CULTURA
"Quando o povo aprova, você vai longe", diz Moraes Moreira


Na escola, Moraes Moreira gostava de ler Olavo Bilac e Casimiro de Abreu, achava legal o que eles escreviam, mas a sua ação como letrista demorou um pouco. Seguiu pela música enquanto arranjador de notas e deixava a cargo de Galvão, quem ele considera um grande poeta, a parte de transmitir a poesia por meio das palavras.
Ao se desmembrar dos Novos Baianos, Moraes precisou mudar. “Quando parti para carreira solo, me vi sozinho. Falei, vou ter que me virar, aí comecei a fazer letra. Fiz uma letra para música de Osmar, que virou Pombo Correio. Foi meu primeiro sucesso de letra. Aí quando o povo aprova, você vai longe”, declara.
O compositor afirma que essa foi a primeira aproximação, de certa forma, com o fazer poético, mas dá destaque a um acontecimento em 2008. “Comecei a me interessar por cordel, escrevi a história dos Novos Baianos toda assim, 900 e tanto versos. Lancei o livro e foi super bem recebido, vendeu mais de cinco mil”, conta.
Depois, foi convidado pela Academia Brasileira de Literatura de Cordel para ocupar a cadeira 38, de Manoel Monteiro. “Aí a poesia invadiu a minha vida”, garante.
Moraes, que diz ter sido tomado pela poesia depois dos 50 anos, é contundente: “Poeta Não Tem Idade”. E é com essa frase que ele batiza seu novo livro, que será lançado nesta quinta-feira, 5, às 20 horas, no Café-Teatro Rubi.
Entre versos que começam mais metrificados e depois se soltam, o poeta escreve sobre a Praça Castro Alves, Senhor do Bonfim, e suas influências, como Tom Zé. “Ele foi quem me ensinou, foi meu mestre no começo, me deu aulas de violão, foi o primeiro cara que me disse que eu tinha talento para seguir na música”, declara.
A parceria rende até hoje, já que será exibido o clipe da música Obrigado, Tom Zé, feita por Moraes, durante o lançamento do livro, dentro da programação que faz parte do Festival Moraes Moreira.
Mulher de luta e poesia
Nesta vida de poeta, além do cordelista Leandro Barros, Moraes lê nomes como Neruda, Leminski, Mautner, Vinicius de Moraes e Capinan. Moraes retrata a mulher como sinônimo de luta, de forma contemporânea, no decorrer do livro, a exemplo de O Dia Internacional da Mulher.
“O ser é homem e mulher. Então, enxergo assim, a natureza é mãe, é mulher, porque através dela vem tudo, a gente nasce da mãe. Falo de Elisa Lucinda, mulher libertária. Acho que é essa mulher que a gente também se apaixona”, refere-se à poetisa, com a qual troca elogios dos poemas.
“As mulheres vão tomar conta desse país, e as mulheres já estão tomando seu lugar no mundo. Falo isso na poesia. Já dizia isso, a força que tem a mulher brasileira na música: Lá vem o Brasil descendo a ladeira”, afirma. “Falo da mulher da luta, que tá tomando seu lugar, mulher que não aceita mais a submissão, mulher que se libertou, agora não é mais da cozinha, já tem até empresária”, emenda.
Perto de completar 70 anos, Moraes acha difícil a Prefeitura e o governo do Estado não viabilizarem o carnaval dele. “Se eles não fizerem isso, vão ter que responder para o povo, porque querem Moraes Moreira no Carnaval”, assegura.
“Tem um povo que quer isso, porque tá cansado desse carnaval da Bahia repetitivo. Quer alguma música que tenha poesia, e eu sempre fui cronista do carnaval”, garante, ao informar que vai tocar em dois dias na festa deste ano.