“RODO MENOS E GANHO MAIS”
Motoristas deixam Uber e 99 para fazer entregas e dizem ganhar mais
Profissionais trocaram o transporte de passageiros por plataformas de entrega


Motoristas que trabalhavam com transporte de passageiros estão deixando plataformas como Uber e 99 para apostar em serviços de entrega. A mudança tem sido impulsionada pela expansão de empresas do setor, como Shopee e Lalamove, e pela percepção de alguns profissionais de que é possível trabalhar menos e reduzir despesas.
Entre os motoristas que fizeram essa mudança estão Michele Bordignon e Tainá Casali, um casal de Canoas, no Rio Grande do Sul, que atualmente trabalha com entregas para a Shopee.
Tainá conta que a nova atividade trouxe mais tempo livre e reduziu os gastos com combustível e manutenção. Segundo ela, antes era necessário rodar cerca de 150 a 200 quilômetros por dia e trabalhar até 12 horas para conseguir R$ 244 líquidos após gastar R$ 100 com combustível. Contou em entrevista ao AutoEsporte.
Com as entregas, a realidade mudou. Ela afirma que consegue gastar os mesmos R$ 100 em combustível ao longo de três dias, às vezes mais, dependendo das distâncias, trabalhando cerca de quatro horas por dia. Para alcançar os mesmos R$ 244 líquidos, percorre entre 30 e 40 quilômetros.
Menos corridas e mais gastos pesaram na decisão
Para Tainá, a situação do transporte de passageiros também contribuiu para a mudança. Ela afirma que encontrou poucas corridas e valores que considerava desanimadores.
Além da redução dos gastos com o carro, a motorista cita a menor necessidade de limpeza do veículo e avalia que o transporte de passageiros apresentava mais riscos, apesar de reconhecer que assaltos também podem acontecer durante as entregas.
A rotina, porém, não é necessariamente tranquila. Michele explica que o trabalho começa no hub de Canoas, onde há mais de mil motoristas em um grupo. Segundo ela, são disponibilizadas entre 200 e 300 rotas no turno da manhã, mas os profissionais podem precisar esperar até duas horas e meia para carregar o veículo.
Depois, é necessário organizar os pacotes de acordo com a rota indicada pelo aplicativo. Em um dia, podem ser cerca de 110 encomendas e entre 60 e 80 paradas. Normalmente, o trabalho leva aproximadamente cinco horas, mas há ocasiões em que o motorista fica até 14 horas à disposição.
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Motorista também trocou passageiros por encomendas
Outro profissional que fez a mudança foi Isaac Toledo Dull. Lutador, ele trabalhava no Rio de Janeiro e atualmente atua como entregador em São Paulo pela Lalamove.
Antes, Isaac realizava corridas de motocicleta pela 99, mas decidiu abandonar o transporte de passageiros por considerar a atividade mais desgastante.
Entre os problemas citados por ele estão reclamações de passageiros, situações em que clientes não estavam de bom humor, desgaste da motocicleta e até casos de calote.
No trabalho com entregas, Isaac afirma que percebe menos reclamações e uma sensação maior de liberdade. Ele também diz que passou a ter menos despesas com manutenção da moto. Em relação à renda e ao tempo livre, porém, não percebe uma diferença significativa em comparação com o trabalho anterior. Contou ao AutoEsporte.
Flexibilidade é apontada como vantagem
Luciano Acioli, que também trabalha com a Lalamove em São Paulo, conta que teve dificuldades no começo para entender o funcionamento da plataforma. Com o tempo, passou a selecionar as corridas que considera financeiramente vantajosas.
Segundo ele, a renda aumentou de forma significativa em relação ao transporte de passageiros. Luciano também destaca a possibilidade de estabelecer horários próprios.
Atualmente, ele trabalha aproximadamente das 8h às 17h, com intervalo para o almoço, e encerra o expediente quando atinge a meta estabelecida. O motorista afirma ainda que deixou de trabalhar aos fins de semana e feriados e que as entregas se tornaram a principal fonte de renda da família.
Nem todos consideram a mudança vantajosa
A migração, porém, não trouxe resultados positivos para todos os profissionais.
