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CRIATIVIDADE

Moda circular em Salvador: guia do garimpo popular que pulsa na cidade

Segmento vem ganhando força pelas ruas da capital baiana

Agatha Victoria Reis
Por
Brechó em Salvador
Brechó em Salvador - Foto: Shirley Stolze/ Ag. A TARDE

Brechós, feiras e lojas de roupas usadas têm conquistado cada vez mais consumidores em Salvador. Impulsionada pela busca por economia, exclusividade e sustentabilidade, a moda circular vem fortalecendo a economia criativa e transformando hábitos de consumona capital baiana.

A expansão do setor tem ganhado força, especialmente entre jovens e mulheres, consolidando-se como uma importante fonte de renda para o empreendedorismo feminino.

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Segundo levantamento do Sebrae Bahia, cerca de 700 mil mulheres comandam empreendimentos no estado. Parte desse crescimento está ligado a nichos como a moda circular, que exige baixo investimento inicial, permite atuação digital e dialoga diretamente com pautas ligadas ao consumo consciente.

O panorama do mercado de segunda mão

O crescimento dos brechós acompanha projeções globais e nacionais de mercado. De acordo com o ThredUp Resale Report, realizado em parceria com a GlobalData, o mercado global de segunda mão deve atingir um faturamento de US$ 350 bilhões até 2027, crescendo cerca de três vezes mais rápido do que o setor de vestuário global em geral.

No Brasil, o cenário é impulsionado pelo processo inflacionário e pela perda do poder de compra da população nos últimos anos. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o item "Vestuário" acumulou altas sucessivas acima do índice geral da inflação em períodos recentes, empurrando o consumidor para canais alternativos.

O impacto ambiental da indústria têxtil

A indústria têxtil figura entre as atividades econômicas com maior pegada ecológica do planeta, gerando grandes volumes de resíduos e demandando uso intensivo de água e produtos químicos no processo fabril.

A Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que a indústria da moda é responsável por cerca de 8% a 10% das emissões globais de gases de estufa, superando os setores de aviação e navegação somados.

Além disso, estima-se que a produção de uma única calça jeans consuma aproximadamente 10 mil litros de água, desde a plantação do algodão até o acabamento final do tecido.

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No Brasil, o volume de resíduos têxteis impressiona: o país gera cerca de 4 bilhões de toneladas de resíduos por ano, das quais apenas uma fração insignificante é reciclada, de acordo com dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).

Em Salvador, grande parte do descarte têxtil residencial acaba sobrecarregando o Aterro Sanitário Metropolitano de Salvador (ASMS).

Nesse contexto, a reutilização de roupas atua diretamente na extensão do ciclo de vida dos produtos. Ao recolocar uma peça em circulação, reduz-se a demanda por nova matéria-prima e evita-se que tecidos sintéticos terminem em lixões ou praias da capital.

Da pandemia ao empreendedorismo

Isso se reflete na trajetória da fundadora da Poppy Bazaar, Cristiane Freitas da Silva, de 58 anos. Ela conta que o negócio surgiu durante a pandemia de Covid-19, a partir de uma iniciativa simples entre amigas que buscavam dar um novo destino a roupas que já não utilizavam.

O projeto acabou se transformando em uma oportunidade de empreendedorismo e marcou um ponto de virada em sua trajetória profissional. “Recebemos uma enxurrada de pessoas procurando roupas criativas, uma curadoria mais inusitada, mais criativa e mais ousada”, afirmou em entrevista ao A TARDE.

Imagem ilustrativa da imagem Moda circular em Salvador: guia do garimpo popular que pulsa na cidade
Foto: Divulgação

Para a empreendedora, o mercado que cresce tanto em volume quanto na necessidade de diferenciação é "sinônimo de conscientização, criatividade e motivo de orgulho".

O processo de curadoria envolve etapas rígidas de higienização, reparo de costura e seleção estética, o que agrega valor ao produto final e distancia o brechó moderno da antiga imagem de depósito de roupas velhas.

O fim dos estigmas em Salvador

Apesar da crescente popularidade dos brechós, o consumo de roupas de segunda mão ainda é cercado por estigmas, como a associação das peças a "roupas de morto" ou à suposta transmissão de energias negativas.

Em Salvador, no entanto, esses preconceitos perdem a força. Para muitas famílias, os brechós já fazem parte da rotina de consumo, não apenas na compra de roupas, mas também de utensílios domésticos e objetos de decoração.

SALVADOR LAPA REALIZA EVENTO INÉDITO DE MODA, EMPREENDEDORISMO E CONSUMO CONSCIENTE Na foto: Bazar de brechó no terminal da Lapa Foto: Olga Leiria / Ag. A TARDE Data: 16/03/23
SALVADOR LAPA REALIZA EVENTO INÉDITO DE MODA, EMPREENDEDORISMO E CONSUMO CONSCIENTE Na foto: Bazar de brechó no terminal da Lapa Foto: Olga Leiria / Ag. A TARDE Data: 16/03/23 - Foto: Olga Leiria / Ag. A TARDE

Consumidor desde a infância, influenciado pela mãe, o bacharel em Saúde, Felipe Alexandre Neres dos Santos, de 27 anos, conta que os brechós sempre estiveram presentes em sua vida. Segundo ele, era comum frequentar feiras de bairro, bazares promovidos por igrejas e eventos realizados no Parque da Cidade.

