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Roberto Lessa: 'Quando estiver tudo bem, crie uma crise'

Joana Lopo
Por Joana Lopo
Roberto Lessa, vice-presidente do Grupo Aurantiaca
Roberto Lessa, vice-presidente do Grupo Aurantiaca - Foto: Eduardo Martins l Ag. A TARDE

Desde 2011 na vice-presidência do Grupo Aurantiaca, o agrônomo Roberto Lessa comemora os avanços da jovem empresa nascida no litoral baiano. Ele conta, nesta entrevista ao A TARDE, sobre os investimentos feitos a partir do ano de 2006 na cidade de Conde - a 182 km da capital - em um área verde de 2.226 hectares. É uma extensa plantação de coco que, segundo ele, tem 100% dos frutos aproveitados na comercialização da água de coco, assim como para a fabricação de biomantas (telas vegetais que evitam a erosão do solo). Lessa atribui o sucesso da empresa ao comprometimento social, ambiental e também pelo espírito criativo e inovador de perceber no coco um promissor potencial de negócios, já que, conforme a Embrapa, a Bahia é o estado brasileiro que mais produz o fruto.

A Auriantiaca começou em 2006 já com a produção de coco? Qual era o objetivo do investimento na época?

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O Grupo começou comprando terras no litoral norte. Investiu em propriedades agrícolas e com vínculo de turismo. Na medida em que fomos adquirindo essas propriedades, percebemos uma enorme quantidade de coqueiros e aí decidimos fazer um estudo de aproveitamento dessa área, não só para ver como se aproveitava a área, mas como transformar em algo produtivo para tornar o investimento algo relevante para região. Até então, era só terra com alguns coqueiros. Depois do estudo agrícola, decidimos plantar e aproveitar aquela área para cocos. Mas foi um estudo feito de forma bem interessante porque nós não fizemos planejamento nem projeto para ocupação da área em grandes extensões. Primeiro verificamos quais eram os grandes mananciais hídricos, bem como as grandes reservas florestais que tinham lá, e foi nos espaços vazios entre essas duas coisas que estabelecemos no projeto o plantio de coco. As propriedades hoje têm apenas 30% de área para plantio do coco, 70% é preservado, o que é uma raridade. Em uma conversa que tive com um pessoal de São Paulo, mostramos a eles o mapa com o desenho da propriedade e foi impressionante porque os 30% plantados não é em uma área contínua, mas um mosaico entre matas e coqueiros. Além de ser um desenho esteticamente muito interessante, ecologicamente é perfeito, porque quando se tem matas intercaladas com plantio há um melhor equilíbrio ecológico. Isso devido aos inimigos naturais, como as pragas que atacam os coqueiros na mata.

Qual o tamanho total do terreno, entre mata e plantação? Vocês só investiram no coco ou há outras plantações nessa área?

Hoje temos 2.226 hectares de plantio de coco apenas, implantado com a mais alta tecnologia agrícola e de sustentabilidade. O sistema de irrigação é extremamente moderno, que faz com que cada planta de coco receba uma dosagem correta de água e de adubo. Temos também em cada coqueiro, hoje, e isso é praticamente único no mundo, uma identidade, um código de barra. Assim, o coco nasce e recebe um número, a partir dai ele tem uma história para contar, sobre as pragas que teve, doença e produção. Então, com essas três informações: pragas, doenças e produção, teremos daqui a dois ou três anos, uma a quantidade de informação por planta que será maior que o seu prontuário médico. Não resolvemos investir no coco à toa. É impressionante perceber que a Bahia é o maior produtor de coco do Brasil e até agora não tinha nenhuma indústria por aqui. A gente era importador de produtos manufaturados de coco, ou seja, a matéria prima saía daqui, ia para São Paulo e depois voltava para a Bahia, uma vergonha!

De quanto é a produção anual de coco e qual a meta de vocês para quando estiverem em plena produção?

Bom, como somos uma empresa jovem, ainda estamos com as plantas em evolução, mas nossa meta é de chegar a 230 frutos por planta ao ano. Observe que a média nacional é de 34 frutos por planta ao ano, então estamos falando de um incremento enorme em cima do que existe como média nacional. Temos planta hoje, obviamente que é um exemplo que a gente não pode extrapolar, mas que chega a ter 400 frutos, então chegar a 230, que antes era uma meta desafiadora, é apenas uma obrigação.

Vocês também implantaram uma indústria em Conde, porque escolheram a cidade, já que não é a rota das indústrias baianas? De quanto foi o investimento?

