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ARTE

Nova exposição em Salvador transforma paisagens em reflexão social

Mostra coletiva na CAIXA Cultural Salvador reúne 40 obras de artistas brasileiros

Chico Castro Jr.
Por Chico Castro Jr.
Curadores Daniel Barretto e Daniela Matera
Curadores Daniel Barretto e Daniela Matera - Foto: Vicente de Mello

Nos ensina a mecânica quântica que – aqui posto bem grosso modo – que, a partir do momento em que observamos um objeto, nós já o estamos modificando.

A observação e a modificação do que é observado é justamente um dos motes da exposição coletiva Paisagens em Travessia, que abre hoje, 19h, na CAIXA Cultural e segue em cartaz até agosto.

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Magnífica, a mostra reúne 40 obras de artistas consagrados, como Adriana Varejão, Anna Bella Geiger, Djanira, Cândido Portinari, Siron Franco e Xadalu Tupã Jekupé, entre outros.

Entre pinturas, esculturas, gravuras, fotografias e instalações, Paisagens em Travessia propõe “uma reflexão sobre as múltiplas formas de perceber, construir e transformar as paisagens ao longo do tempo”, como informa o material de divulgação.

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Temas como “a devastação dos territórios, a expropriação dos corpos, a memória da terra, o colapso climático e a potência de futuros ancestrais” guiaram os curadores Daniel Barretto e Daniela Matera, que organizaram a mostra em cinco núcleos curatoriais: O corpo da arte; Paisagem, utopia, distopia; O eclipse que está por vir; Imaginar o porvir e Aprender a viver com os vivos.

Para os curadores, uma paisagem não é só um ângulo sob o qual observamos um lugar, uma representação: é uma construção histórica e política.

“A paisagem é, antes de tudo, uma construção cultural, mesmo quando apresenta uma imagem da natureza. É um enquadramento ou uma delimitação, por assim dizer, de uma perspectiva. A arte, por sua vez, sempre será apreendida de maneiras muito diversas, seja pelo artista, seja por quem vê ou experiencia a obra. O olhar depende do repertório de vida, das vivências e, sobretudo, da disponibilidade de quem observa para se abrir ao campo sensível apresentado a partir da obra de arte”, delimita Daniela Matera.

Obra de Andrea Brown
Obra de Andrea Brown - Foto: Vicente de Mello

“Acreditamos que evolução não seja apenas temporal, mas também relativa ao modo de ver, de olhar. Mesmo quando observamos uma obra do século XIX que retrata uma paisagem natural, ela se apresenta a partir do caráter cultural de quem a produziu e, hoje, também de quem a observar, a apreende e de todo o contexto em que está inserida”, acrescenta.

Falar do agora

Já o curador Daniel Barretto destaca o caráter ampliado de paisagem adotado no processo curatorial: “A ideia de que a paisagem é algo sempre construído pelo olhar reforçou a vontade de tratar o conceito da forma mais aberta possível. Não a paisagem num sentido estrito apenas, com suas regras próprias dentro da história da arte, mas nas suas manifestações diversas, do mais íntimo ao corpo até o inatingível pela compreensão que temos do universo. E a exposição em si como um percurso possível do olhar, uma paisagem em si mesma”.

Isso não quer dizer, contudo, que a dupla ficou presa somente a conceitos “abstratos”. Esta é uma exposição que também finca os pés na terra: “Tentamos abordar algumas questões que consideramos centrais, de modo a também falar da importância da natureza no processo artístico. Dentro do possível, a vontade sempre foi falar do agora, mesmo com obras do passado, mas tratando a história em sua complexidade e por um viés crítico”, acrescenta Barretto.

Tempo não-linear

E aí voltamos à questão quântica citada lá no primeiro parágrafo. Para Daniela, “O que nos interessa é o entendimento da arte como campo não apenas ampliado, mas reverberante, com a capacidade de nos fazer compreender questões paradigmáticas e do campo do sensível, acerca daquilo que nos constitui enquanto humanidade. Como por exemplo, a não linearidade do tempo. Uma obra do século XIX pode ser contemporânea?”, pergunta-se.

“Sim. Ela é contemporânea ao seu tempo e igualmente, atual a partir do ponto de vista do hoje. Não estamos falando aqui de temporalidade ou mesmo da arte como antecipação do futuro, mas da maneira como a arte pode desencadear camadas e mais camadas de entendimento sobre o que significa estar no mundo", detalha a curadora.

"O famoso provérbio iorubá ‘Exu matou o pássaro ontem com a pedra que jogou hoje’, pode dialogar, de certa forma, com a física quântica e, arrisco dizer, também com a própria obra de arte: um artista cria uma obra hoje, mas talvez só sejamos capazes de compreendê-la plenamente amanhã”, completa.

Representações indígenas

Guardiões das matas, os indígenas têm aparecido com muita força na cena das artes visuais, especialmente neste século, refletindo justamente essa observação crítica das paisagens naturais e seus habitantes – para além de, durante séculos serem incluídos apenas como parte da paisagem em muitas obras.

Incontornáveis de um jeito ou de outro, os indígenas comparecem das duas formas: como parte da paisagem e como artistas, no caso, representados por Xadalu Tupã Jekupé, do Alegrete, Rio Grande do Sul e Djanira (1914 - 1979), de Avaré, São Paulo.

“(Os indígenas) Aparecem com obras produzidas por indígenas, aparecem enquanto representação, ou mesmo como referência na articulação de algumas obras, mas diríamos que mais ainda como professores que podem nos ajudar a rearticular o olhar sobre a natureza; mudar o modo como aprendemos a entender a natureza, distante do corpo e com fins quase exclusivamente utilitários”, afirma Daniel Barretto.

“Estão presentes obras de dois artistas indígenas contemporâneos que associam a história de seus povos e sua cultura visual de uma forma muito sofisticada com expressões contemporâneas das artes, trazendo ao mesmo tempo uma reflexão elaborada sobre as possibilidades de apreensão da natureza”, conclui.

Obra de Julio Viera
Obra de Julio Viera - Foto: Vicente de Mello

Além da visitação, a programação inclui atividades paralelas. No dia 27 de junho, às 15h, será realizada uma visita guiada com os curadores, seguida de bate papo e lançamento do catálogo.

A realização da exposição integra parceria entre o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e a CAIXA Cultural, com participação do Museu Nacional de Belas Artes. Patrocínio: CAIXA e Governo Federal.

Paisagens em Travessia

  • Abertura: hoje, quarta-feira, 27
  • Horário de abertura: 19h
  • Visitação: 28 de maio a 16 de agosto, de terça-feira a domingo e feriados
  • Horário de visitação: das 9h às 18h
  • Onde: CAIXA Cultural Salvador (Rua Carlos Gomes, 57, Centro)
  • Entrada gratuita
  • Estacionamento gratuito ao lado
  • Classificação etária: Livre
  • A abertura conta com intérprete de Libras. Todas as imagens da exposição possuem recurso de audiodescrição
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