CÊNICAS
Moraes Musical Moreira estreia no TCA em Salvador nesta sexta (13)
Espetáculo dirigido por Ana Paula Bouzas revisita a trajetória do cantor baiano


Há seis anos, uma das vozes mais importantes da música popular brasileira nos deixava. Em 2026, ano em que o artista completaria 79 anos, acabou chorare – afinal, a alegria era marca registrada de Moraes Moreira. Ele partiu, mas deixou um legado vivo, prova de que suas canções continuam a balançar o chão da praça e a transformar a saudade em movimento, desta vez, também nos palcos.
É nesse movimento entre memória e celebração que nasce Moraes Musical Moreira, espetáculo que revisita a trajetória do cantor e compositor baiano, nascido em Ituaçu, no interior do estado. A estreia nacional acontece em Salvador, no Teatro Castro Alves (TCA), entre os dias 13 e 30 de agosto. As sessões estão programadas para as sextas-feiras, às 20h, e aos sábados e domingos, às 17h, sujeitas à lotação. Os ingressos já estão disponíveis pelo Sympla.
Inspirado no universo artístico de Moraes, o espetáculo convida o público a revisitar sua trajetória por meio do teatro, da música e da dança. A montagem destaca diferentes momentos de sua carreira, da formação dos Novos Baianos à transformação dos trios elétricos, passando pela contribuição para a renovação da música popular brasileira.
Em cena, o público acompanha o Poeta-Cantador e o Vaqueiro do Som, duas faces de um mesmo personagem que percorre a trajetória de Moraes em uma busca pela Musa Música. Ao longo da jornada, ele é acompanhado pelo Bloco do Prazer, em um universo cênico construído com cenografia alegórica, figurinos e visagismo que transitam entre o real e o fantástico. As danças populares nordestinas completam a narrativa e ampliam a conexão do espetáculo com as raízes do artista.
Com direção da atriz e coreógrafa Ana Paula Bouzas, o espetáculo constrói uma narrativa que transita entre realidade e fantasia. Para a diretora, um dos principais desafios foi encontrar uma forma de dar conta da grandiosidade de uma obra que reúne diferentes momentos, personagens, referências e uma extensa produção musical.
“Desde o início, a gente ficou pensando muito sobre a grandiosidade da obra criativa de Moraes. Então, o espetáculo, a dramaturgia e o tratamento partem desse desafio de compartilhar com o público o máximo possível da intensidade e da dimensão desse artista”, explica Ana Paula.
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Realidade fantasiada
A construção do musical parte de uma relação de admiração e parceria. Fernanda Bezerra, responsável pela coordenação geral da dramaturgia e diretora da Maré Produções Culturais, acompanhou diferentes momentos da trajetória de Moraes Moreira e participou de projetos ao lado do artista.
“Eu fiz alguns trios elétricos dele, alguns projetos especiais. Eu fiz uma exposição após a morte dele, que circulou por Recife, Rio de Janeiro. E, a partir daí, eu acho que o musical fecha um ciclo. Que é um ciclo importante de estar preservando e cuidando dessa obra”, explica.

