ECONOMIA
Empresa brasileira aposta R$ 3 bilhões em projeto de terras raras
Mineradora amplia exportações, busca investidores e planeja criar cadeia produtiva de terras raras
As chamadas terras raras ganharam protagonismo na mineração mundial e passaram a despertar o interesse de investidores em diversos países. De olho nesse mercado estratégico, a ADL Mineração quer ampliar sua participação no setor e aposta em projetos bilionários para transformar o Brasil em um fornecedor relevante desses minerais considerados essenciais para tecnologias de ponta.
A empresa atua na produção de metais pesados como monazita, ilmenita, rutilo e zirconita, matérias-primas utilizadas em setores que vão da indústria aeroespacial à medicina. À frente da companhia está a empresária brasileira de origem sul-coreana Adelina Lee, que ocupa a presidência da ADL há dois anos.
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Operação se divide entre Rio de Janeiro e Bahia
Atualmente, o principal foco da ADL está na monazita, mineral rico em óxidos de terras raras. O beneficiamento ocorre em instalações localizadas em Buena, no município de São Francisco de Itabapoana, no litoral fluminense. A estrutura foi arrendada da Indústrias Nucleares do Brasil (INB) por um período de 30 anos, em contrato firmado em 2024.
Além do Rio de Janeiro, a empresa mantém operações no sul da Bahia, nos municípios de Alcobaça e Belmonte, onde possui concessões para pesquisa e lavra de metais pesados.
Esses materiais são utilizados na produção de motores elétricos, turbinas eólicas, geradores, equipamentos aeroespaciais, tecnologias de defesa, além de aplicações em medicina e pesquisa científica.
Segundo Gilberto de Campos, cada tonelada de monazita pode conter cerca de 700 quilos de elementos de terras raras. No Brasil, o mineral é encontrado principalmente nas chamadas areias monazíticas presentes nos litorais da Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro.
Reserva gigante, mas desafio tecnológico
Embora o Brasil possua a segunda maior reserva de terras raras do planeta, estimada em 22 milhões de toneladas e atrás apenas da China, o país ainda enfrenta obstáculos para avançar na cadeia produtiva.
O principal desafio está no domínio das tecnologias de separação, refino e fabricação dos produtos finais, especialmente os ímãs permanentes, segmento liderado pelos chineses.
A disputa por esses minerais ganhou ainda mais relevância nos últimos anos devido ao cenário geopolítico envolvendo China e Estados Unidos, que disputam liderança em áreas estratégicas ligadas à tecnologia e à defesa.
Outro fator que exige controle rigoroso é a presença de elementos radioativos associados às terras raras. No caso da monazita explorada pela ADL, o teor de urânio é de apenas 0,3%, enquanto o de tório chega a 6%, segundo o consultor da companhia.
Primeira exportação após seis anos
Recentemente, a ADL realizou a primeira exportação brasileira de monazita desde 2019. O carregamento, com 16 toneladas, foi enviado para o Canadá por meio de uma parceria com uma empresa especializada em tecnologias para terras raras.
A meta da mineradora é embarcar entre 500 e mil toneladas ainda neste ano. Em um horizonte de dois anos, o objetivo é alcançar a marca de 3 mil toneladas exportadas.
“Neste momento, nosso foco começa com a retomada das exportações de monazita e aprimoramento de sua pureza com instalação de equipamentos adicionais para atingir 98%. Já estamos acima de 92%”, disse Lee, em entrevista ao Estadão.
Primeiro projeto prevê aporte de R$ 350 milhões
O plano inicial da companhia envolve a produção de cloreto de terras raras, um concentrado que reúne diversos minerais valiosos e serve como matéria-prima para as etapas seguintes de separação e aplicação industrial.
O investimento previsto para essa fase é de US$ 70 milhões, cerca de R$ 350 milhões.
Segundo Adelina Lee, a tecnologia necessária para a implantação do projeto já está disponível dentro da empresa, mas a velocidade da execução dependerá da entrada de investidores.
“A tecnologia já temos dentro da ADL. O que pode acelerar esse processo é capital, mas com recursos próprios pode demorar três anos.”, disse ao Estadão
A previsão é que essa etapa esteja concluída até o fim de 2027.
Projeto bilionário mira produção em larga escala
O plano mais ambicioso da mineradora envolve a construção de uma instalação industrial para separação dos elementos de terras raras em território nacional.
O empreendimento demandaria cerca de US$ 600 milhões, valor equivalente a aproximadamente R$ 3 bilhões.
A expectativa é beneficiar até 20 mil toneladas mensais de minério pesado.
“Estamos conversando com investidores que queiram montar o projeto no Brasil”, afirmou Lee.
De acordo com a executiva, a empresa já possui memorandos de entendimento com uma companhia estrangeira que poderá transferir tecnologia baseada em robótica e inteligência artificial para o processo de separação dos minerais.
As negociações envolvem investidores dos Estados Unidos, China, Canadá, Austrália, Coreia do Sul e Japão.
“Nosso objetivo é ter esse projeto aqui no Brasil, onde temos o minério, com tecnologia em fase de desenvolvimento. Criar uma cadeia produtiva no País.”, declarou.