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NAS PONTAS DOS PÉS

Projetos de balé abrem novos horizontes e transformam vidas em comunidades de Salvador

A força do balé clássico na transformação social em Salvador

Priscila Dórea
Por Priscila Dórea
A Fundação Lar Harmonia oferece diversas oficinas gratuitas, incluindo aulas de balé, crochê e taekwondo
A Fundação Lar Harmonia oferece diversas oficinas gratuitas, incluindo aulas de balé, crochê e taekwondo - Foto: Uendel Galter | Ag. A TARDE

Entre becos e praças das comunidades de Salvador, o balé clássico se transforma em instrumento de inclusão social e esperança. Projetos culturais voltados para crianças e jovens vêm mudando rotinas familiares, fortalecendo vínculos e revelando talentos. Ao expandir horizontes e abrir novas possibilidades de futuro, o balé envolve famílias inteiras e, na ponta dos pés e na suavidade dos gestos, se torna uma ferramenta de transformação social em meio às adversidades.

“Sonho em ser bailarina profissional, professora e fazer muitas coisas dentro do balé, por isso entrar no projeto foi um sonho realizado”, conta Lilian Rayna, de 10 anos, aluna da unidade do Lobato do Instituto Dança Criança (IDC).

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Criado pela mestre em dança e professora registrada na Royal Academy of Dance (RAD), Marília Nascimento, o IDC já faz parte da vida de Lilian há quatro anos. Em 2026, ela, assim como a colega de turma Danmires Alves, de 12, está se preparando para o teste da RAD, a maior organização de exames e formação de professores de balé clássico do mundo.

Em 2024, nove crianças do IDC participaram dos exames da RAD e todas foram aprovadas. Em 2025, esse número aumentou para 13 crianças – novamente com 100% de aprovação.

Em 2026, o Instituto (somando alunas da unidade do Lobato e de Pituaçu) já tem 32 crianças inscritas para prestar os exames – tudo custeado pelo IDC.

“É um projeto onde aprendemos muito, mesmo quando erramos. O teste da Royal é difícil e importante, mas nos dá orgulho de ver até onde chegamos”, afirma Danmires.

A tia da jovem, Danmures Neves Alves, destaca que o balé tornou a sobrinha mais confiante, focada e desenvolta. “Quando eu era criança, sonhava em ser bailarina e ela está realizando esse meu sonho agora. Ver a Danmires se preparando para o teste da Royal é motivo de orgulho e prova de que, mesmo no Subúrbio, existem talentos e futuros brilhantes esperando por oportunidade”, afirma a tia orgulhosa.

Professora no IDC Lobato – que TEM parceria com a Paróquia Nossa Senhora das Dores, dentro do projeto Reforço Escolar da Rainha –, Serenna Silva, de 23 anos, explica que se sente muito realizada em poder ensinar outras meninas dentro de um projeto social.

“Voltar, agora como professora, para um espaço que enfrenta carência e vulnerabilidade é desafiador, mas também prazeroso. A arte tem esse poder de mudar vidas. Quando uma criança recebe investimento e incentivo de um adulto, ela descobre que é capaz e encontra novos objetivos. O balé é mais do que dança, é um refúgio que trabalha corpo, mente e emoções, e dá às crianças a chance de assumir o lugar de bailarinas, com disciplina e confiança”, afirma a professora.

Idealizadora do IDC, Marília Nascimento salienta que o balé vai além de aprender passos. “A criança cria vínculos, aprende a conviver com as diferenças, percebe seus limites e suas possibilidades. E para crianças em situação de vulnerabilidade social, o acesso continuado às artes amplia referências e possibilidades. Elas passam a frequentar teatros, assistir a espetáculos, conhecer artistas, subir ao palco e descobrir universos que talvez não fizessem parte de seu cotidiano”, explica.

Além do Lobato – onde o projeto atende 30 crianças –, o IDC tem outra unidade em Pituaçu em parceria com a Cidade da Luz, com as aulas de balé sendo desenvolvidas no âmbito do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) da instituição. Lá, o projeto atende 98 crianças e adolescentes, entre elas a Lorena, de 10 anos, filha da diarista Mara Gonçalves.

“A gente mora em uma comunidade, onde nem sempre existem muitas oportunidades, então ver minha filha participando de algo tão bonito e reconhecido me enche de esperança”, diz a matriarca.

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Visão ampliada

“A dança não é apenas uma atividade, ela é um caminho de construção de si, de fortalecimento da autoestima, disciplina, sensibilidade e pertencimento”, fala a coordenadora do Curso Preparatório da Escola de Dança da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), Luciana Costa.

Na vida de crianças e jovens em comunidades mais vulneráveis, estamos falando, muitas vezes, de sujeitos que historicamente tiveram seus direitos negados, afirma a diretora do Centro de Formação em Artes da Funceb, Nildinha Fonsêca. “Inclusive o direito ao acesso à cultura. É nesse ponto que a dança se revela como ferramenta profundamente potente: ela atravessa o corpo, a identidade, a memória e o pertencimento”, diz.

Cientista social e mestrando em estudos da ocupação, Lucas Andrade Monteiro de Castro explica que a arte sozinha não transforma a realidade, mas abre brechas importantes para possíveis mudanças estruturais.

“A arte ajuda a devolver à criança um tempo de criação e um corpo livre da repetição, criando pertencimento, vínculo e possibilidade de vislumbrar um futuro diferente. Fortalece a coletividade, a rede de apoio e permite que toda a comunidade experimente outras possibilidades de relação com a sociedade e com o tempo”, afirma.