Segundo Fernanda, a montagem também integra um movimento da Maré Produções Culturais de investir na criação de projetos autorais e na valorização do teatro musical nordestino. “A gente fez A Peleja da Santa, que foi um musical que estreou na Concha Acústica. Depois a gente fez agora Torto Arado, que ainda está fazendo, que é um fenômeno nacional. E agora a gente está estreando Moraes Musical Moreira”.
Sob direção de Ana Paula Bouzas, a dramaturgia combina personagens e acontecimentos ligados à trajetória real de Moraes com encontros ficcionais e referências que atravessaram sua vida e sua criação. O resultado é uma “realidade fantasiada”, como define a diretora, que permite ao espetáculo percorrer diferentes dimensões do universo do artista sem se limitar a uma narrativa biográfica tradicional.
“São encontros que existiam na vida real, na história de Moraes, mas também são encontros poéticos. Poderia ser um encontro com referências dele, com inspirações que ele teve. Então, acho que esse é um grande desafio, porque a obra de Moraes, somente, já é estimulante e muito rica”, afirma.
Para Ana Paula, a própria dimensão da obra musical de Moraes tornou a seleção do repertório um dos desafios da montagem. A proposta foi contemplar tanto as canções mais conhecidas pelo público quanto aquelas menos difundidas, capazes de revelar outras facetas do artista.
“Muitas coisas a gente não queria deixar de fora, muitas músicas. Mas também outras músicas que talvez o público que não seja tão conhecedor da obra não conheça. E a gente tem uma alegria enorme de levar isso para o palco”, completa.
Essa construção se estende para os diferentes elementos que compõem a identidade do musical. A direção de arte é assinada por Renata Mota, enquanto a direção musical fica a cargo da dupla João Milet Meirelles e Ronei Jorge. A direção de coreografia é de Jai Bispo, em parceria com Isis Carla. A equipe conta ainda com Jaya Batista na direção assistente e Vinícius Bustani e Edu Coutinho como assistentes de direção. Os figurinos são assinados por Alexandre Guimarães e Diana Moreira.
Um é bom, dois é melhor
Moraes Moreira foi muitos em um só. Cantor, compositor, instrumentista, poeta e personagem fundamental da música brasileira, o artista reúne uma trajetória extensa demais para caber em uma única perspectiva.
No Musical, essa multiplicidade ganha forma em dois intérpretes: o ator Cris Meirelles, interpretando “Sonho elétrico" ou a fase do Vaqueiro do som), e o músico e cordelista Rodrigo Sestrem, interpretando o “Poeta cantador”.
Juntos, eles apresentam diferentes faces de um mesmo personagem em uma busca pela Musa Música.

Para Rodrigo Sestrem, o convite para interpretar Moraes teve um quê de destino. Na infância e adolescência, quando usava cabelos longos, o músico conta que era frequentemente comparado ao artista. “O pessoal dizia: ‘você parece Moraes, você parece que é filho de Moraes’. E aí um dia eu cortei o cabelo e me chamaram para fazer. Eu digo: eu tinha o cabelo perfeito para isso”, brinca.
Além da semelhança física, a oportunidade representa para Rodrigo um mergulho na obra de um artista que já admirava, mas cuja produção descobriu de maneira mais profunda durante a preparação para o espetáculo. “Eu sempre falo: vão estudar o lado B dos artistas que vocês gostam. O lado B dessa galera é de uma riqueza. O que não foi para a rádio, o que não foi para a novela, é de uma riqueza essa musicalidade”, afirma.
O trabalho de Cris Meirelles começou de outra forma. Morando em Belo Horizonte, o ator viu as audições abertas para o musical e decidiu viajar até a Bahia para participar da seleção. A possibilidade de interpretar Moraes, porém, estava longe de ser um plano antigo. “Jamais imaginei na minha vida que eu faria esse personagem. Jamais”, afirma.
A surpresa deu lugar a um processo marcado pela colaboração entre os integrantes do elenco. Cris destaca que a construção do espetáculo não foi pautada pela competição, mas pela troca entre os artistas. “É um musical em que você tem a sensação de estar vendo um grupo de teatro fazendo um musical. Você não vê um elenco. Nós construímos uma parceria, uma coisa de afeto muito legal e de torcer pelo outro, de dar uma força”, relata.
Além da biografia
A construção das duas faces de Moraes também exigiu lidar com aquilo que não está registrado em sua biografia. Para os atores , o desafio está justamente em equilibrar pesquisa e imaginação. “Como seria? Quanto disso a gente inventa? Quanto disso a gente extrai? Vídeos que a gente tem dele mais jovem, coisas que as pessoas contavam sobre ele. Não foi uma construção simples construir esse personagem”, explica.
Para Rodrigo, dividir o personagem com Cris Meirelles também foi parte fundamental desse processo. “Eu vejo dois brincantes que estão homenageando lados do mesmo artista, cada um com um papel”, resume. A divisão, no entanto, não significa uma separação rígida. Os dois intérpretes precisaram investigar a voz, os gestos, a personalidade e as diferentes fases da vida de Moraes para construir uma representação que não pretende reproduzi-lo, mas encontrar caminhos para homenageá-lo.