Depois do projeto agrícola investimos na indústria, na Frysk Industrial, para verticalizar a produção. Decidimos implantar na circunvizinhança da fazenda para ter a questão da sustentabilidade e da logística, ou seja, o coco praticamente sai da planta e rapidamente está dentro da indústria. Nossa fazenda mais distante da industria tem 30 km e a mais perto 3,5 km. Praticamente dentro. Está muito bem localizada e fizemos esse investimento em Conde de uma indústria de altíssima capacidade, extremamente moderna, completamente fora do eixo econômico porque percebemos a carência da região. As indústrias, em geral, se instalam onde tem energia, água, suprimentos de nitrogênio e gás. Mas nós resolvemos fazer lá por duas razões básicas: gostaríamos que a industria de coco estivesse próxima da fazenda, porque é melhor para transportar o fruto da fazenda para a indústria próxima do que ter indústria distante. O coco, quando tira seus 350 ml de água, sobra ainda um quilo e meio de resíduo, teríamos de trasportar esse resíduo também. Quanto ao investimento total, entre terras e indústria, foi de R$ 450 milhões, sendo que 95% de recursos próprios. Ainda somos uma Startup, por isso não podemos falar em faturamento agora. O importante é que a cada mês cresce mais. Portanto, nossa expectativa é de faturar, no mínimo, RS 500 milhões ao ano. E não temos pretensão de sair daqui. Gostamos daqui e temos uma missão, com muitas etapas a serem cumpridas, aqui na Bahia, na região do Litoral Norte.

Quais são os produtos comercializados pelo grupo? Tem pretensões de exportá-los?

Hoje temos água de coco pura, com frutas, Capim Santo, Granbery, Jabuticaba, chá verde e no próximo mês lançaremos a água de coco com detox. Mas ainda teremos muitos outros produtos que serão lançados no final deste segundo semestre. Vão nascer outros produtos que não têm a ver com água de coco, mas a marca já é bem reconhecida pelo mercado. Interessante é que no Nordeste, principalmente na Bahia, o mercado era pequeno e, quando chegamos, rapidamente se tornou lider. Nossa bebida é engarrafada de maneira mais cômoda para o consumidor, com o nome Obrigada. Para isso lançamos duas embalagens inovadoras, em Pet. Uma de 350 ml e outra de 400 ml. Além da água, também produzimos a biomanta a partir da casca seca do coco. Elas estão sendo usadas em boa parte das estradas e avenidas construídas na Bahia, São Paulo e Minas Gerais. Dá para ver nossa fibra de coco nos taludes dessas estradas. As biomanta também estão recuperando jazidas de minérios em várias mineradoras do Brasil, como a Vale, por exemplo. Aproveitamos tudo do coco. Pensamos muito na sustentabilidade. Por isso somos líderes no mercado de produção de biomanta, e perceba que só temos dois anos e meio no mercado. Quanto à exportação, estamos iniciando os projetos com meta de até o final do ano começar a exportar.

Quanto à geração de empregos, vocês contratam pessoal de fora ou aproveitam a mão de obra local?

Temos no DNA da empresa a sustentabilidade e o compromisso social. Investimos pesado no desenvolvimento sustentável. Percebemos uma grande oportunidade de gerar emprego e renda numa região carente como o Conde. Hoje temos 80% do quadro de funcionários de moradores da região. Isso nos orgulha muito, quando vemos pessoas da região que eram ajudantes de padeiro, motoboy, que são profissões dignas também, mas essas pessoas hoje estão operando máquinas de extrema sofisticação, sistemas avançados de computador. Apostamos muito na capacitação e treinamento dessa pessoas para que elas possam evoluir sempre no conhecimento específico para atuar na área. Hoje, temos 470 empregos diretos entre fazenda e indústria, e a previsão é de gerar mil empregos depois que o projeto for finalizado, que deve ser em 2018 ou 2019, quando estaremos em plena produção.

Como é gerir esse negócio? O momento econômico do país tem impactado de alguma forma?

Estou há quatro anos aqui e tenho uma felicidade enorme nesse trabalho que desenvolvemos. Nossa equipe é harmoniosa. Em relação à crise, é preciso vê-la como uma grande oportunidade para fortalecer o que faz. Essa é a hora de refletir sobre coisas que não estavam na agenda do dia. Ajuda a ajustar a estrutura, as prioridades. Então, aprendi que quando estiver tudo bem, crie uma crise, isso sempre fortalece. Aqui vai tudo bem, não houve desemprego, pelo contrário, estamos contratando. Obviamente estamos avaliando o cenário econômico, o ambiente de risco com muito cuidado. Mas temos máquinas que precisam ser ligadas, e é um processo natural, o de contratação. Só para este ano, nossa previsão é de investir mais R$ 60 milhões.

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