No entanto, Lucas alerta para a visão assistencialista e aborda a importância do acesso à cultura como direito. “Investir em cultura não é caridade nem marketing. É um compromisso com o futuro e causas importantes para a sociedade. Ao apoiar iniciativas artísticas nesses territórios, se está financiando tempo livre, criação, desenvolvimento, senso coletivo e pensamento crítico. É ajudar a tirar crianças e jovens da lógica da sobrevivência imediata ou do crime organizado. Uma comunidade com acesso à arte tem mais vínculo, senso de pertencimento, autonomia e é menos vulnerável”, argumenta.

Apoios

Com as atividades 100% gratuitas, o IDC, que nasceu em 2017, além de uma empresa amiga do projeto - a Trevo Empreendimentos -, criou a “Amigos do Dança Criança”, uma rede de pessoas que fazem contribuições mensais.

Já o Projeto Crescer é Preciso, da Fundação Lar Harmonia, que oferece de forma gratuita inúmeras oficinas – do taekwondo ao crochê, além, claro, de balé –, está sempre atrás de patrocinadores, parcerias, doações, editais e recursos das leis de incentivo.

“O maior desafio é garantir recursos financeiros para manter a qualidade das atividades. Além das aulas gratuitas com professores qualificados, os alunos recebem todo o material necessário sem custo para as famílias. Um avanço importante foi a aprovação parcial na Lei Rouanet, que fortalece o financiamento das ações, mas ainda há necessidade de novos apoios”, explica a gerente de projetos da Fundação, Tarciana Menezes.

Hoje, o balé da Fundação tem 11 turmas e 116 bailarinos – meninas e meninos –, entre eles a Ana Clara, de 15 anos, aluna há sete. “Desde pequena eu sonhava em dançar, principalmente por causa das expressões e a força da dança que via nos filmes e apresentações que assistia”, conta.

Já Thalita Santana Pontes, de 18, se interessou pela dança através de desenhos. “Hoje, meu maior sonho é continuar na dança, expandir para além do balé e evoluir cada vez mais nas habilidades. Projetos como este são fundamentais, pois nem todos têm a oportunidade de dançar por tanto tempo”.

Já a bailarina Vitória Beatriz, de 17 anos – que faz balé na Fundação há 10 anos –, salienta que “em projetos gratuitos, mas com grande qualidade como esses, é onde encontramos a oportunidade de realizar sonhos e mostrar todo o potencial que temos”.

Bailarina principal do Festival Ballet Harmonia em 2026 - ela será a Dorothy d'O Mágico de Oz -, Gleice Tainá, de 13, explica que o que a mais encanta é ver como cada movimento pode contar uma história. “O balé exige força de vontade, responsabilidade e dedicação”, afirma a jovem.

A avó de Gleice, Lindalva da Conceição Rodrigues confessa que ver a neta no balé é a realização de um sonho. “Cada ano que passa, vejo o empenho dela crescer e isso me enche de alegria. Agradeço muito à Fundação e às professoras, que além de ensinar, aconselham e acompanham essas adolescentes de perto. Quando ela chegou em casa dizendo que seria a principal do espetáculo, foi uma felicidade imensa”, afirma Lindalva, agradecida.

As falas das jovens e de seus responsáveis deixam evidente que o acesso de crianças e adolescentes a projetos culturais contribui de forma significativa para o desenvolvimento social e emocional. A assistente social da Fundação Lar Harmonia, Rosângela Coelho de Souza, reforça que a prática do balé se consolida como uma poderosa ferramenta de transformação na vida dos mais jovens.

“Contribui positivamente para o desenvolvimento psicoemocional dos mesmos, pela possibilidade de expressão dos sentimentos através da arte, e, consequentemente, fortalece o senso de confiança e autoconfiança, o que muito os auxilia na construção de sonhos e objetivos de vidas, projeto este de grande importância social”, afirma.

Investimentos públicos fortalecem projetos

Garantir a sobrevivência e o crescimento de projetos culturais voltados para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade depende, sobretudo, de uma gestão atenta a editais e mecanismos públicos de incentivo. No balé, por exemplo, esses recursos são o que tornam possível não apenas a continuidade das aulas gratuitas, mas também a ampliação do alcance e do impacto social da dança, transformando disciplina e arte em oportunidades concretas de futuro.

“Na nossa experiência, percebemos que o acesso à formação em dança transforma trajetórias. A dança cria espaços de pertencimento, fortalece vínculos, estimula a permanência na escola e amplia perspectivas de futuro, não apenas para os estudantes, mas também para suas famílias e comunidades. Por isso, perder um edital significa, muitas vezes, perder a chance de alcançar mais pessoas que poderiam se beneficiar diretamente dessas experiências”, explica a coordenadora do Curso Preparatório da Escola de Dança da Funceb, Luciana Costa.

Além do aspecto financeiro, os editais também ajudam a estruturar e qualificar os projetos, alinhando-os às políticas públicas e fortalecendo seu compromisso social.

“Um exemplo disso é a previsão de abertura, em outubro deste ano, de um novo edital para o Curso Preparatório, que pretende ampliar o atendimento com mais 24 vagas. Essa ampliação reforça nosso compromisso com a democratização do acesso à dança e com a formação desde a infância, permitindo que mais jovens tenham a oportunidade de vivenciar a dança como direito, como linguagem e como possibilidade real de transformação”.

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