ARTES CÊNICAS
Musical inspirado em canção de Gilberto Gil estreia em Salvador
Com elenco majoritariamente negro, musical Domingo no Parque estreia sexta


Considerada a capital brasileira mais negra fora da África, Salvador é o cenário do musical Domingo no Parque, que tem como um dos propósitos ressaltar a relevância de importantes elementos da influência do povo preto – dança, religiosidade, música, vestimenta, culinária – na cultura brasileira.
Inspirado na canção homônima do mestre baiano Gilberto Gil, o espetáculo estreia nesta sexta-feira, 14, às 20h, no Teatro Faresi (ex-Isba, Ondina), e fica somente até domingo, 16. Alexandre Reinecke, 57, diretor da peça, conta que o musical teve aprovação do próprio Gil, e tem, como fio condutor, a capoeira e parte da cultura das religiões de matriz africana.
Segundo ele, que também assina o texto, a ideia é apresentar um musical genuinamente brasileiro baseado em uma das canções mais importantes da MPB – marco do movimento tropicalista – do autor de Realce.
Com direção musical de Bem Gil, filho do nosso Buda Nagô, a montagem não se limita à canção Domingo no Parque e reúne 20 clássicos do cancioneiro nacional, de autores como Carlos Lyra, Dominguinhos e Anastácia, Dorival Caymmi, Jorge Ben Jor, Chico Buarque, Tom Jobim e Jackson do Pandeiro, sendo dez do próprio Gil.
“Buscamos músicas onde as letras refletissem o momento dramático, bem como, o andamento do espetáculo. Além de termos composto, juntos, três músicas originais para o espetáculo”, informa Alexandre, que acumula mais de 60 peças no currículo e está estreando como diretor de musical.
Com um elenco formado por 80% de pessoas pretas e jovens, todos os atores e atrizes foram escolhidos através de audição. “Selecionamos artistas de etnias diversas, em sua maioria negros, que atuassem, cantassem, dançassem e (boa parte) jogassem capoeira e/ou tocassem instrumentos como berimbau, pandeiro, atabaque e agogô”, ressalta Reinecke.
Leia Também:
Cidade Baixa
A trama se passa na Ribeira, bairro soteropolitano da península itapagipana citado na canção – ‘No domingo de tarde saiu apressado / E não foi pra Ribeira jogar capoeira / Não foi pra lá, pra Ribeira, foi namorar’ –, e conta a história de João, José e um grupo de amigos que se reuniam toda tarde para jogar capoeira.
Quando José leva seu amigo João para assistir a um show da amada Juliana, a relação entre os dois fica abalada. É que, no passado, Juliana teve um forte romance com João, e eles terminaram quando ele engravidou a jovem Juci.
Juliana segue seu sonho de se tornar uma grande estrela e passa a cantar nos bares da cidade. Nesse ínterim, também se torna atuante nos movimentos contra a ditadura e começa a ser vigiada pelos militares.
“O público vai ver em cena uma história de amor, uma tragédia urbana, recheada de músicas, conhecidas e originais, em uma encenação que diverte e faz refletir sobre nossa história sociopolítica, e que tem como pano de fundo os anos de chumbo da ditadura militar e a situação socioeconômica de boa parte do povo brasileiro”, destaca Reinecke.
Visceral e ativista

Para a pernambucana Rebeca Jamir, 35, que interpreta Juliana, sua personagem é uma mulher que está entre dois amores. “Dar vida a Juliana é muito especial. Me sinto muito honrada e feliz. É uma personagem icônica da nossa música brasileira”.
“Ela tem esse lugar das grandes paixões, que também, dentro dessa música, pelo próprio fato do feminicídio, faz uma denúncia. E também está combatendo o regime ditatorial que o nosso país, infelizmente, vivenciou durante muitos anos, e isso elucida também a época na qual a canção foi composta”, complementa Jamir.
A atriz acredita ainda que a protagonista é alguém que defende suas posições com muita integridade. “Que luta por todas as suas paixões, a artística, as paixões amorosas, afetivas e também a sua posição política, que é uma parte fundamental dela na nossa montagem”.
Rebeca lembra que boa parte da cultura afro-brasileira é representada nesse espetáculo com a capoeira e alguns elementos criados pela própria dramaturgia. “Então, a gente que fazer uma homenagem à nossa cultura através de uma música tão forte como essa canção, que é Domingo no Parque”, sinaliza.
Com vários musicais no currículo – Suassuna, O Auto do Reino do Sol, As Cangaceiras Guerreiras do Sertão, O Bem Amado Musicado –, Jamir conta que este gênero de espetáculo tem marcado sua trajetória. “Faço musicais desde 2015 e meu primeiro solo foi fazendo Maria Betânia no show Opinião, cantando Carcará. Acho que o caminho do musical brasileiro é um caminho que sempre me encontra e ecoa muito com a história da minha vida”, sintetiza.
Já o soteropolitano Jean Amorim, intérprete de João, garante que o espetáculo traz muitas camadas sobre a violência. “Sobre como era a realidade naquela época de ditadura. O espetáculo consegue fazer isso de uma forma muito bonita, trazendo a capoeira como protagonista, como linha de frente mesmo”.
E conta que seu personagem é um professor de capoeira, um homem que trabalha como pedreiro. “Ele vem de uma realidade mais pobre. É um cara que tem uma relação com a Juci, a pessoa que engravidou dele, mas que era amiga de Juliana, que é o amor da vida dele”, detalha Amorim.
Até participar deste musical, Jean confessa que nunca tinha parado pra escutar e entender a canção. “Aí eu parei pra fazer o estudo da letra da música. Eu falei, meu Deus é isso mesmo que acontece, no final João e Juliana acabam morrendo e o Zé é quem comete esse crime, essa tragédia, porque ele estava apaixonado por Juliana também”.
Divisor de águas
Apresentada pela primeira vez no 3º Festival da Música Popular da TV Record, em 1967, onde ficou em segundo lugar, Domingo no Parque é considerada um dos marcos da Tropicália ao misturar elementos brasileiros – como violão e berimbau – com a guitarra elétrica.
Na época, a canção – verdadeiro retrato das influências tropicalistas de Gil – foi apresentada com arranjos do compositor carioca Rogério Duprat (1932-2006) e contou com a participação dos Mutantes.
Com o tempo, tornou-se uma das mais importantes composições da carreira do mestre baiano e um divisor de águas para a música brasileira. Entrou para o segundo álbum de estúdio de Gil – que leva seu nome na capa –, lançado logo em seguida, em 1968.
Domingo no Parque, o musical, é ainda Wesley Guimarães (José), Ananza Macedo (Mãe Preta), Badu Morais (Juci) e a turma do coro: Anastácia Lia, Denise Fersan, Fernando Rubro, Jack Mandinga, Mestre Tyson, Renée Natan, Sangela Nunes e Will Anderson.
O espetáculo, que tem o intuito de dar relevância a importantes elementos da influência negra – dança, religiosidade, música, vestimenta, culinária – na cultura brasileira, conta com patrocínio da Petrobras através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
Domingo no Parque / 14 a 16 de agosto / 20h / teatro faresi (ondina) / Ingressos: R$ 25 a R$ 180 / Vendas: Sympla e Bilheteria do Teatro / Classificação: 12 anos


