SALVADOR
Peça ‘Noivas’ volta aos palcos com olhar sobre escolhas femininas
Espetáculo de Cleise Mendes ganha nova montagem nesta quinta-feira, 24


Às vésperas do casamento, uma mulher procura uma costureira para fazer os últimos ajustes no vestido que usará no altar. O que parecia ser apenas mais uma etapa antes da cerimônia, porém, dá lugar a uma conversa sobre escolhas, imposições e os caminhos que uma mulher pode ou não decidir seguir.
É a partir desse encontro que se desenvolve “Noivas”, peça escrita pela dramaturga baiana Cleise Mendes em 1980 e que volta aos palcos de Salvador nesta quinta-feira, 24.
A montagem será apresentada uma única vez, às 20h, no Teatro Cambará da Casa Rosa, dentro do projeto Quinta da Casa. Com direção de Liz Vernin, o espetáculo chega ao público em uma nova roupagem e conta com uma equipe majoritariamente feminina nos processos de criação, direção e produção.
O que a peça ‘Noivas’ aborda?
A história acompanha Dora, que procura a costureira Lia para fazer os ajustes finais de seu vestido de noiva. Durante a conversa entre as duas, questões que ultrapassam o casamento começam a aparecer, colocando em dúvida certezas construídas em torno da vida a dois e do papel tradicionalmente atribuído às mulheres.
Quando foi escrita e encenada pela primeira vez, em 1980, “Noivas” foi considerada um “manifesto feminista”, pela maneira como abordava as expectativas colocadas sobre a mulher dentro da instituição do casamento.
Mais de quatro décadas depois, a montagem retoma essas discussões a partir de questões ainda presentes nas relações sociais e familiares. O texto aborda as imposições coletivas, sociais e familiares que podem influenciar comportamentos e escolhas que nem sempre correspondem aos desejos individuais.
Para a diretora Liz Vernin, a peça parte justamente da tensão entre silenciamento e autonomia. “Noivas aborda o silenciamento no lugar da escolha, é um convite a olhar a vida do ângulo em que nós mulheres podemos escolher o que queremos e como queremos”, afirma.
Segundo a diretora, a montagem também busca evidenciar formas menos explícitas de machismo presentes no cotidiano.
“Apesar de vivermos em um tempo em que se fala muito mais sobre o espaço da mulher na sociedade, o machismo estrutural e o patriarcado seguem presentes e incrustados no nosso dia a dia. Nem sempre as ações são escancaradas, nem toda violência é clara, e é nesse lugar que Noivas toca. É no não dito, no subtexto, é quando uma mulher precisa ser diminuída para que um homem apareça, é na escolha que tomam por ela, e é, também, na mulher que reproduz comportamentos machistas”, completa Liz.
Quem é Cleise Mendes?
Dramaturga, professora emérita da Universidade Federal da Bahia (UFBA), pesquisadora e integrante da Academia de Letras da Bahia, Cleise Mendes tem uma trajetória ligada ao teatro e à literatura baiana.
Entre suas obras estão “A Terceira Margem”, “Castro Alves” e “Joana d’Arc”. A autora também se dedica à reflexão sobre teatro e literatura. Seu livro “A Gargalhada de Ulisses: a catarse na comédia” foi indicado ao Prêmio Jabuti.
Em “Noivas”, escrita em 1980, Cleise aborda a condição feminina e diferentes formas de opressão presentes nas relações familiares e nas convenções sociais. A liberdade diante da repressão e o medo também estão entre as questões trabalhadas pelo texto.
Como funciona o projeto Quinta da Casa?
Realizado no Teatro Cambará da Casa Rosa, no Rio Vermelho, o Quinta da Casa tem como proposta fortalecer trajetórias artísticas e oferecer estrutura para a apresentação de produções de novos talentos.
A sala cênica tem formato múltiplo e capacidade para até 80 pessoas sentadas.
Após uma edição realizada em 2025, viabilizada pelo Edital Gregórios – Ano IV, da Fundação Gregório de Mattos (FGM), a Associação Viração, mantenedora da Casa Rosa, deu continuidade ao projeto em 2026, voltado ao apoio à produção artística local.
Serviço
- Quinta da Casa apresenta: Noivas
- Quando: quinta-feira, 24 de setembro de 2026, às 20h
- Onde: Teatro Cambará da Casa Rosa - Praça Colombo, 106, Rio Vermelho, Salvador
- Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)
- Vendas: plataforma Sympla
- Acessibilidade: arquitetura acessível e tradução em Libras
- Classificação: livre
A entrada é proibida após o início do espetáculo.