea da Liga do Dendê que será lançada nesta segunda-feira, 25, Dia da África, na Biblioteca dos Barris. O livro reúne 26 autores e autoras negros da Bahia, entre eles crianças e jovens escritores, em narrativas que atravessam ancestralidade, oralidade, territórios negros e experiências afro-diaspóricas.
Organizada por Cássia Valle, Denise Ferreira, Luciana Palmeira, Paula Brito e Taísa Ferreira, a publicação nasce do trabalho coletivo iniciado pela Liga em 2021, movimento literário criado para fortalecer autores negros baianos e ampliar a circulação dessas produções para além dos grandes centros editoriais do país.
“A Liga foi criada para romper silenciamentos históricos e descentralizar o olhar que por muito tempo privilegiou apenas os grandes eixos culturais do país. Mais do que um coletivo, somos uma ligação de afetos, resistência e criação, comprometida em levar a literatura baiana para além das fronteiras do estado, afirmando que a Bahia também é centro de pensamento, invenção, poesia e transformação cultural”, afirma Cássia Valle.
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Narrativas como espelhos
Nas religiões de matrizes africanas, a Ibejada está ligada aos Ibejis, divindades gêmeas associadas à infância, à dualidade, ao nascimento e aos começos. Em diálogo com esse imaginário, a coletânea apresenta histórias em que crianças negras ocupam o centro da narrativa não apenas como personagens, mas também como produtoras de cultura e conhecimento.
Ao lado dos escritores adultos, o livro também reúne produções assinadas por crianças negras, reforçando o protagonismo infantojuvenil defendido pelo coletivo. Entre elas estão A magia da ancestralidade, de Luis Pedro Azevedo, de 12 anos, e Pretinhas empoderadas, de Duda Santhana, de 10 anos.
“Também convidamos crianças pretas e suas famílias para integrarem a iniciativa, por compreendermos a importância de fortalecer desde cedo o protagonismo literário das infâncias negras”, afirma Taísa Ferreira, sobre o processo de construção da coletânea.
A presença de autores mirins no livro se conecta diretamente à criação da Liguinha do Dendê, braço do coletivo voltado a crianças e jovens escritores negros. A iniciativa surgiu a partir de uma provocação feita por Zion Passos, filho de Taísa Ferreira, ao questionar por que ainda não existia uma versão infantil da Liga.
“O grande diferencial da Liguinha do Dendê está no protagonismo das crianças e jovens pretos e pretas que, junto às suas famílias, fazem circular seus conhecimentos, vivências, interesses e desejos. A iniciativa se constitui como um espaço de acolhimento, incentivo, orientação e fortalecimento dos processos de escrita dessas crianças e jovens, além de ampliar a circulação de suas produções literárias”, explica Taísa.
Construção coletiva
Para Paula Brito, o livro também desloca a forma como crianças negras costumam aparecer na literatura.
“Na coletânea Contos para Ibejada, elas narram suas próprias histórias; com isso, o foco se desloca do ‘ser representado’ – onde eram objeto da visão de outro – para o ‘ser produtor de cultura’, assumindo as rédeas da própria narrativa”, comenta.
As histórias reunidas em Contos para Ibejada percorrem diferentes territórios afetivos e culturais da Bahia e da diáspora africana. Elementos centrais da ancestralidade negra aparecem como fios condutores das narrativas: a Irmandade da Boa Morte, confraria afro-católica fundada por mulheres negras em Cachoeira; os griôs e os provérbios africanos; o samba junino do Engenho Velho de Brotas; as memórias do Recôncavo Baiano; os terreiros; as brincadeiras coletivas; e as experiências de maternidade.
No conto Zazi, a poetinha cheia de orgulho da sua história, Cássia Valle acompanha uma menina de Cachoeira inspirada pelas histórias da avó, integrante da Boa Morte, para escrever um poema sobre identidade e ancestralidade negra. Já em Do timbal ao coração: Mashama e o Festival de Samba Junino, Taísa Ferreira transforma as memórias do Engenho Velho de Brotas em homenagem à manifestação cultural que atravessa gerações no bairro.
A oralidade também aparece como eixo estruturante da coletânea. “Os provérbios, as histórias narradas pelos mais velhos, as cantigas, os ensinamentos comunitários e as brincadeiras aparecem como formas ancestrais de educar, preservar memórias e fortalecer identidades”, destaca Luciana Palmeira.
Autora de Tesouros da Sabedoria: as aventuras de Nyah e Didi, Luciana constrói uma narrativa guiada pelos ensinamentos de um griô africano. Para ela, o livro também busca ampliar os imaginários sobre as infâncias negras. “No livro Contos para Ibejada, buscamos criar histórias em que as crianças negras possam se reconhecer com dignidade, alegria e complexidade. Queremos que elas entendam que seus cabelos, seus corpos, suas famílias, suas culturas, suas memórias e suas ancestralidades carregam beleza, potência e valor”, destaca a escritora.
Outra narrativa da coletânea, Zuri e o Mistério da Akuaba, de Denise Ferreira, parte do símbolo ancestral da boneca Akuaba, do povo Ashanti, para abordar pertencimento, memória e maternidade construída pela adoção. Já Paula Brito, em Naki em uma Viagem Ancestral, acompanha uma criança que viaja para Gana em busca das próprias origens familiares.
Os contos dialogam ainda com as experiências, memórias e imaginários construídos por Akin Rudá Ferreira, Dennis Emanuel Ferreira, Genivaldo Santos, Jamile Kyanda Barboza, Raí Santana, Carine Barboza, Jacqueline Meire, Zion Passos, Yalle Tárique, Bia Barreto, Maurício Akin, Anderson Shon, Aysha Oliveira, Carol Adesewa, Jaqueline Santana, Joaquim Jesus, Ladjane Alves Sousa, Niní Kemba Nàió e Ulisses Passos.
Maio com Dendê
Além do lançamento literário, o Maio com Dendê foi pensado como experiência coletiva de formação e pertencimento. A programação gratuita acontece das 9h às 20h na Biblioteca dos Barris e reúne contação de histórias, oficinas de pintura e escrita criativa, rodas de conversa, brincadeiras africanas, apresentações culturais e o Sarau da Liga.
“O Maio com Dendê foi pensado para ser muito mais do que um lançamento de livro, pois acreditamos que a literatura precisa ser vivida como experiência coletiva, afetiva e ancestral. Reunir oficinas, música, brincadeiras, rodas de conversa e atividades para crianças e famílias foi uma escolha para a construção de um espaço de encontro, pertencimento e construção de memórias”, afirma Denise Ferreira.
Maio com Dendê - Lançamento da coletânea Contos para Ibejada / Hoje, com programação (oficinas, sarau e contação de histórias) das 8h às 11h30, das 14h às 16h e das 17h30 às 20h / Biblioteca Central do Estado da Bahia (Rua General Labatut, 27 - Barris) / Entrada: Gratuita
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.