Um motorista de Florianópolis, que preferiu não se identificar, relatou uma experiência negativa com as plataformas de entrega. Para ele, uma das diferenças está na possibilidade de escolha das regiões de trabalho.
No transporte de passageiros, segundo o profissional, o motorista consegue recusar uma corrida ao considerar determinada área perigosa. Nas entregas, ele afirma que precisa cumprir a rota mesmo quando ela inclui bairros considerados de risco.
O trabalhador também critica mudanças nas condições oferecidas pelas empresas. Segundo ele, algumas plataformas apresentam boas condições no início para atrair motoristas e, depois, passam a reduzir ganhos, escalas e aumentar as exigências.
Outro ponto citado é a produtividade. Em determinadas operações, ele afirma que o motorista pode deixar de receber pelo dia caso não consiga visitar cerca de 90% dos endereços previstos na rota.
Chuva, atrasos e pagamentos também entram na conta
A rotina também pode ser afetada por problemas que não dependem diretamente do motorista. Segundo o profissional, atrasos na chegada das encomendas à base podem fazer com que o carregamento comece mais tarde e reduza o tempo disponível para cumprir a rota.
Ele também relata monitoramento das entregas que não foram realizadas e a necessidade de retornar a determinados endereços para novas tentativas.
Nos dias de chuva,a diferença para o transporte de passageiros também seria maior. Enquanto o motorista permanece dentro do carro durante as corridas, nas entregas é necessário sair do veículo várias vezes, ficando exposto ao frio e à chuva.
O profissional afirma ainda ter enfrentado atrasos e descontos nos pagamentos. Segundo ele, deixou de trabalhar para uma das empresas em março e ainda não recebeu valores pendentes. Uma empresa, conforme seu relato, deve mais de R$ 1.400, enquanto outra teria um débito de quase R$ 900.
Escalas podem reduzir a renda
Outro problema apontado é a disponibilidade de rotas. O motorista afirma que precisa acordar por volta das 4h para verificar se foi escalado e, em algumas ocasiões, descobre que não terá trabalho naquele dia.
Segundo ele, há transportadoras que reúnem muitos motoristas, mas não possuem rotas suficientes para todos. Com isso, alguns profissionais conseguem trabalhar somente duas ou três vezes por semana.
Na avaliação dele, pode ser mais vantajoso trabalhar para terceiros que já possuem vários veículos agregados à operação do que utilizar o próprio carro exclusivamente para as entregas.
Mercado de entregas está em expansão
A mudança acontece em meio ao crescimento das operações de logística no Brasil.
A Shopee inaugurou depósitos logísticos em Goiás, Rio Grande do Sul e Minas Gerais e anunciou três novos centros de distribuição, em Vitória, Curitiba e Fortaleza. A expansão deve gerar cerca de 900 vagas de emprego no país.
A Amazon também ampliou sua estrutura e inaugurou 100 centros de distribuição em 2025. Já a Lalamove anunciou, na virada do ano, a marca de um milhão de entregas mensais e um crescimento de 12,4% no número de vans.
O que dizem as empresas?
A Lalamove afirmou que a migração entre diferentes modalidades de trabalho representa uma tendência de diversificação dentro da chamada economia de plataforma.
Segundo a empresa, 65% dos motoristas parceiros apontam a possibilidade de definir a própria rotina como principal motivo para realizar entregas.
A companhia também afirmou que alguns profissionais preferem atividades com contato mais pontual com o cliente, enquanto outros enxergam a logística como uma alternativa diante das exigências relacionadas à atualização dos veículos em algumas plataformas de transporte de passageiros.
Para realizar entregas com veículo próprio, a Lalamove informa que os profissionais passam por uma verificação diretamente pelo aplicativo. A plataforma aceita motos, sedãs, SUVs, utilitários e carretos, desde que atendam aos requisitos estabelecidos. Também é exigida CNH válida e definitiva, além do CRLV em dia.
A Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec) considera a migração uma tendência natural do setor. A entidade defende um ecossistema aberto e versátil para os trabalhadores e uma regulamentação nacional que preserve a atuação das plataformas e garanta proteção social aos profissionais autônomos.


