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LITERATURA

Novo livro denuncia 'patrulha ideológica' e cultura woke no Brasil

Professor da Ufba, Wilson Gomes ataca a militância woke em novo livro: 'A Tirania da Virtude'

Manoela Santos*
Por Manoela Santos*
Lançamento de Wilson Gomes propõe debate sobre pluralismo, direitos e ética na era digital
Lançamento de Wilson Gomes propõe debate sobre pluralismo, direitos e ética na era digital - Foto: Divulgação

Nesta terça-feira, 14, o professor, autor e pesquisador da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Wilson Gomes, lança seu mais novo livro, A Tirania da Virtude. O evento será realizado das 17h às 19h, durante o II Congresso de História Social da Bahia, no Centro de Cultura Vereador Manuel Querino, no Pelourinho. A atividade reunirá pesquisadores, estudantes e interessados em debates sobre política, democracia e sociedade.

Publicado pela Editora Sagga, o livro apresenta uma crítica à cultura identitária e à chamada militância “woke”, propondo uma reflexão sobre os limites entre justiça e dogmatismo. Gomes se define como um progressista e explica que, justamente por isso, decidiu questionar esse tipo de militância. “Considero a ideia de que todas as pessoas são fundamentalmente iguais em dignidade e direitos, uma base espetacular para o contrato social. Aprecio a ideia de pluralismo e tolerância, assim como o princípio de que uma troca leal de argumentos é a melhor forma de gerenciar os conflitos de interesses que legitimamente colidem na sociedade”, afirma.

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Para o professor da Faculdade de Comunicação da Ufba, uma democracia consequente não pode conceder a grupos vítimas de injustiça, discriminação e preconceito a prerrogativa de serem, por sua vez, injustos ou operadores de novas formas de discriminação.

“Minha inquietação central é com agendas justas: combate ao racismo, ao sexismo e à discriminação. Que não precisam do dogmatismo nem do ‘ódio do bem’ promovido pelos identitários progressistas”, explica.

Segundo ele, quando a militância transforma divergência legítima em heresia e identidade em autorização para punir, “o pluralismo definha”.

E complementa: “Democracia consequente não terceiriza justiça a tribunais morais, nem concede excludentes de ilicitude a nenhum lado. A crítica é feita de dentro: não é regressão conservadora; é defesa de princípios liberais igualitários que valem para todos, inclusive quando ‘os nossos’ erram”.

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Construção da obra

O título A Tirania da Virtude nasceu do desconforto do autor ao perceber a exibição pública de virtudes se tornar ferramenta de coerção simbólica. “Eu queria nomear esse deslocamento: quando ‘estar do lado do bem’ passa a autorizar patrulha ideológica e de conteúdo, rituais de humilhação pública, censura, banimento e punição sumária a pessoas acusadas de cometerem deslizes morais, a virtude deixa de ser ‘virtuosa’ e se transforma em vício, em pura maldade”, afirma.

Gomes observa que esse comportamento é mais visível nos linchamentos digitais. “A tirania, então, não é da virtude em si, mas do uso moralizador que converte convicções em álibi e justificativa para o controle e o silêncio alheios e para as expedições punitivas que nos acostumamos a ver”, diz.

O autor explica que os capítulos sobre a “nova era da intolerância” e sobre o “mercado de virtudes” dão um enquadramento empírico ao que chama de radicalização moral nas redes. “Mostro o que os radicais da política identitária, tanto de direita quanto de esquerda, praticam na forma de grupos organizados, de indignação mobilizada e de recompensas reputacionais obtidas enquanto cancelam e assediam”, pontua. Para ele, esse processo culmina em formas de censura e ostracismo no espaço público e privado.

O livro nasce da pergunta: o que acontece quando a gramática das plataformas, viralidade, reforço da bolha e competição por foco, encontra uma gramática moral, que expressa tribalismo e hostilidade ao “outro lado”? “Minha resposta é analítica: cancelamento e linchamento não são anomalias; são estratégias comunicacionais adaptadas ao ambiente digital, com papéis claros (o vigilante, o infrator, o coro), rituais previsíveis (exposição, acusação e escala) e incentivos concretos (ganhos de visibilidade, de estima tribal, capital simbólico e, às vezes, capital político)”, explica o autor.

Segundo ele, a pesquisa permitiu organizar casos, distinguir retórica de evidência e conectar táticas comunicacionais a consequências institucionais, como o empobrecimento do dissenso, a retração das liberdades e a “balcanização da vida pública”.

Inspirações e referências

O autor explica que o horizonte teórico da obra é declarado logo na abertura: modernidade, Iluminismo e humanismo cristão. Gomes reconhece ecos habermasianos em sua defesa da troca pública de razões e da igualdade em dignidade e direitos como base de contrato social. “Não escrevo um tratado; componho um ensaio público armado por esses referenciais. Valorizo autonomia intelectual (‘sapere aude’), pluralismo como regra de convivência e a centralidade da argumentação leal para administrar conflitos”, afirma.

Imagem ilustrativa da imagem Novo livro denuncia 'patrulha ideológica' e cultura woke no Brasil
Foto: Divulgação

Sobre o autor

Doutor em Filosofia desde 1988, Wilson Gomes atua há mais de 30 anos na Universidade Federal da Bahia e há duas décadas como professor titular da Faculdade de Comunicação (Facom/UFBA). Pesquisador 1A do CNPq e coordenador do Instituto Nacional de Ciência & Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD), é autor de diversos livros, capítulos e artigos sobre comunicação política e política em meios digitais.

“Sou um pesquisador da área de democracia”, afirma. “Há anos estudo os novos fenômenos políticos que trouxeram de volta, na última década, para o debate público e para a política, um teor enorme de raiva, autoritarismo e intolerância: a extrema-direita e os adeptos da política identitária, tanto progressistas quanto de direita”.

O autor explica que pretende provocar três principais efeitos em seus leitores: “Primeiro, ceticismo saudável diante de moralismos performáticos: desconfie quando a virtude aparece de chicote na mão; nunca esteja do lado de quem empunha o chicote. Segundo, coragem ilustrada para argumentar sem dogmas, defender princípios – mesmo quando contrariam ‘os nossos’. Terceiro, apego prático aos pilares que nos permitem conviver em dissenso: direitos, liberdades, tolerância, contrato igualitário de fala”.

Ele conclui: “Se o leitor sair mais atento aos custos do punitivismo moral e mais comprometido com o trabalho difícil da persuasão pública, cumpri meu propósito”.

Lançamento do livro “A Tirania da Virtude” de Wilson Gomes / Terça-feira, 14, às 17h / Centro de Cultura Vereador Manuel Querino (Pelourinho)

A Tirania da Virtude / Wilson Gomes / Sagga Editora/ 250 páginas/ R$ 64,90 / @sagga.editora

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.

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