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CULTURA

Mais de 30 artistas ocupam o MAC_BAHIA em exposição histórica

Museu de Arte Contemporânea da Bahia rompe o silêncio com nova mostra gratuita

Maiquele Romero*

Por Maiquele Romero*

19/03/2026 - 6:02 h

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Descubra quem são as artistas que estão redesenhando a história da arte na Bahia
Descubra quem são as artistas que estão redesenhando a história da arte na Bahia -

A forma como as obras de uma exposição se organizam no espaço diz tanto quanto as imagens que carregam. A disposição, os materiais, os encontros e afastamentos constroem sentidos, assim como os nomes que assinam esse conjunto.

Curar é também escolher quem aparece, quem permanece e quem, historicamente, foi deixada de fora. No Mês da Mulher, esse gesto ganha contornos explícitos em RESPEITA - Mulheres do Acervo MAC_BAHIA, mostra que abre nesta quinta-feira, 19, no Museu de Arte Contemporânea da Bahia e reúne mais de 30 artistas, com a proposta deslocar o respeito do campo abstrato para o terreno das disputas simbólicas e políticas – sobretudo no que diz respeito à presença das mulheres na história da arte.

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Ao reunir exclusivamente obras de mulheres, a exposição tensiona um histórico de silenciamento e sub-representação nos acervos institucionais. A curadoria de Andrea May parte desse diagnóstico. “Desde a criação do MAC_BAHIA logo foi identificado um grande déficit de algumas representações e assim veio o desafio desta ampliação, incluindo mais artistas locais, mulheres, negros, indígenas”, afirma.

Hoje, mesmo com avanços, a desigualdade persiste: “A atual estatística ainda não demonstra equidade a exemplo da questão de gênero: 61% de artistas homens versus 39% de mulheres. RESPEITA traz essa preocupação, obviamente, além do fortalecimento de uma rede artivista, no apoio das insurgências e posicionamentos estratégicos da arte, nesse caso específico, por mulheres em toda a diversidade de identidade de gênero”.

Mais do que preencher lacunas, a mostra propõe evidenciá-las. Ao articular obras do acervo e de coleções convidadas, constrói uma narrativa que não busca conciliação, mas visibilidade e, sobretudo, deslocamento.

Com visitação até 24 de maio e entrada gratuita, a exposição se estrutura a partir da ideia de respeito como prática. A expografia traduz esse princípio em dois eixos. No piso térreo, materiais como terra, madeira e elementos orgânicos criam um ambiente ancorado no corpo e no território. No andar superior, surgem “genealogias, tradições, heranças metafísicas” que atravessam as obras em uma dimensão mais subjetiva. Entre um espaço e outro, conexões sutis – que Andra chama de “hiperlinks em detalhes” – orientam o olhar sem impor um percurso único.

Ao invés de homogeneizar, a curadoria aposta na fricção. “Me senti livre para trabalhar opostos, como choquinhos sutis que fazem ascender a percepção”, diz Andrea. O resultado é uma montagem que alterna acolhimento e tensão, reunindo materiais, texturas e narrativas que podem sugerir, confortar ou incomodar. “Cada artista faz emergir formas distintas de exigir respeito às trajetórias que não se curvam, às memórias que insistem, às subjetividades que escapam”, comenta.

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Corpos em disputa

Entre os trabalhos apresentados, Trem em Transe (2019), de Virgínia de Medeiros, desloca o debate para o espaço público. Ao acompanhar manifestações religiosas em um trem do Subúrbio Ferroviário de Salvador, a obra constrói um campo de tensão entre diferentes cosmologias. “O respeito, aqui, não é conciliação, mas convivência tensionada. A autonomia se afirma como direito de presença, e a resistência se inscreve na persistência desses corpos em ocupar e reconfigurar os regimes de visibilidade e escuta”, explica a artista.

Inserida em uma mostra composta apenas por mulheres, a obra reverbera em um conjunto que, segundo a artista, opera como um “coral – múltiplo, dissonante – que potencializa cada gesto artístico”. Para Virgínia, esse tipo de recorte desloca o olhar sobre o feminino: “o deslocamento está em pensar os femininos para além do gênero, como uma força política e relacional”.

Nesse contexto, a arte se afirma como campo de disputa. “A arte hoje ocupa um lugar decisivo na disputa por visibilidade e escuta das experiências femininas, não apenas por torná-las visíveis, mas por reconfigurar as formas de relação, linguagem e existência que nos atravessam”, nota.

A expansão da exposição

Se dentro das salas o percurso é atravessado por camadas e tensões, fora delas a exposição se desdobra em experiências coletivas. Entre as atividades está o primeiro encontro do “Clube do Desassossego”, no sábado (21), às 15h, com leitura coletiva do livro Pequena coreografia do adeus, de Aline Bei. Já no domingo, acontece a ação “Manifesta Colagem”, conduzida por Manuela Eichner, integrante da exposição, e pela convidada DJ Sica.

A atividade propõe uma imersão entre performance, música e artes visuais. Segundo Manuela, a atividade surgiu de uma pesquisa de anos com colagem e perfomance, mas também de um desejo pessoal “Fazer projetos que modifiquem os espaços, tanto de arte como espaços urbanos, criando uma energia e um ambiente entre as pessoas e o espaço”, explica.

Durante duas a três horas, o público pode entrar e sair livremente, participar ou apenas observar. O interesse, de acordo com a artista, está no que emerge desse encontro: “O que o acontecimento como forma de arte pode provocar nas pessoas”. Com materiais analógicos, colagens a partir de revistas dos anos 1970 e elementos vestíveis, a proposta ativa o corpo e a memória. “Todos ali são artistas, todos estão performando”, afirma Manuela, ao destacar o caráter participativo da ação.

A experiência, segundo ela, também passa pelo sensorial e pelo coletivo: “me interessa que o público fique leve, se sinta à vontade, se sinta artista”. Mais do que resultado, o foco está no processo e na presença.

Lacunas e possibilidades

Ao reunir artistas de diferentes gerações e linguagens – como Ana Cláudia Almeida, Ana Elisa Egreja, Ângela Cunha, Andy Villela, Ani Ganzala, Ani Haze, Betânia Luna, Brígida Baltar, Carla Santana, Claudia Saldanha, Cinthia Marcelle, Elisa Bracher, Eneida Sanches, Isabela Seifarth, Iyá Boaventura, Janaína Tschape, Jess Vieira, Lilian Morais, Manuela Costa Lima, Manuela Eichner, Márcia Abreu, Márcia Xavier, Milena Ferreira, Nádia Taquary, Nydia Negromonte, Odaraya Mello, Panmela Castro, Rebeca Carapiá, Rosana Monnerat, Thaís Muniz e Virgínia de Medeiros –, RESPEITA constrói uma constelação de práticas que tensionam invisibilidades e afirmam presenças.

No entrelaçamento dessas vozes, a exposição não apenas revisita o acervo, mas propõe um deslocamento de perspectiva. Ao tornar visíveis as ausências, aponta também para outras formas de imaginar o futuro, em que respeito, mais do que palavra, se exerce como prática cotidiana.

RESPEITA | Mulheres do Acervo MAC_BAHIA / Abertura: hoje, 17h / Visitação até 24 de maio, de terça-feira a domingo, das 10h às 20h / Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC_BAHIA) / Gratuita

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.

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