DETALHE TÁTICO
Dá caldo?


Tenho um amigo engraçado. Dotado de ousadia e capacidade de enfrentamento que não combinam com seu mirrado tipo físico. Sua maior alegria é estimular discussões intermináveis com argumentos malucos. Entre outras pérolas, já disse que o Palmeiras não está entre os 20 maiores times do país, que a carreira de Souza Caveirão supera a de Evair e que falsificar carteirinha de estudante é uma falta tão grave quanto dirigir embriagado.
Essas afirmações confundem-se entre visão distorcida da realidade e desejo de chocar. Diferente de outro caso, que julgo como, provavelmente, uma paixão febril. Do fundo do peito. Por mais que fatos concretos pudessem levar a um sentimento oposto, ele sustentava o amor doentio por Feijão. Com 'efe' maiúsculo de futebol, não de ferro, o nutriente que nos oferecem as queridas sementinhas.
Jogador com história de vida de superação e de entrega total em campo, Feijão, de cara, conquistou a simpatia da torcida do Bahia, que já idolatrou outros atletas com o mesmo perfil, como Baiaco (década de 70) e Lima (anos 90).
Só que o filho de Dona Altamira acabou se perdendo. E eu tenho uma teoria sobre o motivo. Ela me veio à mente depois de assistir, incrédulo, ao gol da vitória do Atlético-GO sobre o Bragantino na última sexta-feira. Emprestado ao Dragão de Goiás, ele protagonizou, logo em sua segunda partida pelo clube, um lance que jamais fez nem parecido pelo profissional do Bahia (veja acima, no infográfico).
Em contra-ataque, desprezou os tolos que limitam o papel do primeiro volante a marcar e distribuir o jogo, e desorientou a defesa do Braga. Encontrou o atacante Juninho com um lançamento de cerca de 35 metros e disparou para uma corrida de 45 metros em pouco mais de cinco segundos.
Ao receber a bola de volta, exibiu inteligência futebolística que eu até então considerava inexistente. Deixou-a passar por entre as pernas e ela chegou a Júnior Viçosa, que chutou para o gol.
Recuperado após o choque de ter visto tão improvável jogada, lembrei de outro lance no qual Feijão mostrou a mesma ousadia ofensiva. Foi na Copa São Paulo de 2013, em duelo contra o Corinthians. Ele entrou na área para aproveitar cruzamento da direita e fazer, de cabeça, o único gol do jogo.

Pé de feijão
E qual seria a razão para, no Bahia, ele não ter sido capaz de produzir lances semelhantes? Minha teoria é que Feijão, toda vez que vestia a camisa tricolor, incorporava um personagem. Que divertia torcedores com demonstrações exageradas de raça, arrancava risos com jogadas em que se revelava absolutamente desprovido de apuro técnico, e estimulava a galera, com sua vibração a cada desarme, a gritar seu nome para festejar lances banais.
Virou um mito, uma figura folclórica, um João do Pé de Feijão sem Galinha dos Ovos de Ouro. Afinal, a situação do clube havia de se tornar séria e sua performance 'apaixonada' passou a não divertir mais.
É possível que, no prosseguimento de sua carreira, em clubes como o Atlético-GO, por exemplo, ele consiga mostrar suas qualidades sem o peso de ter que se sacrificar a todo instante para justificar a existência do absurdo personagem.
Ou o contrário. É provável que ele só volte a aparecer quando protagonizar lances curiosos - bons ou ruins - para sustentar o mito. Sobre o que Feijão fez na sexta, meu amigo disse apenas "eu já sabia". Essa é outra figura rara...