CULTURA
Teatro por R$ 10: espetáculo faz sessão especial em Salvador
Inspirado em Conceição Evaristo, 'Meus Cabelos Baobá' celebra a força da mulher negra

Por Júlio Cesar Borges*

Uma árvore ancestral que guarda memórias, corpos que cantam e histórias que se reconhecem. É dessa forma que acontece o espetáculo Meus Cabelos Baobá, em curta temporada de verão no Teatro Jorge Amado até o próximo domingo, dia 18.
Hoje à noite, a montagem ganha uma sessão especial a preços populares, com ingressos a partir de R$ 10. De sexta-feira a domingo, os valores variam entre R$ 60 e R$ 25, com vendas pelo Sympla e na bilheteria do teatro.
Em cena, as atrizes Luana Xavier, Márcia Limma e Meniky Marla conduzem o público por uma fábula poética sobre o feminino negro, acompanhadas das musicistas Aisha Araújo, Ingride Nascimento, Ivone Jesus e Meg Azevedo, que executam ao vivo a trilha sonora.
A montagem se constrói como um rito de passagem e celebração ancestral, tendo o baobá, árvore sagrada símbolo de força, memória e sabedoria, como eixo central da narrativa.
A dramaturgia apresenta a trajetória de uma menina negra que atravessa a infância, maturidade e ancestralidade. Inspirada pelas mitologias africanas e pela escrita de Conceição Evaristo, a obra costura canto, dança, memória e resistência, além de colocar o corpo negro feminino como território de criação, enfrentamento e reinvenção.
Dirigido por Fred Soares e Luiz Antonio Sena Jr., o espetáculo nasceu a partir de uma experiência marcante deste primeiro com o texto. “Em 2019, vi a montagem original desse texto, no Rio de Janeiro, com atuação da autora Fernanda Dias e com direção de Wilma Melo. Sai da plateia muito impactado com a força da atriz, que imprimia sua vivências ao longo da vida no espetáculo para falar sobre a força ancestral”, relembra Fred.
Segundo ele, a encenação atual surge também de um reposicionamento pessoal e artístico. “Em 2022 me tornei Sacerdote de Orixá (Babalorixá), pelas mãos de Oxum, e entendi que ali começava um caminho novo, dentro da minha trajetória enquanto produtor”.
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Musical ancestral
Para o diretor, a história não se ancora em uma personagem única. Serve como espelho para quem assiste. “A história não tem uma personagem nominal porque sempre entendi que o texto deveria ser um espelho de quem estivesse na plateia, por isso chamamos todas de Rainhas. Todas são Rainhas: elenco, musicistas e mulheres da plateia”.
Fred define a obra de forma direta: “Um espetáculo musical ancestral”. A encenação aposta em uma estética que valoriza sustentabilidade, naturalidade e reconexão com a natureza e os saberes ancestrais.
O palco é forrado por cerca de 1,5 tonelada de terra viva, que, junto à árvore cenográfica criada por Pedro Caldas, se torna elemento central da plástica da montagem. “São elementos visuais e também sensoriais que a plateia percebe desde a entrada no teatro, quando são recebidos por fragrâncias de alfazema e incenso”, conta Soares.
Os figurinos, assinados por Luciano Santana, dialogam com os processos de amadurecimento da mulher negra e trazem simbologias ligadas a Oxum, orixá presente nas religiões de matrizes africanas. “São referências às vestimentas do amadurecimento de uma mulher negra, com simbologia e códigos que remetem aos caminhos de Oxum dentre os dogmas do Candomblé”, detalha Fred.
Ancestralidade em cena
Para Meniky Marla, a construção da personagem atravessa diferentes idades e camadas emocionais. “A construção dessa rainha foi uma junção de intensidade, leveza e fluidez”, afirma.
Segundo a atriz, o processo envolve infância, maturidade e ancestralidade, além da presença simbólica de Oxum.
“Acionar a todo momento o sagrado feminino que me habita e convocar toda a ancestralidade que carrego das minhas velhas e também das minhas mais novas, foi e continua sendo fortalecimento não apenas da personagem, mas também de mim mesma”, conta Meniky.
Luana Xavier destaca a dimensão coletiva e ancestral do processo criativo. “Foi um trabalho de muita profundidade, delicadeza e afeto”, afirma. Para ela, a conexão entre as atrizes foi imediata. “É como se nos conhecêssemos há tempos. E eu tenho certeza que essa troca tão forte está diretamente ligada a nossa ancestralidade”, acredita.
A atriz também relaciona o espetáculo à continuidade de um legado. “Luana Xavier pode subir no palco e contar a história de seu povo, porque antes dela Chica Xavier, Ruth de Souza, Léa Garcia e tantas outras ocuparam esses espaços”, lembra. “Me sinto muito honrada por dar continuidade ao legado dessas atrizes incríveis”.
Apesar de abordar a influência ancestral, Fred reforça que o espetáculo não tem caráter religioso. “Essa não é uma peça religiosa. É uma peça para todos os públicos, para todos aqueles que acreditam na força da resiliência e do amor/poder próprio”, afirma.
A atual temporada acontece de forma independente, sem incentivo ou patrocínio, o que impossibilitou a oferta de recursos de acessibilidade nesta edição.
Meus Cabelos Baobá / Hoje, 20h, a partir de R$ 10 / Amanhã, 20h, R$ 50 e R$ 25 / Sábado (19h) e domingo (18h), R$ 60 e R$ 30 / Teatro Jorge Amado (Av. Manoel Dias da Silva, 2177, Pituba) / Vendas: Sympla e bilheteria TJA
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.
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