ECONOMIA
Gigante das roupas prevê demissões em massa: "Não tem milagre"
André Farber afirmou que decisão do governo pode forçar cortes


A decisão do governo federal de acabar com a chamada “taxa das blusinhas” já começou a provocar reação no varejo brasileiro. O CEO da Riachuelo, André Farber, afirmou que a companhia poderá demitir funcionários caso a medida seja mantida.
Segundo o executivo, o cenário criado após a revogação da alíquota de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 tornou a competição “insustentável” para as empresas nacionais.
“Se a gente chegar à conclusão que esta decisão de acabar com a taxa das blusinhas será mantida, vamos ter que começar a demitir pessoas. Não tem milagre”, declarou, em entrevista ao NeoFeed.
Hoje, a Riachuelo possui cerca de 450 lojas espalhadas pelo Brasil e emprega aproximadamente 33 mil pessoas. Apenas no primeiro trimestre deste ano, a varejista registrou receita líquida de R$ 2,3 bilhões, crescimento de 6,7% em relação ao mesmo período do ano passado.
Varejo foi pego de surpresa
A revogação da taxa foi assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na noite de 12 de maio e, segundo Farber, aconteceu sem diálogo com o setor.
O CEO afirmou que entidades importantes do varejo, como a Associação Brasileira de Varejo Têxtil (Abvtex) e o Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), não foram consultadas antes da decisão.
Nos bastidores, varejistas já vinham alertando sobre os possíveis impactos econômicos do fim da cobrança. Um manifesto assinado por cerca de 50 entidades chegou a afirmar que a medida poderia colocar em risco aproximadamente R$ 100 bilhões em investimentos no país.
Leia Também:
“Situação maluca”, diz executivo
Durante a entrevista, Farber criticou a diferença tributária entre empresas brasileiras e plataformas estrangeiras como Shein, Shopee, Temu e AliExpress.
Segundo ele, enquanto empresas nacionais arcam com uma carga tributária que pode chegar a até 90% sobre determinados produtos, plataformas internacionais conseguem operar pagando taxas muito menores.
“Estamos vivendo uma situação maluca. Existia uma assimetria tributária, que era de 40%, e agora chegou a 60%”, afirmou.
O executivo citou como exemplo um casaco vendido pela Riachuelo por R$ 100, que, segundo ele, acaba impactado por impostos de importação, Pis/Cofins e ICMS ao longo da cadeia.
Riachuelo avalia aderir ao cross-border
Outra possibilidade colocada na mesa pela companhia é adotar o mesmo modelo utilizado pelas gigantes asiáticas: o cross-border, sistema em que os produtos são enviados diretamente do exterior para o consumidor final.
Farber afirmou que a empresa poderia abrir uma operação fora do Brasil para importar mercadorias em pequenos pacotes, reduzindo custos tributários.
“Nada nos impede de fazer cross-border. Eu instalo uma empresa lá na Ásia, começo a trazer e mandar no formato de pequenos pacotes, que pagam muito menos impostos”, disse.
Apesar disso, o CEO alertou que uma mudança desse tipo poderia provocar desmobilização de operações no Brasil e ampliar o risco de demissões.
Governo queria ampliar acesso do consumidor
O governo federal justificou o fim da taxa afirmando que a medida ampliaria o acesso da população a produtos mais baratos e aumentaria as opções de consumo.
Farber, no entanto, rebateu o argumento e afirmou que não existe equilíbrio tributário entre empresas brasileiras e plataformas internacionais.
“Se quer dar mais acesso, tem que reduzir a carga tributária. O que não é razoável é beneficiar uma parte e não outra”, declarou.
Mercado reagiu negativamente
Após a revogação da taxa das blusinhas, ações da Riachuelo, Lojas Renner e C&A registraram queda na B3.
De acordo com relatório do BTG Pactual, a retirada da cobrança deve ampliar ainda mais a diferença de preços entre varejistas nacionais e plataformas estrangeiras.
No acumulado de 2026, as ações da Riachuelo já acumulam queda de 11%, enquanto o valor de mercado da companhia está estimado em R$ 4,2 bilhões.