"O brechó está na minha vida desde a infância e é algo que pretendo continuar fazendo e, quem sabe, passar para os meus filhos", afirma Felipe.

Impulsionada pelas redes sociais e pelo consumo incentivado por influenciadores digitais, atuais formadores de opinião, a moda circular tem alcançado novos públicos.

“São peças boas, compradas por um preço acessível e que continuam sendo muito elogiadas. As pessoas estão deixando de lado aquela ideia de que brechó vende ‘roupa de quem já morreu’. Na verdade, são roupas que precisam de novos usos, de novos corpos para vestir”, destaca Felipe Alexandre.

Imagem ilustrativa da imagem Moda circular em Salvador: guia do garimpo popular que pulsa na cidade
Foto: Divulgação

Para a fundadora da Poppy Bazaar, os preconceitos em relação aos brechós “tem ficado para trás”, enquanto as novas gerações vêm consumindo produtos que se unem ao manifesto sustentável e resgatando a moda vintage.

Economia e sustentabilidade

A moda circular substitui o modelo linear tradicional de consumo, baseado em extrair, produzir, descartar, para focar na reutilização, reciclagem e na criação de peças duráveis, reduzindo o impacto ambiental.

Para o CEO do Brechó Marsalla, Marcos Tapp, de 21 anos, essa mudança ganhou força à medida que os consumidores passaram a observar com mais atenção os impactos do comércio. "Esse movimento já estava acontecendo, mas teve uma crescente marcante graças ao público", destacou.

Imagem ilustrativa da imagem Moda circular em Salvador: guia do garimpo popular que pulsa na cidade
Foto: Divulgação

Entre os fatores que têm afastado consumidores dos altos preços praticados por lojas de departamento e impulsionado o crescimento dos brechós está a busca por peças de melhor qualidade e com preços mais acessíveis.

Para consumidores, assim como Felipe Alexandre, roupas de brechó apresentam maior durabilidade em comparação a itens fabricados em larga escala pela indústria.

“As indústrias que trabalham em grande escala, que não prezam tanto pela qualidade, mas pela quantidade, vão aumentando cada vez mais o preço porque não estão lucrando em cima do que foi produzido, já que as pessoas não estão comprando”, afirmou o consumidor.

Imagem ilustrativa da imagem Moda circular em Salvador: guia do garimpo popular que pulsa na cidade
Foto: Divulgação

Assim, a moda circular se mostra mais do que uma nova forma de economia: representa um reencontro com valores ligados à identidade, à criatividade e ao consumo consciente.

Uma tradição brasileira que atravessa gerações

Embora o crescimento dos brechós esteja associado às discussões atuais sobre sustentabilidade e consumo consciente, o hábito de comprar e vender produtos usados faz parte da cultura brasileira há muito tempo.

Pouca gente sabe, mas a palavra "brechó" é genuinamente brasileira. A origem mais conhecida remete a um comerciante chamado Belchior, que mantinha uma loja de roupas, livros e móveis de segunda mão no Rio de Janeiro durante o século XIX.

O estabelecimento se tornou referência, e a expressão "loja do Belchior" passou a denominar estabelecimentos do gênero, sofrendo adaptações pela linguagem popular até se consolidar como "brechó".

Onde encontrar moda circular em Salvador?

Na capital, os espaços se espalham pelo Centro Histórico e por bairros boêmios como Santo Antônio Além do Carmo, Rio Vermelho, Barra e Piedade.

De brechós físicos e online a espaços especializados em moda vintage, camisas de futebol e peças criativas, o portal A TARDE selecionou opções de moda circular na capital baiana para quem busca economia e criatividade. Confira:

  • Encontro de Brechós (@encontrodebrecho.s): evento reúne empreendedores, curadores e bazares, com acessórios e vestuários acessíveis. Os encontros são sazonais.
  • Poppy Bazaar (@poppybazaar): localizado na Av. Sete de Setembro, 3655 - Porto da Barra. Funciona como um casarão cultural e espaço colaborativo permanente na Barra, além de promover feiras de rua sazonais.
  • Brechó Marsalla (@brechomarsalla): focado em garimpos especializados e itens de acervo, com forte atuação em vestuário vintage e camisetas de futebol antigas e raras.
  • Barganhei Brechó (@barganheibrecho): situado na Rua Eugênio Ribeiro, 290 (Doron). O diferencial de sua sede física é reunir 5 brechós em um único lugar. Além de atuar com vendas online.
  • Brechó QuerUsar (@querusar): localizado na Rua Dra. Praguer Fróes, 155 - Barra. É instalado em uma casa antiga tradicional, conhecido por sua curadoria em moda feminina, masculina e infantil.
  • Pretas Brechó (@pretas_brecho): Iniciativa independente está presente no formato digital. A loja também participa de feiras como o Encontro de Brechós.
  • Fresh Salcity Brechó (@freshsalcity): Espaço físico localizado no bairro de Brotas, conhecido por apresentar uma curadoria focada em uma pegada de moda urbana
  • Humanas Brasil (@humanabrasil): A loja fisica está presente nos bairros da Piedade, Uruguai, Itapuã e Cajazeiras. Amplamente conhecida na capital, a iniciativa contém contêineres de arrecadação de roupas, calçados e acessórios de segunda mão.

*Com acompanhamento e supervisão da repórter Isabela Cardoso.

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