Além das duas faces do artista interpretadas por Cris Meirelles e Rodrigo Sestrem, o espetáculo reúne Júlia Tizumba, no papel da Musa Música, e outros nove artistas: Diana Ramos, Luisa Muricy, Kadu Veiga, Mano Leone, Nana Nevez, Ofámirô, Rapha Gouveia, Sabiá e Saulo Ilogoní.
Ao todo, são 12 atores, atrizes, multiartistas, cantoras e cantores em cena. O elenco divide o palco com uma banda formada por seis músicos, entre eles Tarcísio Santos, Mistro, Indira Dourado, Antenor Cardoso e Fred Neto, com regência de Carla Suzart, assistente de direção musical. A dramaturgia é assinada pelo roteirista e diretor teatral Fábio Espírito Santo, com coordenação geral de Fernanda Bezerra.
Fé na dança
O Bloco do Prazer é um dos elementos que movimentam a narrativa e acompanha Moraes ao longo dessa jornada. Seus integrantes ajudam a construir a atmosfera de celebração que atravessa a trajetória do artista e estabelece uma conexão direta com as manifestações da cultura popular nordestina.
Entre os integrantes está a atriz Nana Nevez, que também interpreta uma amiga de infância de Moraes e Chiquinha Gonzaga. Para ela, transitar entre esses personagens tornou o processo de construção bastante natural. “Representar alguém no cotidiano da vida de alguém é quase viver um momento como eu mesma. Eu brinco muito nas cenas de criança. Sinto que um pouco de mim vive uma infância que não vivi”, conta.

Se interpretar os personagens trouxe familiaridade, cantar e dançar foi um dos maiores desafios enfrentados pela atriz durante a montagem. “Dançar frevo, quadrilha e chegar numa oitava acima sorrindo é enlouquecedor, mas gratificante e de muito aprendizado”, afirma.
A experiência também reforçou, para a atriz, a dimensão da cultura popular brasileira presente na montagem. “A arte popular brasileira existe e ela é gigantesca. É um orgulho de ser brasileiro e nordestino. A potência disso é grande”, destaca.
Deslocamento de eixos
A estreia ganha um significado especial ao ocupar a Sala Principal do Teatro Castro Alves (TCA), reinaugurada recentemente após passar por um amplo processo de requalificação. Para a diretora artística do TCA, receber a montagem representa a oportunidade de celebrar a produção cultural do estado e a trajetória de um de seus grandes artistas.
“É um prazer poder receber uma peça genuinamente baiana, ainda mais que está homenageando um grande baiano, que, por sinal, fez parte também da reelaboração da nossa Concha Acústica, que foi a primeira etapa do projeto Novo TCA”, destaca.

Salvador também é o ponto de partida para a circulação nacional do espetáculo. Após a temporada no TCA, Moraes Musical Moreira segue para Recife, Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro.
Segundo Fernanda Bezerra, começar pela Bahia representa uma forma de deslocar os eixos tradicionais de circulação da produção cultural.
“A gente optou por começar por Salvador por entender que é um movimento de deslocamento mesmo de eixos. Essa equipe artística topou estrear aqui no palco do Teatro Castro Alves e, a partir daqui, a gente vai circular para outras cidades do Brasil”, explica.
O espetáculo Moraes Musical Moreira é apresentado pelo Ministério da Cultura e pela BB Seguros, com produção da Maré Produções Culturais e patrocínio da BB Seguros. O projeto é realizado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet).
‘Moraes Musical Moreira’ / De 14 a 30 de agosto, de sexta-feira a domingo / Horários: sexta-feira às 20h; sábado e domingo às 17h. Excepcionalmente no dia 30 de agosto (domingo), a sessão inicia às 11h / Teatro Castro Alves (TCA) (Praça Dois de Julho, Campo Grande) / Ingressos a partir de R$ 25 (Excepcionalmente no dia 30 de agosto, domingo, o valor é de R$ 1) / Clientes BB Seguros: 45% de desconto sobre o valor da inteira utilizando o cupom BBSEGUROSMORAESMUSICAL / Clientes Banco do Brasil: 20% de desconto no pagamento com cartões Banco do Brasil / Descontos não cumulativos
Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.


